sexta-feira, 25 de julho de 2014

De perdas literárias

As palavras silenciaram neste mês de julho.... silenciaram as memórias, os passos pela casa. As bibliotecas esvaziaram-se na ausência dos poemas vívidos que habitavam as estantes. Agora, só seres de papel e arte preenchendo os espaços entre os livros e os leitores. 

Já não há mais a possibilidade do abraço, só o ficcional, para sempre o ficcional. Já não há como esperar o próximo lançamento - só o póstumo, com fragmentos do não dito mas sempre em tempo de encontrar os olhos, os ouvidos e o coração de um leitor à espreita, na expectativa de mais um instante de felicidade. 

Eu me entristeço com a morte. Nunca fui sua amiga. Ela roubou muito cedo uma de minhas maiores alegrias e eu nunca a perdoei por isso. Neste julho, ela levou três alegrias das artes brasileiras. Fecharam-se três grandes bibliotecas na nossa terra. Foram-se os autores de prosa e verso - já não há mais estrada para Suassuna, Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. O caminho apagou-se um a um nestas últimas semanas. 

É certo, no entanto, que outros passos - seguidores destes mestres das letras -  continuarão recriando suas estradas. É certo, também, que nenhum deles saberá recriar tão bem e com tanta propriedade os universos de papel que estes escritores proporcionaram a todos nós. 

Que a leitura continue nos unindo!

"Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher e se chama Caetana. E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda."
 (Ariano Suassuna) 

"Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado: fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo."
(Ariano Suassuna - No poema "Lápide"). 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O ato de educar é uma semeadura*


Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores
(Alberto Caeiro)


Nas minhas leiturinhas, aprendi que "o ato de educar é uma semeadura*". No entanto, para que isto aconteça de forma produtiva, precisamos aprender a cultivar, primeiramente, a nossa terra interior. Precisamos aprender a ver. Precisamos educar os nossos sentidos.

Aprendi muito nestas minhas leiturinhas, textos (ainda) pouco lidos nos espaços acadêmicos em geral, mas de grande ensinamento sobre a prática escolar, sobre a vida, sobre a educação como um todo. Rubem Alves me mostrou que "o ato de ver não é coisa natural, precisa ser aprendido"* e que ensinar a ver é uma das primeiras tarefas da educação, seja na etapa de ensino que for. 

O educador Rubem Alves me mostrou também que "há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem"*; me mostrou que "há professores, pais, mães, instrutores que têm extraordinária capacidade de criar impotência de inteligência"*; que "há alguns que exibem seu conhecimento, seus saberes para humilhar os que ainda não sabem"*. Triste realidade esta que ainda vivemos em educação... Esta educação que deveria estimular o voo, o sonho, a alegria  - acaba por aprisionar toda a capacidade do homem. 

Lembrei-me destas leiturinhas que me ensinaram tanto por dois motivos esta semana. Rubem Alves, nosso grande educador brasileiro, está hospitalizado, talvez despedindo-se de todas as suas lembranças; certamente abrindo as janelas da alma para que todas as suas palavras ganhem vida em outros corpos. No meu, certamente estas palavras andam metamorfoseando as minhas linguagens - transformando palavras, sonhos em carne. O outro motivo - por demais especial - foi escutar de uma aluna que eu olho com carinho para os meus alunos e que este olhar permite abrir as portas da compreensão, deixa-os seguros. 

Acho que Rubem Alves me educou o olhar a ponto de me permitir ver em cada aluno um projeto de vida, sonhos, memórias, vivências, conhecimentos... me permitiu sonhar com a possibilidade de auxiliar o voo seguro... e esta é minha maior realização - a de ser gente, demasiadamente humana, nas minhas relações, na educação. Afinal, se "o ato de educar é uma semeadura"... eu quero semear o amor.


*ALVES, Rubem. Educação dos sentidos e mais...9ª ed. Campinas, São Paulo: Verus Editora, 2012.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

"Perder, ganhar, viver"

Quando o Brasil perdeu a tão sonhada copa de 1982, para a Itália, eu ainda não era nascida. Mas muito escutei falar da seleção maravilhosa que tinha tudo para ganhar o campeonato daquele ano. Era uma seleção admirável pelo que contam.

