terça-feira, 22 de setembro de 2020

Os olhos do meu filho


Angelise Fagundes


Depois de tantos poemas

não há palavras que definam

teu olhar

tus ojos, m'ijo

tus ojos

são só alegria a me acompanhar.


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O quadro


 Angelise Fagundes

Se pintasse, 

registraria a casa de imigrantes

que me abre as manhãs

todos os dias 

dessa quarentena

interminável


é um retrato do tempo

parado

a frente de minhas retinas

um retorno. uma memória. 


Se pintasse,

seria o quadro de minhas memórias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Desde lejos

Angelise Fagundes


agosto acorda minha saudade de ti

o encontro adiado com tuas curvas,

teus aclives 

e o pôr do sol que se despede quente e alaranjado a oeste 


a tua lembrança invade este meu inverno com vento norte 

entre a Pasqualine e a Acampamento

sou toda Rio Branco e seus esquecidos paralelepípedos, 

sua arquitetura art déco

sou os dormentes, a estação

e as pessoas nos domingos de brique


abraço forte os teus caminhos

e percorro cada uma de tuas veredas

rodopio por tuas esquinas 

toco cada um de teus recantos, 

tua desconcertante geografia.



Minicon-finamento

Passa da meia noite. No sofá, diante da TV ligada em canal aleatório, reconhece todas as suas vulnerabilidades diante do caos. Acorda pontualmente às 8h. Todos os dias. Toma café da manhã. Café preto, forte e acompanhado de uma fatia generosa de bolo. Dirige-se à porta e observa a vizinhança: casas quase sem vida, encerradas. Na contramão da paisagem, um homem. Religiosamente cruza próximo às 9h. É antigo na redondeza. Veste sempre a mesma calça. Marrom. Maior que ele. Dobrada na barra até a canela. Coz alto. Amarrada bem acima, na cintura - com um cinto preto, fazendo um leve franzido. Cruza sempre com passos largos e mãos nos bolsos. Inclinado para a frente, leva as mãos nos bolsos como se carregasse o mundo todo nas costas. Aonde irá? Talvez caminhar para desopilar do isolamento forçado. Talvez vá prestar algum serviço no bairro. Talvez vá ao centro da cidade comprar mantimentos. Em definitivo, o que ele fará, não sabe. Sabe, claramente, que espera sua volta. É um rastro de humanidade que vê passar todos os dias de sua porta - a metros e metros de distância. Saudável. Sempre saudável. Ao meio dia, serve o almoço para os conviventes. São sempre os mesmos. Olham para o prato com a mesma fome. Repetidamente, todos os dias. Sesteiam quando é possível. E quando não o é, guardam o corpo por horas sobre a cama. Às 15h, serve um chá de ervas que foram plantadas no verão passado, no canteiro da frente. O aroma invade a casa e os conviventes se sentam à mesa, convidados. Demoram-se aí até o telejornal. Às vezes, conversam. Outras, os olhos tagarelam todas as novidades em um silêncio abissal. São sempre profundos os olhos. O jantar, servido às 21h, é sempre pouco e breve. Cada um se recolhe as suas individualidades logo depois. E o sofá, enfim, é todo seu. Ali, pode reconhecer e acolher suas vulnerabilidades. Ali, pode até chorar. Sempre baixinho, sempre baixinho.

As torres


Angelise Fagundes - Cerro Largo, agosto de 2020

Duas torres observam a cidade


acima dos vitrais

anunciam em badaladas

causa mortis,

         nascimentos e

                           orações


As torres debruçam-se sobre a cidade e seu tempo

atenta aos seus movimentos

as torres contemplam os isolados e suas janelas

no abraço das horas dos meses sem fim

dia e noite

noite, enfim.

Poesia para um amor que nunca morre

                                                        da tua Didimon memórias nossas                em conversa com as estrelas           ...