sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Declaração

Para o Marcus, porque somos feitos de poesia


Deita tua pele
sobre a minha
delineia a tua poesia
vem ser estrofe
rima rica com a minha.


Debruça tua boca
sobre a minha
meu ombro clama
pela tua companhia.

Acalma tuas ânsias
junto as minhas
faz da noite
o nosso dia.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Se foi o poema

Angelise Fagundes


Se foi o poema
na folha perdida
levado ao vento

Se fez norte o poema
ventania...
rasgou as páginas
e suas sinestesias

andou pelas ruas
entre as pernas das gentes
entre as saias
...se foi o poema

na esquina assoviou um verso
e partiu
ladeira acima
num descompasso 
se despediu

já era outro
outro poema
metade de ti
quase nada meu



"Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade!" Rubem Alves

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

De rivalidades esportivas e Educação

Para o colega  Luis Antonio Hass, que me ajudou a pensar neste texto


Humberto Maturana em suas obras, em especial na obra "Emoções e linguagem na educação e na política"*, alerta que "a competição não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro". Para o autor, as emoções envolvidas nas disputas esportivas não apontam para algo bom, porque a vitória de um time surge da derrota de outro. No último Grenal (que mais uma vez foi de alegria para o Internacional) pude observar duas condutas muitíssimo interessantes neste sentido e que podemos relacionar com os processos educativos.

Em pleno dia dos pais um gremista de quinze anos foi espancado por um grupo de colorados. O rapaz teve traumatismo craniano. Uma tristeza imensa! Dentro de campo, por outro lado, caminhamos um pouco mais em termos humanos no campo da rivalidade. Felipão foi recebido com muito carinho pelo grupo do Internacional. D'Alessandro, Alex e demais jogadores foram abraçar carinhosamente o técnico da equipe contrária que chegava, depois de uma Copa frustrada, novamente no Rio Grande do Sul.

Em meio a isso, em meio as leituras e as vivências futebolísticas, fiquei me perguntando sobre as possibilidades de educarmos para a aceitação do outro, para o respeito de si mesmo e do outro, para o compartilhamento - de ideias, materiais, conhecimentos (seria preciso uma revolução, criarmos outro tipo totalmente diferente de escola). Como me explicou o colega Luis Antonio Hass, da UFFS, o Grenal - maior clássico do Brasil - divide o estado em duas torcidas. Na cultura, como somar diante da divisão? 

Para além destas "matemáticas", vale colocar que tanto no campo da educação como no campo futebolístico, estimular a competição é correr o risco da não aceitação do outro, da sua negação como legítimo outro na relação. Para Maturana, se a educação estimula a competição e a negação de si mesmo e do outro que a competição traz consigo, a educação não serve. Quem sabe uma torcida única servisse para tornar os nossos jogos momentos felizes de compartilhamento, de alegrias... Precisamos aprender muito na convivência... precisamos caminhar muito em termos de Educação... 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

"Impossível viver sem sonhos".

Tenho um caso de amor com as leituras de Paulo Freire. Ele "coloca palavras nos meus sentimentos", como escreveu Rubem Alves a respeito dos seus autores preferidos. Com Freire, um de meus autores preferidos, a leitura flui, prazerosamente.

Hoje foi a vez de descobrir o livro "Pedagogia dos Sonhos Possíveis". Livro este organizado em 2001 (reeditado em 2014), por sua esposa Ana Maria Araújo Freire, a Nita, educadora e também divulgadora da obra de Freire. Neste livro cheio de material inédito do educador brasileiro me deparei com o a possibilidade do sonho. Freire declara na página 49 desta coletânea: "Impossível viver sem sonhos". Para ele  - e para mim também -  é impossível existir sem sonhos.

Assim como Freire, eu sonho com uma Educação que seja capaz de ampliar os saberes dos alunos, ampliar o seu campo de visão, que os torne mais sabedores do mundo e das coisas. Sonho som isso porque vejo a educação como algo que consegue dar às pessoas maior clareza maior para "lerem o mundo". Para Freire, esta abertura no campo de visão  - este "ler o mundo" - permite aos cidadãos tomar consciência de suas responsabilidades, intervindo, assim, na realidade em que vivem, transformando-a. 

Eu sonho com uma escola consciente de suas possibilidades, com uma escola intervindo na sua realidade, transformando-a cada vez mais. Para muitos, é uma utopia um cambio série e efetivo na situação educacional que vivemos.  Para mim,   uma realidade possível de ser conquistada com o trabalho efetivo (e afetivo) da comunidade escolar - que não é só o professor, mas os pais, os funcionários, os motoristas do transporte escolar, a comunidade que vive no entorno da escola, os prefeitos, os secretários de educação,  os professores universitários, etc. Afinal, se é impossível existir sem sonhos, que comecemos a viver agora, começando por decodificar o nosso possível.

Imagem retirada do site http://liliacamposmartins.blogspot.com.br/2012/03/mais-um-pensamento-de-paulo-freire.html

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

De leituras e processos antropofágicos

A leitura de Rubem Alves é sempre leve e prazerosa. Cada palavra tem um sabor, um som que envolve os sentidos do leitor, fazendo com que queiramos ir mais uma página e outra e outra mais. Consumimos o livro, inexplicavelmente... em pouco tempo!

Esta semana, após a morte do educador brasileiro, marquei novo encontro com seus temas educacionais. Em "Ostra feliz não faz pérola" (Editora Planeta, 2008), deparei-me com um texto que preencheu os sentidos de outros textos: "Antropofagia" (p. 124). Uma multiplicidades de vozes dentro de mim significaram cada linha, à moda Roland Barthes, à moda Oswald de Andrade, à moda Valdo Barcelos. 

Rubem Alves menciona: "escrevo antropofagicamente: quero que me devorem. Eu leio antropofagicamente: quero devorar aquele que escreveu". Para o autor, leitura, literatura é antropofagia

Na educação, o processo caminha por esta estrada também. É o que o professor Valdo Barcelos denomina de "antropofagia pedagógica". Nesta, buscamos os elementos, os ingredientes, os temperos necessários ao nosso fazer docente. Assim como Oswald de Andrade, que defendia um "tupy or not tupy that is the question", Valdo Barcelos orienta que não precisamos ir além das nossas fronteiras, de nossos trópicos, para buscarmos um rumo para a nossa Educação. Ele defende a ideia de que já é tempo de termos "coragem intelectual de começar a pensar por nossa própria conta e risco". É preciso que nos apropriemos de nossos intelectuais, destes que vivem e pensam esta terra Pindorama

Afinal, se "antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade"*, é preciso que a encontremos novamente, a fim de construirmos outro panorama educacional para este país. Que a leitura de Rubem Alves e Valdo Barcelos nos consuma...


*trecho do Movimento Antropofágico, de Oswald de Andrade, disponível em http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf