quinta-feira, 10 de julho de 2014

"Perder, ganhar, viver"

Quando o Brasil perdeu a tão sonhada copa de 1982, para a Itália, eu ainda não era nascida. Mas muito escutei falar da seleção maravilhosa que tinha tudo para ganhar o campeonato daquele ano. Era uma seleção admirável pelo que contam.

Carlos Drummond de Andrade, que acompanhou esta copa, após a perda do Campeonato de oitenta e dois, escreveu o texto "Perder, ganhar, viver". Neste texto, verseja o poeta sobre a arte da superação. Texto este muito apropriado para o que o povo brasileiro viveu esta semana, em casa, com a saída da Seleção Canarinho da disputa pelo primeiro lugar. Foram sete gols tomados. Uma goleada de lavar a alma alemã. Uma torcida tão sofrida e tão merecedora de alegrias como a nossa. 

Acontece que nós fomos programados para a vitória, para a disputa, não para aceitarmos a derrota. A derrota, no nosso imaginário, é sempre negativa, porque nós fomos "educados" para a competição. 

Na escola aprendemos a competir e competimos, em geral, vida a fora. Não aprendemos a trabalhar colaborativamente, a ganhar e a perder em equipe. Na escola, há notas altas, notas baixas, há aprovação e reprovação. Aquele que não acompanha, cai fora do campeonato. É burro!

Prova desta nossa educação para a disputa está nas vaias à Seleção. Nós, torcedores, perdemos junto com a nossa seleção. A Seleção que nos fez alegres tantas copas... que nos fará alegres tantas outras que virão. É preciso compreender que do outro lado do campo há méritos também.  É preciso compreender, ainda, que "não estamos de mãos vazias porque não ficamos com a taça do primeiro lugar. Ficamos com alguma coisa boa e palpável, conquista de espírito", como escreveu Drummond.  Afinal, para o poeta de Itabira  "a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida". Que nas Copas e na vida - dentro e fora de campo - possamos renovar as nossas esperanças e a nossa forma de estar e fazer o mundo.


O texto de Drummond referido na crônica pode ser encontrado no sitio:  http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=338

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Das contrapartidas no campo da Educação

Lembro-me do primeiro dia que fui para a escola. Tão grande aquele Colégio Padre Nóbrega que eu (já) imagina a dificuldade que seria subir aquelas escadarias até a sala de aula onde eu aprenderia a ver o mundo. Lembro-me da conversa franca dos meus pais, mostrando-me que  aquelas escadas eram o caminho mais fácil para "ser alguém na vida" quando se é desprovida de bens materiais. 

Na escola, o professor era sagrado. A professora Magda Elisabete Porto até hoje é uma deusa das descobertas alfabéticas para mim. Ela e sua amorosidade abriram as janelas dos meus olhos para o universo das letras. Com ela, escrevi e reconheci o meu nome. Com ela, aprendi que ensinar e aprender são verbos que caminham juntos, entrelaçados pelo amor que se dá no respeito ao outro, a si e a profissão. Com ela, eu quis ser boa aluna... com ela eu quis ser professora!

Neste universo entre a minha casa, a minha escola e o mundo, aprendi que estudar em uma escola pública requeria um pagamento, sim. Eu paguei cada centavo investido em minha educação. E não me refiro aos impostos, não! A minha contrapartida, o meu pagamento ao governo, foi aproveitar cada palavra, cada experiência, cada expectativa depositava nos meus estudos. Eu estudei para valer! Orgulho-me de nunca ter tido uma reprovação... orgulho-me de ser cria da escola pública, que com tantas dificuldades, me mostrou os melhores caminhos da vida. 

Advinda dessa escola (do Padre Nóbrega e do Cel. Pillar), aprovei duas vezes no vestibular da universidade federal. Na universidade pública, me formei em dois cursos de graduação, fiz mestrado e agora ingresso no doutorado em Educação. A minha contrapartida tem sido paga a cada novo investimento... 

