sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Somos reféns das más notícias

Esta semana encontrei-me com Borges. Conversamos horas a fio sobre memórias. Contou-me o literato argentino sobre suas andanças e suas descobertas. Contei-lhe das minhas. Tomamos um mate, relemos o Funes e segui refletindo sobre miudezas cotidianas, como o fato do homem, por exemplo, sempre lembrar-se das coisas negativas, deixando de lado - incrivelmente - o que de bom lhe acontece.

Somos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos fixamos nos fatos negativos. É uma epidemia geral. Não conheço pessoa que não se prenda a estas ruínas nem sempre necessárias. Somos personagens propícios a melodramas, a folhetins mexicanos. Firmamos contratos com a negatividade sem ler as pequenas notas.

Volta e meia vejo alguém contando que o chefe nunca lembra das tantas coisas significativas que o funcionário realiza, mas se o subalterno esquece de algo, está feita a lambança. Nunca mais esquece o chefe do mísero fato. O subalterno enfia a cabeça no problema e esquece das coisas boas também. Entristece.  

Se algo não vai bem no relacionamento, nos prendemos a este fato. Um véu inimigo de Mnemósine nos venda as memórias positivas, as coisas boas da vida. Criamos problemas, evitamos soluções. Entristecemos. 

No final no ano, tempo de limpar os estoques e fazer os balanços necessários, nos damos conta de que a bolsa do ano fechou em queda, no negativo. Viramos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos infectamos com esta epidemia negativa e a única solução está na poesia. Na poesia vivida no dia a dia, no rolar das horas, no sorriso do rosto e na luz da caminhada.

Que dezembro seja iluminado, com tempo para semear esperanças!


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

“A LEITURA, RESSURREIÇÃO DE LÁZARO, LEVANTA A LÁPIDE DAS PALAVRAS” *


A história da morte e ressurreição de Lázaro é contada pelo Evangelho de João em uma das obras mais lidas ao longo da história da humanidade, a Bíblia. Lázaro [1], acometido de uma doença, morre. Após sua morte, suas irmãs intercedem junto a Jesus e este vai até o sepulcro e profere: “Lázaro, vem para fora!”João, o evangelista, conta que em seguida “o morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto coberto com um sudário”. Lázaro, retirada à lápide da morte, retornou a vida! Ler é retornar a vida, constantemente. É retirar a lápide das palavras, como escreve Perros. 

Este retirar a lápide, visto pela pedagogia de Paulo Freire, é a leitura como desvelamento da realidade, ou seja, é quanto o leitor surge de dentro do sepulcro, como Lázaro, e passa a dar sentido a esta leitura. Sentido este que vai além da compreensão do código escrito. É a leitura do mundo e, por conseguinte, a leitura da vida, das coisas, dos homens sobre si, sobre os outros e sobre o que os cercam, os relacionam. Esta compreensão do texto a ser alcançada pela leitura implica, segundo Freire (1989, p. 9), a percepção das relações entre texto e contexto, isto é, perceber a vida que está para além da escrita da palavra.
Os livros contam a vida. Os livros contam a vida dos homens. Os livros contam das coisas que dão vida aos homens. Os livros ensinam aos homens a arte de viver. A morte da leitura é, neste sentido, o abandono desta vida que chega de dentro para fora. 
Eis o porquê da leitura (que não é apenas a da palavra) ter tamanha importância: “o homem não pode participar ativamente da história, na sociedade, na transformação da realidade, se não for ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para transformá-la” (Freire, 1989, p. 47). É preciso que na família, na escola, na sala de aula, na comunidade e na vida com um todo, o homem seja preparado para uma autêntica educação, aquela que, como sempre defendeu Freire, liberte, não domestique e subjugue. Uma educação que tire a lápide da aprendizagem e permita ver as pessoas que fazem parte dela de uma forma integrada com o meio, com o mundo, pois aprendemos a ler a partir do que somos, do nosso contexto, de nossas leituras anteriores, como menciona Roland Barthes em seu livro S/Z- “esse ‘yo’ que aproxima al texto es ya uma pluralidad de otros textos, de códigos infinitos, o más exactamente, perdidos” (2009, p. 19). 
A leitura é, assim, uma forma de integração, de troca entre as pessoas no seu espaço ou fora dele. Isto é o que permite a produção do conhecimento e a ampliação dos saberes e das possibilidades de ler o mundo.


* Frase de George Perros
 
[1] (latLazaru, np de origem hebraica) 1 O que está atacado de lepra; leproso, morfético.2 O que está coberto de chagas (Dicionário Michaelis).

BARTHES, Roland. S/Z. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1992.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Para mover poeiras, poesia

Mormaços I

Há dias que sou
preguiça de mim
descansando em banho-maria.


Mormaços II

Há dias que sou saudade de mim


Mormaços III

Nestes dias, amor
é que tu me encontras desnuda de ais
que me olhas sem lentes

Nestes dias que te amo sem véus
e sem expectativas
não sou metades nem silêncios nestes dias.

Nestes dias sou abraço, beijo e cama
E tudo mais é esperança e raio de sol. 

Poema de noite só

Há dias em que 
o amor adormece estrelas
no céu de mim,
cadente.

http://quixotesforrosebaioes.blogspot.com.br/2012/10/um-haiconto-de-estrelas-e-vagalumes.html

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Estou farta....

Estou farta de tanta homofobia, de tanta xenofobia, de tanto racismo. Estou farta da agressividade diária que as redes sociais  e os jornais da nação têm perpetuado, compartilhado e (acreditem!) curtido Brasil afora. Estou carente de humanidade, de gente que tem brilho no olhar, que não se mecanizou. Estou carente de respeito coletivo, de responsabilidade coletiva. Estou necessitada de educação, de gratidão, de memória, de generosidade, de amor.

Recentemente, um professor da Universidade Federal do Espírito Santo foi afastado de suas atividades docentes por declarar, em aula, que preferiria ser atendido por um médico branco do que por um médico negro. Justificou o "ilustre professor" que um médico branco teria tido mais oportunidades ao longo de sua formação, que estaria mais bem preparado para o exercício da profissão. Este professor, frente a tudo isso, ainda acredita não ser uma pessoa preconceituosa e defende-se com argumentos que tentam justificar seu racismo. 

A educação está cheia de preconceitos velados, de preconceitos declarados. E não me refiro a Educação Básica. A Educação Básica ainda é o lugar que encontramos maior propagação do exercício da escuta, da colaboração, da humanidade, do respeito ao indivíduo. Refiro-me, em especial, ao Ensino Superior. 

Como aluna de graduação, escutei inúmeras vezes que, por sermos filhos da educação básica pública, por sermos brasileiros, jamais conseguiríamos ler devidamente literatura clássica, por exemplo;  que isso não era material acessível as nossas condições inferiores, porque brasileiro que se prese não lê, não sabe ler. E isso é apenas uma amostra das inúmeras barbaridades que já vivenciei como professora em formação. 

E é por isso que defendo uma educação firmada no amor, no amor difundido por Paulo Freire e por Humberto Maturana - o amor como a própria educação, como  a aceitação do outro como verdadeiro outro na relação. Nós precisamos urgentemente nos humanizar, humanizar nossas salas de aula. Só assim pessoas como este professor da Universidade Federal do Espírito Santo abandonarão o racismo e passarão a ver as pessoas a partir de uma outra ótica, que não a da cultura de dominação, patriarcal e ainda tão presente no nosso país.


Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...