quinta-feira, 31 de outubro de 2013

As memórias



Cada um vivencia a morte a sua maneira. No México, por exemplo, de 31 de outubro a 2 de novembro, há celebração para "el día de los muertos". Sim, celebração! As pessoas preparam um altar com flores, velas, adereços (muitas caveirinhas) e preparam os alimentos preferidos de seus antepassados. Acreditam os mexicanos que, no "día de los muertos", os espíritos de seus familiares vem visitar os que ainda padecem na esfera terrena. É dia de festa, de alegria!

No Brasil, por sua vez, o dia de finados é dia (meio) fúnebre, de visitar cemitérios e colocar flores em seus jazigos. Há cemitérios, como o que está enterrado o cantor gaúcho Teixeirinha, que há música, muita música para alegrar a visita dos vivos. Há outros que levam pequenas orquestras para desanuviar a atmosfera com música clássica.

Para mim, desde os 8 anos, o dia de finados sempre foi um dia triste em que eu tentava (mais uma vez) superar a ausência do meu pai. Passados tantos anos de sua morte, ainda não compreendo como é possível  - dia a dia - viver sem a presença maravilhosa de sua alegria. Era faceiro o meu velho! Era meu parceiro de histórias e de pescarias, de descobertas e planos para o futuro. Ele entendia a minha alma como ninguém. Eu ainda escuto os seus ruídos pela casa, sua risada estampando a boca de meu irmão - tão parecido com ele. Mas é, sobretudo, na minha estante, que marco nossos encontros diários. Os livros sempre foram nossa paixão compartilhada! 

Meu pai foi um homem admirável! Destes que passados anos não se consegue esquecer. Sentado na sua mesa de trabalho, onde advogava, escrevia poemas, textos críticos sobre literatura e cultura gaúcha e canções que abriam as janelas da alma. Escrevia comigo no colo e me iniciava nas artes das letras. Acho que ele sabia que na (e com a) escrita e na (e com a) leitura, sempre estaríamos juntos. "E assim nos permanecemos"!

Deve ser por isso que quando penso, hoje, o feriado de finados penso em vida. Penso nas memórias que me fazem ser neste exato momento aquela que escreve esta crônica semanal. Penso nas minhas superações, nas minhas conquistas, nos meus projetos futuros, nas minhas falhas e nas marcas que quero deixar pelo caminho. Estas marcas podem ser uma eternidade e uma presença importante para alguém...afinal, cada um vivencia a morte a sua maneira.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Para além das fronteiras

Eu sou de músicas pela casa. Sou dos sarandeios e das coreografias imaginárias dançadas de pé descalço.  Sou de balançar o corpo e sacudir a alma ao som de qualquer cantiga, seja com mp3, seja com rádio a pilha. Se o coração me levar, sou dançarina e bailo braços e sorrisos de iluminar quimeras.

Quando criança, esperava ansiosamente as tardes de domingo. Nestas tardes, na rádio da universidade, um radialista levava histórias para a casa de muitos ouvintes. Eu ficava quietinha, escutando e tentando adivinhar os porquês, os finais, o depois dos personagens. Eu sempre gostei de olhar para as pessoas e saber de suas riquezas incalculáveis, suas bagagens perdidas na memória das estações da vida.

Os LPs e as fita K7 faziam a minha festa nos demais dias da semana. Escutava o que escutavam os meus pais. Adorava Francisco Petrônio e o Grande Baile da Saudade e talvez agora o verso "ah que saudade tenho dos bailes de outrora" faça, ainda, mais sentido. Era um tempo em que sertanejo cantava música de raiz, falava das coisas da terra, da vida e das dificuldades do campo e música gaúcha obrigatoriamente tinha que ter passado pela Califórnia. Aliás, bons tempos os dos festivais, pois davam espaço e voz para artistas maravilhosos como Antônio Augusto Ferreira, César Passarinho e tantos mais. 

Na fronteira, o rádio é ainda mais interessante. Primeiro, porque as músicas não muraram muito. Aqui, ainda se escuta estas músicas inesquecíveis de outros tempos. Depois, porque aqui esta fronteira (quase) não existe. 

Em Santa Maria, esperava passar a meia-noite para sintonizar as rádios da Argentina e tinha grande dificuldade de escutá-las sem ruído. Era pela internet que isso funcionava melhor, mas se perdia o encantamento da sintonia, do rádio do lado, do som característico das estações AM. Aqui na região de fronteira, isto não acontece. Após às 18 horas, quase todas as rádios são do outro lado. É como se nos acercássemos mais e apagássemos as linhas divisórias que delimitam espaços, línguas e culturas (y otras cositas más). 