Eu me orgulho de ser a primeira pessoa da minha família a fazer um doutorado, porque sei o quanto foi duro para meus pais, para meus irmãos, sobretudo para meus professores fazer com que eu chegasse até aqui. Eu sabia das dificuldades... o que eu não sabia e que fui descobrindo com o tempo é que para "ser alguém na vida" eu precisava adquirir bens imateriais, bens que o dinheiro não pode comprar, bens que mesmo não herdados são a maior herança que uma família pode deixar. Afinal, como sempre disseram meus pais, "o conhecimento é a única coisa que ninguém nunca nos tirará".

sexta-feira, 27 de junho de 2014

De poesia e hereditariedade

A poesia sempre fez parte da minha vida.  No meu gene a poesia é a estrutura fundamental. E eu tenho como explicar esta hereditariedade: meu avô, minha avó, meus tios e meu pai eram poetas. 

Os Fernandes da Silva sempre se apresentaram ao mundo através de sua verve poética. O vô Pedro - que eu não conheci - trovava na Rádio Municipal São Pedrense, em São Pedro do Sul. Era conhecido na região - da cidade ao interior. Passou a trova adiante, pelo conviver das rimas. Meu tio Renato embalado pela sua gaita, trovava para toda a vila Gaúcha. O Tio Antonio segue rimando o seu sorriso, fazedor de alegrias. 

A vó Noemia iniciou os meus irmãos na arte da contação. Eu não lembro dela, morreu quando eu tinha apenas três anos. Porém, através de meus irmãos, reconstruí sua história de narradora. Era ela que despertava a imaginação deles nas noites em que posava na casa da gente... levando-os a viagens inesquecíveis pelo mundo do faz de conta.

O velho Aroldo, meu pai, versejava todos os dias na sua forma de viver a vida. Era iluminado. Iluminava. Antes mesmo de ler e escrever eu já recitava poesia pelas peças da minha casa, nas rodas de família, inspirada por ele, que escrevia comigo no colo e me mostrada o caminho do descobrir-se, do revelar-se em versos. 

Quando o pai morreu, foi a herança que me deixou: um pacote de lembranças, um violão e uma pasta com suas poesias. O violão silenciou-se. Eu nunca consegui aprender a conversar com ele. As lembranças me embalam todos os dias - estão presentes neste exato momento em que escrevo este texto - é o recheio dele. A pasta de poesias é um relicário guardado a sete chaves. 

Nesta pasta parda rabiscada com letra de pai estão as correspondências trocadas entre poetas, cartas que meu pai trocada com os seus pais enquanto morou em Cruz Alta e Porto Alegre, por conta de seu trabalho junto a Brigada Militar. É lindo ver, tantos anos depois, como a poesia unia a família. Era a língua compartilhada, o idioma familiar. 

Com a partida dos poetas, a poesia fragmentou-se. Hoje já não há um poema rimado que una as estrofes. Não há um verso no último terceto de nosso soneto familiar, todo chave-de-ouro. Mas há amor perpetuado em memórias... 


Velho Aroldo, com seu violão

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Se o Mundial fosse da Educação, qual país ganharia?

Em tempos de Copa do Mundo, todos nós nos perguntamos sobre que país tem os melhores atletas. Todos temos o nosso jogador preferido, o uniforme que nos agrada mais (em geral, o da nossa seleção), escolhemos ver determinados jogos de equipes que estão melhor articuladas, que têm mais técnica, mais arte dentro do campo. Todos nós temos nosso palpite sobre quem ganhará a Copa. 

Mas se o Mundial fosse da Educação, qual país ganharia?

As últimas pesquisas que apontam os ganhadores da Copa do Mundo da Educação são preocupantes. Os times que mais levantaram taças nos campos estão na linha do rebaixamento. Perderam ao longo da história posições importantes para vencer o campeonato. Hoje, somente uma renovação total na equipe permitiria avançar um pouco mais na tabela, mas ainda sem chances de concorrer as oitavas de final. Estamos mal no campo da Educação. Muito mal! Somos lanterna neste campeonato!

O PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - revela o nosso fracasso. Este programa desenvolvido e coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avalia alunos na faixa de 15 anos, tem o objetivo de apontar indicadores, "que contribuam para a discussão da qualidade da educação nos países participantes, de modo a subsidiar políticas de melhoria do ensino básico. A avaliação procura verificar até que ponto as escolas de cada país participante estão preparando seus jovens para exercer o papel de cidadãos na sociedade contemporânea"*. Neste jogo importante para a Copa do Mundo da Educação o Brasil ostenta as seguintes posições: em leitura e matemática, o antepenúltimo lugar, perdendo apenas para Colômbia e Argentina, e, em ciências, o penúltimo lugar, ganhando apenas da Colômbia. Uma tristeza para nossos países latino-americanos!

Se olharmos para a América Latina, veremos uma concentração importante de prêmios futebolísticos: Brasil, Argentina e Uruguai levantaram as taças do Mundial inúmeras vezes. Somos campeões nas canchas mas (ainda) perdedores nas salas de aula. Precisamos reverter este jogo urgentemente! Precisamos fazer do esporte mais um caminho para elevar a educação nos nossos países, como fazem os países desenvolvidos neste campo, onde os jogadores precisam estar estudando para participar de uma grande equipe esportiva. Já é tempo de avançar... de abandonar este espírito de "vira-lata", de colonizado... e começar rumo a autonomia, rumo a Educação.



*PISA: http://portal.inep.gov.br/pisa-programa-internacional-de-avaliacao-de-alunos 

Fonte da imagem: http://conseducbage.blogspot.com.br/  

quinta-feira, 12 de junho de 2014

De adeus e Copa do Mundo


 

Dias antes da Copa do Mundo no Brasil, Fernandão abandonou o campo. Largou a camisa 9 no banco de reservas e deu adeus a sua torcida. Foi antes para o vestiário...

Cresci escutando barbaridades dos amigos gremistas. Meu time não era Campeão do Mundo. Meu time não ganhava a Libertadores. O único título nacional que vi da minha equipe, quando eu era criança, foi a Copa do Brasil, em 92. No mais, apenas campeonatos gaúchos.

Eu adoro o Gauchão, mas campeonato grande, fora do estado, eu nunca havia visto o Inter ganhar. Com a chegada do Fernandão, o time (realmente) vestiu a camiseta. 

A morte prematura e trágica do nosso craque nos fez ver, Rio Grande afora, uma grande comoção. Missas, memoriais, homenagens - tudo que um grande ídolo merece receber. 

Nesta última quinta-feira, Fernandão iria estrear como comentarista esportivo. Ia ver a Copa do Mundo no Brasil de outro banco, de outro ângulo dentro da cancha. Já não pode mais! Mas pode ser referência para os nossos brasileiros vestidos de verde e amarelo. Que vistam a camisa e façam uma Copa melhor que a de 1950. Que seja uma Copa de embalar a alma do brasileiro... que traga alegria... que seja de paz e de muitas vitórias.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Em tempos de mudanças, comecemos por nós!

Dizem que as coisas mudam com o tempo, mas é você que, 
na verdade, tem de mudá-las. 
Andy Warhol

Tenho escutado com certa frequência (e falado também) que a Educação de nosso país precisa mudar urgentemente. Mudar a estrutura física, mudar a forma de trabalhar o ensino, mudar e mudar. Até o momento, não li (e não elaborei) nenhuma proposta sobre como fazer esta mudança acontecer.

Como professora que atuou na Educação Básica sei das dificuldades que a escola enfrenta. Realmente a escola tem dificuldades para determinadas mudanças! Não conseguiria tantas conquistas sozinha. A começar pelo corpo docente que se divide entre sala de aula, coordenação e supervisão pedagógica, coordenação administrativo-financeira. Mas é preciso tentar fazer algo, não é? Que tal começarmos por nos conectar? Formar redes de compartilhamento com nossos colegas, com nossos alunos, com a comunidade escolar. 

A tecnologia mudou a vida da gente! Mudou a forma de nos relacionarmos com o mundo, com as pessoas. Mudou a minha vida, que sou dos anos oitenta. Eu migrei para um universo novo - um mundo com Atari, Super Nintendo, Ps1, Ps2, Ps3, Wii e Xbox. Eu que escutava "Nenhum de Nós" em um walkman com toca fita agora carrego mais de mil músicas em um mp4. O meu nundo mudou! Eu escrevo todas as semanas esta coluna em uma página virtual e ela migra para o papel. 

