quarta-feira, 23 de abril de 2014

De esperanças e amizades


 Ao seu Ari e aos nossos colegas Décio, 
Gilmar, Rodrigo e Ari, da UFFS.


É de impressionar como o tempo mudou a rotina, a vida, o comportamento das pessoas. Quando eu era criança, podíamos brincar livres pela rua de casa, os muros e portões eram baixos e nós podíamos pulá-los sem esforço. Da janela, gritávamos para a vizinha e a vizinha, comadre, chamava sempre que preciso. 

Hoje, eu moro em um apartamento e desconheço as pessoas. Sou eu, meu companheiro e a nossa gata. Na televisão, as notícias nos assombram e já nem saímos mais tanto assim de casa. É o inverso da vida social. Nos resguardamos do inesperado. Vivemos com medo.

Esta semana, porém, na vinda para Cerro Largo, me deparei com algo que pensava já não existir mais. Na estrada, eu e minha colega Ana Beatriz ficamos paradas por conta de um pneu furado - culpa da estrada esburacada e sem reparos. Era noitinha já e nós estávamos amedrontadas com o movimento da estrada. Ligamos para nossos colegas virem nos ajudar (parceria rara hoje em dia também!), mas fomos surpreendidas pela generosidade do seu Ari. O seu Ari, esposo da Teca, de Cerro Largo. 

Noite já - ele parou o carro e se prontificou a nos ajudar. Pessoa iluminada, deu sentido a nossa noite, me fez ver que no mundo ainda há pessoas boas, caridosas, dedicadas a fazer o bem. Animou a minha esperança na humanidade.

Certamente, seu Ari fará parte de nossas memórias  - as minhas e as da Ana Beatriz. Afinal, não é sempre que alguém pode ser chamado de amigo. Não é mana?





quinta-feira, 17 de abril de 2014

O exercício do olhar


Tenho escrito muito sobre afetividade, sobre as relações, neste espaço. Penso, às vezes, que sou repetitiva. É que minha vida gira um pouco em tentar compreender este aspecto humano. Este humanizar-se. Este aproximar-se dos outro.

Eu trabalho com pessoas, trabalho como mediadora de descobertas, de possibilidades, de aprendizagens. Eu sou professora e amo minha profissão. Neste trabalho aprendi a ver para além das formalidades de uma sala de aula, de seus rituais. Aprendi a ver as pessoas. E aprendi a ver assim, de uma hora para outra, diante de uma turma de 6º ano.

Era agosto e fazia muito frio.  Eu entrava na escola para minha primeira experiência no ensino fundamental. Haviam me dito que a turma para a qual eu daria a minha primeira aula de língua portuguesa era uma turma difícil, cheia de problemas. Eles não paravam quietos. Antes de entrar na sala de aula, tentei desfazer-me de toda e qualquer possibilidade de ver a turma com olhos alheios. Foi aí que uma mágica aconteceu. Eu vi por primeira vez. Havia vida naquele espaço. Cada dia que passava, em cada olhar, via uma história de vida diferente. Eram muitas dificuldades que eu realmente não poderia dar conta. Mas eu poderia, ali, naquele espaço pequeno em que compartilhávamos a existência, tentar criar um espaço afetivo de convivência e aprendizagens. Eu consegui, acreditem. Dar e receber amor é um exercício diário que precisamos abraçar como responsabilidade com a transformação, com a vida. E neste processo de transformar a minha sala de aula, acabei me transformando e aprendendo muito mais com meus alunos do que, sem dúvida, eles comigo. Eu jamais vou esquecer aqueles olhares amorosos....

Em tempos de Páscoa, em tempos de transformação, meu desejo é de que as renovações passem pelo olhar de todos os professores, de todas as equipes diretivas, de toda a comunidade escolar. Que haja doçura em suas formas de ver o ensino e que haja muito prazer em aprender e em ensinar. Que a escola seja espaço de alegrias ...


Afinal, já escreveu Saramago, “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Repara que, ao olhar com olhos de amorosidade, tudo terá valido a pena.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Em tempos de leitura e humanização

Esta semana duas obras muito interessantes tomaram conta de minha leitura: "A arte de amar", de Erich Fromm, e "A Cabeça bem-feita", de Edgar Morin.

Nesse clássico da filosofia humanista, Fromm abarca de forma muito simples e clara aspectos significativos relacionados ao amor. O amor e suas dificuldades, inclusive a de saber-se amar, a de deixar-se amar. Discorre ele que "apesar do profundo anseio por amor, quase tudo é considerado mais importante que o amor: o sucesso, o prestígio, o dinheiro, o poder - quase toda a nossa energia é empregada em aprender a alcançar esses objetivos, e quase nenhuma em aprender a arte de amar" (Fromm, p. 7). 

Em uma leitura inicial, me parece que o que Fromm reflete vem ao encontro das ideias de Humberto Maturana, na medida em que no pensador chileno vemos o amor não como um sentimento, mas como um o reconhecimento do outro como verdadeiro outro na relação. Aprender a amar é aprender a respeitar o outro. Premissa tanto em Maturana quanto em Erich Fromm. 

Para Maturana, há ainda uma outra questão em se tratando de amor. Para ele, o amor é um aspecto biológico do ser. Morin, a respeito disto, em "A Cabeça bem-feita", menciona: "o ser humano nos é revelado em sua complexidade - ser, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural. O cérebro por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mão, com a qual escrevemos, são órgãos totalmente biológicos, totalmente culturais" (Morin, p. 40).

Sempre me inquietou muito que nos cursos de graduação o tema amor, (o tema) das relações, não fosse parte das discussões. Em áreas humanas, me parecia uma contradição este distanciamento. Em cursos de formação de professores, então, me parece uma contradição ainda maior. Evidente que, ao me referir ao amor, trago à baila os teóricos já mencionados neste texto e, também, o nosso grande pensador da educação, Paulo Freire. 

Eis que lendo Morin, me deparo com o seguinte trecho e tudo fica mais claro neste sentido: "Paradoxalmente, são as ciências humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuição ao estudo da condição humana, precisamente porque estão desligadas, fragmentadas e compartimentadas. Essa situação esconde inteiramente a relação indivíduo/ espécie/ sociedade, e esconde o próprio ser humano. Tal como as ciências biológicas anula a noção de vida, a fragmentação das ciências humanas anula a noção de homem". (Morin, p. 41)

Diante disto, em meio as minhas leituras, cabe por fim algumas reflexões bem pontuais. Em termos humanos, precisamos ainda aprender muito. Em termos pedagógicos, educacionais  - ¡Qué se yo! ¡Un montón!




REFERÊNCIAS:

FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita - repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.



domingo, 6 de abril de 2014

De céus, estrelas e um punhado de incertezas

Angelise Fagundes

Meu tempo anda ruminante...
Volta e meia me puxa a manga da camisa
Me faz girar o corpo nos calcanhares
Eu olho o céu e olho os meus pés
Há um infinito entre o que somos
Carne e espírito - Corpo de vento

Meu tempo anda ruminante...
Me faz olhar o atrás, me faz perceber o avante
E teima em discutir com meus pormenores

Nas ruminanças entre o que somos
Decidi ser rio
Google Imagens

sexta-feira, 4 de abril de 2014

De Educação e de interesses

Napoleão Bonaparte, referindo-se aos interesses humanos, deixou registrada a seguinte frase: "todo homem luta com mais bravura pelos seus interesses do que pelos seus direitos". Em um universo de tantas individualidades, presenciamos, diariamente, uma bravura que chega a superar os limites da moral e da ética.

Um bom exemplo disto talvez seja o programa BBB - Big Brother Brasil, que em muitos países teve apenas uma versão, mas que no brasil virou uma febre incurável - ao menos até 2017. Neste programa de "realidade", os participantes realizam artimanhas de toda a ordem para alcançar o seu objetivo - ganhar um milhão de reais. Para isso, mudam  - conforme o interesse - sua forma de estar no mundo, de viver o mundo. 

Não vi, ainda, nenhum participante do BBB que afirmasse, após eliminação, ter feito cada ato de forma intencional. Tudo é sempre sem querer, tudo faz parte do jogo, tudo faz parte deste universo criado dentro de uma realidade que consideram não ser a mesma realidade "aqui de fora". Vale lembrar que os interesses mudam conforme o contexto em que se vive. Fora da casa, com ou sem dinheiro, o interesse (já) passa a ser outro. 

Vendo episódios do último programa do BBB, esta semana, me lembrei dos interesses que circundam a educação. A escola, a universidade, são como esta tela que emite sons e imagens para o mundo. Muitas vezes - eu diria que na maioria das vezes - esta "tela" não escuta o mundo, não acata muitas de suas motivações. É uma questão de interesse. Como diria o Marquês de Maricá - "a dialética do interesse é quase sempre mais poderosa que a da razão e consciência". Vai entender, então...

Interessada que sou - espero que a Educação de nosso país de uma forma geral, em todas as esferas, lute com mais bravura pelos seus direitos do que pelos seus interesses. Espero, de verdade, que as pessoas façam isso e que, humanizadas, anunciem mais e reclamem menos. Espero, com todo o meu coração, que interesses pessoais não afetem o coletivo de um projeto significativo em torno da Educação. Espero, por fim, que realmente se pense e se trabalhe para um projeto significativo para a Educação. 

"Os interesses particulares fazem esquecer facilmente os interesses públicos." (Montesquieu) 

Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...