Na região da fronteira, o rádio inunda a casa, inunda a minha casa. Com seus comentários, suas memórias e suas músicas, eu sarandeio memórias e crio coreografias para o futuro. Se o coração me levar...se o coração me levar... sou dançarina e bailo braços e sorrisos de iluminar quimeras.

domingo, 13 de outubro de 2013

Poema dos teus olhos

Podia ser canção estes teus olhos
cama cálida de abraçar invernos

primavera, teus olhos-esperança
verões podiam ser, renascidos nos meus...

verão teus olhos-estrelas
verão renascer em mim
vento norte de tuas estações.

(ainda) sobre livros e (re)leituras

Eu sou uma leitora que se apega fácil e que sente saudade das leituras. Eu me apaixono fácil e morro de amores por elas. Estes dias, fui a uma livraria reencontrar Clarice Lispector. Fui invadida por uma necessidade absurda. Inexplicável. Eu precisava reler "A Hora da Estrela", precisava me encontrar nas frases inteligentes, sensíveis da autora. 

Clarice começa o livro com uma frase louvável, um verdadeiro convite para a leitura e para a vida: "Tudo no mundo começou com um sim". O sim nos leva a próxima página e a próxima e ao final do livro.

Há frases que são um livro todo. Há frases que nos permitem seguir lendo nossos interiores depois de fechada a portada do livro. Há, em meio a estes livros, autores e personagens que fazem parte da vida da gente, como um parente próximo.

Em "A Hora da Estrela", há períodos de tirar o fôlego. Há poesia entre os parágrafos. Há descobertas sobre nós...Em meio a leitura, descobri por que leio e escrevo tanto: puro desconhecimento de mim. "Vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino", assim declara o narrador. Assim somos nós, leitores de nós mesmos - livros em construção. 

Mas não é só com a Clarice que me acontece isso. Eu sempre preciso respirar fundo as palavras escritas, lidas. A primeira vez que me lembro de parar a leitura para ruminar meus pensamentos eu ainda era criança. Na adolescência, quando as leituras filosóficas invadiram minha cama, parei muitas vezes para me encontrar. Lembro que em Ecce Homo (Nietzsche) fiquei dias sem conseguir sair da frase "a consciência é uma superfície". Ainda me lembro dela e mergulho nos meus pensamentos. Se a consciência é uma superfície, como é possível encontrar as entrelinhas de nossas páginas mais profundas?

É preciso ter olhos de poesia para não se perder em meio a estes labirintos de linguagem(ns). É preciso ser Teseu e carregar novelos e novelos de lã por estas empreitadas interiores que a literatura nos proporciona. E, mortal que se é, é preciso ver além da prosa, é preciso sentir as palavras e ruminar os sentidos que há em frases como "a tristeza é uma alegria falhada" (Clarice Lispector, em "A Hora da Estrela").

É preciso se permitir! Boa leitura!

Google imagens (Teseu e o Minotauro)






sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Meus livros e suas histórias

Entre as histórias que me emocionam traço uma história paralela. É uma narrativa feita por mim, para mim. Coisa de quem tem um carinho especial pela obra, pelas obras, um apego material, uma dependência emocional, um amor inexplicável, inesgotável.

Meus livros são meus bens mais caros. São minha fortuna. São minha herança e o meu ciúme. São companheiros em meio as minhas crises existenciais, são minha companhia em noites de inverno, em noites de presença e em noites de solidão. Viajam comigo e viajo com eles. Nosso conúbio é entre nossas narrativas, nossas teias formada de palavras, espaços, tempo e personagens. 

Meus livros carregam uma história paralela escrita por mim.

Eu era adolescente quando comecei a escrevê-la.  Lembro que juntei um dinheiro para comprar meu primeiro livro de poemas. Fui ao centro da cidade e comprei uma versão barata dos poemas do Olavo Bilac. Me senti a pessoa mais rica e importante do mundo.

Eu já havia lido todos os livros da estante do meu pai. Conhecia a literatura do Rio Grande do Sul  e fazia incursões pela história. Mas livro meu, só tinha "História do Mundo para as Crianças", do Monteiro Lobato, livro que me acompanhou por muitas noites infantis, ao lado da cama e entre as mãos leitoras de meu pai. Eu já havia devorado os livros da biblioteca da escola, mas livro meu, livro comprado por mim, com meu dinheiro, eu ainda não tinha. Ainda hoje o livro de poemas do poeta das estrelas está em destaque na minha estante...

Foi nele que escrevi as primeiras frases desta narrativa não linear de meus livros. Esta história que pode ser iniciada por qualquer um deles e que levará a qualquer um dos mais de 500 que já habitam minha casa literária. Esta representação de minhas paixões, de meus sonhos, de meus desejos...cada livro traz um dado importante nas primeiras páginas, são indicações, vestígios de mim, de minhas facetas e minhas caminhadas. 

Escrita com todas as tintas, com todas as cores, estas narrativas permanecerão quando eu for apenas saudade, lembrança do que já não sou. Narrativas de mim, a história dos meus livros seguirão sendo linha e agulha para tecer o amanhã dos meus.. 
Google imagens.