Carlos Drummond de Andrade, que acompanhou esta copa, após a perda do Campeonato de oitenta e dois, escreveu o texto "Perder, ganhar, viver". Neste texto, verseja o poeta sobre a arte da superação. Texto este muito apropriado para o que o povo brasileiro viveu esta semana, em casa, com a saída da Seleção Canarinho da disputa pelo primeiro lugar. Foram sete gols tomados. Uma goleada de lavar a alma alemã. Uma torcida tão sofrida e tão merecedora de alegrias como a nossa. 

Acontece que nós fomos programados para a vitória, para a disputa, não para aceitarmos a derrota. A derrota, no nosso imaginário, é sempre negativa, porque nós fomos "educados" para a competição. 

Na escola aprendemos a competir e competimos, em geral, vida a fora. Não aprendemos a trabalhar colaborativamente, a ganhar e a perder em equipe. Na escola, há notas altas, notas baixas, há aprovação e reprovação. Aquele que não acompanha, cai fora do campeonato. É burro!

Prova desta nossa educação para a disputa está nas vaias à Seleção. Nós, torcedores, perdemos junto com a nossa seleção. A Seleção que nos fez alegres tantas copas... que nos fará alegres tantas outras que virão. É preciso compreender que do outro lado do campo há méritos também.  É preciso compreender, ainda, que "não estamos de mãos vazias porque não ficamos com a taça do primeiro lugar. Ficamos com alguma coisa boa e palpável, conquista de espírito", como escreveu Drummond.  Afinal, para o poeta de Itabira  "a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida". Que nas Copas e na vida - dentro e fora de campo - possamos renovar as nossas esperanças e a nossa forma de estar e fazer o mundo.


O texto de Drummond referido na crônica pode ser encontrado no sitio:  http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=338

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Das contrapartidas no campo da Educação

Lembro-me do primeiro dia que fui para a escola. Tão grande aquele Colégio Padre Nóbrega que eu (já) imagina a dificuldade que seria subir aquelas escadarias até a sala de aula onde eu aprenderia a ver o mundo. Lembro-me da conversa franca dos meus pais, mostrando-me que  aquelas escadas eram o caminho mais fácil para "ser alguém na vida" quando se é desprovida de bens materiais. 

Na escola, o professor era sagrado. A professora Magda Elisabete Porto até hoje é uma deusa das descobertas alfabéticas para mim. Ela e sua amorosidade abriram as janelas dos meus olhos para o universo das letras. Com ela, escrevi e reconheci o meu nome. Com ela, aprendi que ensinar e aprender são verbos que caminham juntos, entrelaçados pelo amor que se dá no respeito ao outro, a si e a profissão. Com ela, eu quis ser boa aluna... com ela eu quis ser professora!

Neste universo entre a minha casa, a minha escola e o mundo, aprendi que estudar em uma escola pública requeria um pagamento, sim. Eu paguei cada centavo investido em minha educação. E não me refiro aos impostos, não! A minha contrapartida, o meu pagamento ao governo, foi aproveitar cada palavra, cada experiência, cada expectativa depositava nos meus estudos. Eu estudei para valer! Orgulho-me de nunca ter tido uma reprovação... orgulho-me de ser cria da escola pública, que com tantas dificuldades, me mostrou os melhores caminhos da vida. 

Advinda dessa escola (do Padre Nóbrega e do Cel. Pillar), aprovei duas vezes no vestibular da universidade federal. Na universidade pública, me formei em dois cursos de graduação, fiz mestrado e agora ingresso no doutorado em Educação. A minha contrapartida tem sido paga a cada novo investimento... 

Eu me orgulho de ser a primeira pessoa da minha família a fazer um doutorado, porque sei o quanto foi duro para meus pais, para meus irmãos, sobretudo para meus professores fazer com que eu chegasse até aqui. Eu sabia das dificuldades... o que eu não sabia e que fui descobrindo com o tempo é que para "ser alguém na vida" eu precisava adquirir bens imateriais, bens que o dinheiro não pode comprar, bens que mesmo não herdados são a maior herança que uma família pode deixar. Afinal, como sempre disseram meus pais, "o conhecimento é a única coisa que ninguém nunca nos tirará".

Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...