quinta-feira, 28 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 17: das expectativas

A expectativa é um mal. No trabalho, na família, entre os amigos, em meio as leituras - a expectativa é um mal. Quando nos colocamos a espera de que nossos desejos sejam atendidos (geralmente) nos frustramos e nos entristecemos. Ao esperar do outro o que o outro não deseja realizar, lutamos a favor de nossa própria desesperança. Nos despedaçamos a partir de nossa própria iniciativa. Nós somos protagonistas e responsáveis por nossa decepção. Em tempo (sempre em tempo), é preciso aprender a não criar expectativa, a ser realista diante da vida, dos fatos. Humberto Maturana nos apresenta isto como um caminho possível para o viver. "El vivir humano en el presente sin dolor ni sufrimiento requiere vivir todas las dimensiones de los mundos humanos que surgen en el lenguajear (incluyendo el explicar, el comprender, los deseos, las expectativas, y la consciencia de sí, de ser y estar), como meros aspectos del flujo del vivir en el desapego al valor o sentido que uno podría dar al supuesto ser trascendente de lo distinguido, cualquiera que esto sea". Viver sem expectativa é amar no fluir do viver em pleno presente, legitimando o outro como verdadeiro outro na relação. "El amar no quiere ni busca las consecuencias del amar". A expectativa é um mal. Tomar consciência dela, um bem. Apropriar-se do que é de nossa competência, aceitar que somos donos apenas de nossas escolhas, uma libertação.
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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 16: Carta à Beatriz



Carta à Beatriz,

Contigo, amiga, aprendi a ver o mundo de outra forma, com outra lente, por outros ângulos. Dei sentido a muitas coisas. Aprendi a escutar mais, a me posicionar quando necessário (ainda estou aprendendo...), a verbalizar minhas dores, meu sonhos, minhas alegrias, minhas preocupações. Aprendi contigo a ver as pessoas e sua humanidade, a ver a todos como projetos de vida. Contigo, cresci. Cresci como pessoa, cresci como profissional. Aprendi que para ser uma profissional da educação deveria colocar na minha bagagem, um pouquinho de conhecimento, um pouquinho de profissionalismo, um pouquinho de respeito, outro pouquinho de responsabilidade, outro de criticidade e amor em quantidades extras. Contigo, aprendi a ver a educação para além da sala de aula - ampliei meus horizontes e sonhei. Contigo realizei projetos, cursos, caminhadas, reformas, murais, formações, cartilhas, blogs, textos, feiras do livro. Contigo, li muitos livros - os meus e os teus. Juntas descobrimos Maturanas, Freires, Pessoas - prosas e versos. Juntas caminhamos em tempos difíceis e juntas permanecemos em tempo de colher poesia e riso largo. Juntas seguimos para além de contratos e de possibilidades. Porque, amiga, há encontros que são para sempre e há pessoas que são para sempre. Tu és uma pessoa inolvidável - para sempre em minha vida. Tu és aquela que faz falta no trabalho, na roda de mate, nos assuntos sérios e nos não tão sérios assim. Tu és destas raras pessoas que são encontro, nunca despedida. Que sorte a minha ter chegado à porta da tua secretaria numa manhã fria de julho de 2010... 

Feliz Aniversário!

Angelise. 


 "A amizade é um amor que nunca morre". 
Mário Quintana
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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 15: das coisas que aprendemos com a minha mãe

Eu cresci capenga. Aos 8 anos, meu pai despediu-se de nossas vidas em um final de ano caloroso no interior de São Pedro. Era final de tarde, tarde para violas, poesias, causos e pescarias. Meu pai estava morto. A mãe não teve forças para me contar. Pediu a um amigo. Ela tentava arrumar uma luz que a deixasse de pé em meio a terremoto que abalou a sua vida aos quarenta anos. Ficou imersa em si uns quinze dias, lembro bem. 

Não foi fácil aprender a viver só. O pai era seus (a)braços.  Ela, então, buscou em nós todos os motivos para seguir em frente. E foi. Passo a passo foi construindo o caminho. Hoje, diferente da mulher de quarenta que insegura não sabia que caminho tomar diante das dificuldades da vida, a mãe decide a própria história. Reconstrói as suas andanças, (re)significa a vida, diariamente. 

Com ela aprendemos que a vida provoca abalos sísmicos inolvidáveis, mas que  precisamos sempre lembrar que dentro de nós há um "kit sobrevivência", pronto para nos auxiliar nas intempéries. Aprendemos que há amigos leais que nunca nos abandonam e que há pessoas que simplesmente desaparecem de nosso círculo. Aprendemos que a vida não espera que os nossos sonhos batam à porta, que é preciso buscá-los, construí-los. E nós sempre fomos incentivamos a correr atrás deles - com amor e responsabilidade. Com a mãe aprendemos a organizar a vida - econômica, administrativa e afetivamente. 

Eu cresci capenga, sim, mas com a mãe aprendi a me equilibrar em uma perna só. Sobrevivi a muitas intempéries também - e vou sobreviver a todas as que provocarão em mim pororocas e quedas d'água. Com a mãe, aprendi a ser forte, criei resistência no corpo e uma coragem na alma. E tenho aprendido - na roda da vida - a me manter em paz, feliz com as minhas descobertas.