sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um país carente de humanidade, de respeito.

Estão querendo separar o Brasil. Sim, estão querendo. Estão querendo separar por pura falta de entendimento, por discordância, por sotaque, por jeito de viver e de pensar. Estão querendo separar por falta de conhecimento, de respeito a cultura do outro, ao outro. 

Quando a miss Ceará ganhou o miss Brasil foi um deus nos acuda. As redes sociais foram invadidas por um sentimento de ódio. Diziam que a moça não merecia ter ganho porque além de baixinha tinha um sotaque desagradável. Desde quando sotaque é desagradável? Sotaque é sotaque, gente! A forma de falar da gente carrega o que somos, carrega a nossa cultura, a nossa riqueza de povo. Desagradável é ter preconceito.

Mas não parou por aí. Após as eleições presidenciais, as redes sociais foram invadidas novamente por comentários xenofóbicos. Queriam separar o norte e nordeste do restante do país. Tudo isso por conta de votos. Há até quem tenha compartilhado imagens do Brasil dividido por um muro, sem dar-se conta de que para crescermos como nação precisamos justamente abolir estas linhas divisórias, independente de políticos, de partidos, de gestores públicos. Vi, nestes últimos dias, uma inversão do que Boaventura de Souza Santos chama de Epistemologia do Norte, Epistemologias do Sul.  

Vi um país carente de humanidade, de respeito. É isto que precisamos urgentemente mudar na nossa nação. Para crescermos, precisamos ser mais humanos. Precisamos olhar o outro como parte do que somos, como fundamental para nossa constituição identitária. Nós somos o Brasil e o Brasil somos todos nós. 




sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Un pajarito me contó que también estamos hechos de historias"*

Cada história "es una baldosita en mosaico del tiempo", escreveu Eduardo Galeano tempos atrás. E nós somos feitos destas memórias, somos cada pedaço deste ladrilhozinho costurado ao fluir das horas. A nossa identidade nada mais é do que este vivido, do que este experienciar do tempo, este acumular narrativas, de passado. Eu sou o que vivi em meio aos caminhos e descaminhos do meu caminhar.

Lembro-me  das pescarias à margem do Toropi. Eu era menina de subir em árvores e correr carreira com os piás da volta de casa. Era menina de buscar milho em lavouras e limões na beira da estrada. Era menina e tinha ouvidos ansiosos de escuta. "En la orilla del río", o mundo passou em palavras. Descortinou-se para mim nos versos iluminados do meu pai, que me ensinou a ver o mundo com olhos de esperança e amorosidade, encharcados de poesia, entre caniços e lambaris.

Narrativas. Pedaços do tempo que não se apagam de mim. Meu pai imprimiu nos meus ouvidos a sua presença eterna. Não sou sem ele. Ele não é sem mim. Nos descobrimos neste fluir do tempo, preenchendo nossas memórias passadas e nosso tecido imaginário de futuros. Nos perpetuamos. Nós somos e seremos sempre feitos de palavras, porque, como escreveu Galeano, "somos hijos de los días, hijos del tiempo, y cada día tiene una historia que contar. Porque estamos hechos de átomos, según los científicos, pero un pajarito me contó que también estamos hechos de historias".





*Eduardo Galeano

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

De políticas e de amor

O homem é um bicho estranho mesmo. Volta e meia recheia a sua vida de expectativas, sonha e sonha com visões românticas extremas, espera ansiosamente para que seus desejos sejam atendidos na medida (exata) em que foram gerados e acaba sempre frustrado. É uma obsessão meio bovarista!

Isto! Bovarista! Como Emma Bovary que casou-se com Charles Bovary e após algum tempo passou a desejar outro amor. No adultério imaginou encontrar a liberdade e a felicidade sempre desejada. Ledo engano! A satisfação pessoal nunca foi um atributo da personagem de Flaubert. Assim como não é o estado de espírito de grande parte das pessoas com as quais tenho cruzado nos últimos dias. 

Na política ou no amor, as pessoas perderam o foco e a memória. Reclama-se do governo atual como se reclamava do anterior e do anterior do anterior e como, certamente, se reclamará do que está por vir. Reclama-se por um estado permanente de insatisfação da alma. Reclama-se, mas se olvida que escolha é um direito exercido por nós. E, insatisfeitos com nossas próprias escolhas, delegamos a responsabilidade de nossas decisões aos outros: eu não elegi o fulano, não votei do sicrano... 

No amor ou na política, as pessoas perderam o foco e a memória. Busca-se no outro a possibilidade da realização total, plena. Busca-se em vão, assim como fez Emma Bovary! Depositar a responsabilidade de nossas escolhas em outras pessoas, esperando destas uma correspondência total aos nossos desejos - é humanamente impossível, visto que ninguém carrega uma bolinha de cristal anexada aos seus arquivos pessoais. É uma obsessão bovarista!

É preciso, urgentemente, tomar consciência de que nossas escolhas - sejam elas quais forem - são nossa responsabilidade. Escolher viver da ideia platônica do amor no mundo das ideias é escolher frustrar-se constantemente. Escolher votos de protesto, votos que são a decisão  de uma insatisfação não fundamentada - é escolher frustrar-se ininterruptamente. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Precisa-se urgentemente de (e)leitores qualificados

Tenho observado já há algum tempo algumas pessoas dedicando-se a fazer voto de protesto. Querem, com seu voto, eleger algum "político" que sirva como uma bandeira contra as barbaridades que vem acontecendo no nosso país. Será isso protesto mesmo? Tenho as minhas dúvidas.  

Recentemente, a CNN dos Estados Unidos da América fez uma reportagem no Brasil sobre as propagandas políticas veiculadas na última campanha. Esta reportagem foi ao ar na última quinta-feira, dia do último debate dos candidatos a presidência do país. Na reportagem mencionada, a repórter Shasta Darlington apresentou as propagandas do Tiririca, do Palhaço Mortadela, Obamas, Bin Ladens, Super-heróis e até Jesus na luta pelo voto do brasileiro. Foi triste ver o tom de deboche na reportagem, visão de fora que nos vê como pessoas pouco preparadas para disputar e para discutir sobre a política nacional. Viramos piada.

Piada esta propagada ao analisarem os discursos dos últimos debates - tanto em nível federal como em estadual. Se há por um lado gente preparada para "mudar" o cenário que vivemos (mudança esta que acredito ser lenta, bem lenta), por outro há gente extremamente despreparada para estar na disputa por um cargo. Despreparada politica e humanamente.

Mas o despreparo não está apenas do lado de lá, no lado dos candidatos. Nós (e)leitores precisamos mudar também. Precisamos urgentemente nos qualificar. É com consciência e com escolhas firmadas no conhecimento das propostas e da vida pública dos candidatos que colaboraremos para as mudanças que buscamos. Protestar é votar consciente!