quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Querido irmão,


Para Aline, Aroldo e Antonia


Há um ano viviamos a alegria de dois nascimentos: a Antonia, que chegava carregada de luz, de boas vibrações para o nosso pequeno universo familiar, e o teu, como pai, definitivamente. 

Neste meses que se passaram a pequena se fez gigante. Ela te ensina todos os dias que a vida é um universo de sonhos indecifráveis. Toda manhã, um sorriso; cada minuto, uma descoberta. E a felicidade revelou-se simples e enorme como o teu coração. O mundo é outro com ela e ela, generosamente, te segura pela mão e te ensina a caminhar a delicadeza dos passos de menina. Já és outro, percebeste? 

Ao te ver, vejo o velho Aroldo - cuidadoso nos gestos e no modo de falar. Amoroso. Com Risada larga que é como um abraço. Contigo, ela estará sempre segura. Com ela, tu serás sempre feliz. Com vocês dois - pai e filha - vejo a vida renovando esperanças e minha alegria está completa.


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos
Como sabê-los? (...)

Que coisa louca
Que coisa linda

Que os filhos são!

(Vinicius de Moraes)



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 6

Para Marcus Fontana, meu companheiro 
de viagens, de vida.


Viajar é mudar a roupa da alma, declarou Mário Quintana. Declarou, também, que viajar é mudar o cenário da solidão. Talvez, a solidão do outro, da cultura do outro, do que o outro representa em nós e para nós no nosso processo de existir.

Quando viajo me permito ver com calma nos olhos. Gosto de ir ao encontro do outro, sentir suas vivências, sua linguagem, suas dores, seus amores, seu ritmo, suas canções. Eu viajo me permitindo abrazar o desconhecido do meu cotidiano. Me encharco de memórias, de cheiros, de sabores, de imagens, de olhares, de contatos.

E se para viajar basta existir, como versejou Fernando Pessoa, existo porque viajo. Viajo nas páginas dos romances, viajo pelas esquinas dos versos de minhas poesias, viajo para meu passado e para o meu futuro. Viajo pelos mapas que traço, sonhadora. E isto é, para mim, o exercício da minha felicidade. 






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 5

Nós somos feitos de memórias. É impossível me ver hoje sem reviver meu tempo desfiado neste labirinto do minotauro que é a nossa história. Sou o que me propus viver, o que escolhi não vivenciar, o que me mostraram; sou as lembranças de outros e as marcas de outros; sou o que li e reli e o que ainda vou ler.

As últimas páginas do livro de Laura Esquivel ("Tan veloz como el deseo") me fizeram mergulhar no meu passado. Ler é isso - viver o que nunca viveríamos no espaço tênue ou profundo da uma narrativa. É mais - ler é reviver o vivido, é olhar para fora, para outros mundos, mas, também, para dentro de um universo nem sempre conhecido que somos nós.  

Com o livro, pude recordar o quanto as palavras, a presença e o exemplo são fundamentais para a constituição do que somos, para a nossa educação. Meu pai, passados 23 anos de sua morte, ainda é meu maior exemplo, meu herói. Ele, assim como Júbilo, personagem central da obra de Esquivel, era radiotelegrafista e tinha uma doçura no comunicar. Meu pai era um homem de anunciar, nunca de reclamar. Comunicava para fundar a paz, jamais a desesperança. E se nós somos feitos de memórias e se estas fundam o que somos, marcam o nosso corpo - quero as palavras do meu pai marcadas em mim para a eternidade, porque  - sim! - quero sempre ser uma voz que anuncia a alegria do caminhar. 

"No sólo eso, mi padre habitaba a mi cuerpo, en el de mi hermano, en el de mis hijos, en el de mis sobrinos. Su herencia biológica y emotiva estaba presente en todos nosotros. En nuestra mente, en nuestros recuerdos, en nuestra manera de ver la vida, de reír, de hablar, de caminar."
"Eso es finalmente lo que vale, que alguien perdure en la memoria gracias al poder transformador de sus palabras. Por cierto, las que contenían mi mensaje eran éstas:
 - Querida Chipi-Chipi, la muerte no existe, pero la vida, como tú la conoces, es maravillosa ¡aprovéchela! Te quiero por siempre. Tu papá". (Esquivel, pg. 194)

A literatura e nossos encontros... profundamente emocionada com a obra de Laura Esquivel.