Se o meu mundo mudou e eu me adaptei a ele (quase) sem restrições é preciso que eu me dê conta que o meu aluno, que os milhares de alunos que chegam hoje na escola e na universidade já nasceram neste universo tecnológico. São nativos digitais! Para eles, a escola não tem conexão, é offline. É preciso que nos conectemos. 

De repente (e aí me atrevo a sugerir), podemos começar por usar os recursos tão conhecidos pelos alunos para as/em nossas aulas. De repente, podemos aproveitar todo o conhecimento que eles têm para torná-los mais ativos no processo de aprendizagem, sendo agentes de transformação, porque... se dizem por aí que as coisas mudam com o tempo - alguém tem que puxar a frente.  Que sejamos nós!


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Conversas sobre Educação

           Semana passada escrevi nesta coluna uma frase do prof. Valdo Barcelos, professor da Universidade Federal de Santa Maria. Ele afirma que “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano” (2013, p. 24).
Pensando nesta afirmação, acredito que esta incorporação em se tratando de ensino deve começar pelo olhar (e pela linguagem) amoroso(a) do professor, “pelo amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador” (Morin: 2007, p. 71). Deve começar com o professor sendo (ou retornando como o) “o centro da pedagogia, não )o seu) apêndice”, como coloca Arroyo (2011, p. 10), pois é preciso deixar de ver o professor “como recurso”– seja ele da etapa de ensino que for. 
É preciso, como coloca Arroyo (2011, p. 10), que se “recupere a sua condição de sujeito da ação educativa junto com os educandos”. Afinal, é nas nossas relações, no nosso conversar, como propõe Maturana (2004, p. 31) que nos humanizamos, que nos mostramos como humanos e que temos condições de modificar a nossa cultura.  
É preciso então que a universidade volte-se para estas questões que vêem a educação como um processo de construção humana. Que os cursos de licenciatura, em especial, agreguem a sua formação elementos significativos à prática docente, no sentido de preparar os futuros professores para o exercício compromissado de sua profissão, no sentido de preparar estes futuros professores para, através de suas linguagens e ações – com o seu linguajear[1] - contribuir de forma mais efetiva (e humana) para as modificações necessárias à cultura educacional que vivenciamos. 
Que a formação docente para estes professores seja impregnada de conhecimento sobre o emocionar, sobre o amor – emoção esta que, na visão de Maturana, funda o social. Que na formação docente destes professores seja possibilitada a reflexão sobre as relações humanas para que, aos poucos, possamos ir vendo as transformações também nas escolas. Para que estas, como afirma Barcelos (2013, p. 28), surjam como “espaços de criação, de invenção e de incentivo à espontaneidade em detrimento da cópia, da imitação e da violência simbólica e física que, infelizmente, ainda se fazem presentes no cotidiano de nossos espaços educacionais”.




[1] Termo cunhado por Maturana (2004).

REFERÊNCIAS:

ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: Imagens e Auto-imagens. Petrópolis. VOZES, 2011.

BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos: contribuições da Antropofagia Cultural Brasileira.  Rio de Janeiro. VOZES, 2013.

MATURANA, R.M.; VERDEN-ZÖLLER,G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo. Palas Athena, 2004.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

De autópsias, poesias e práticas pedagógicas

                                          Uma parte de mim é permanente:                                                                                                      outra parte se sabe de repente
                                                         (Ferreira Gullar )

Descobri tarde as coisas que não gostava na escola e na universidade. Aprendi tarde a ter voz de dizer verdades. Descobri, por exemplo, que não nasci para autopsiar poemas. Eu os quero inteiros, imprimindo mil nuances as minhas interpretações. Não os quero repartidos. Não os quero pela metade. Não os quero pela boca de outros, mastigados.
Na escola, me perguntavam o que o poema dizia. Eu nunca tive coragem de dizer  o que o poema dizia. Para mim, o poema flutuava em minhas mãos, era portal. Não dizia. Me olhava, me espreitava. Mas o que pensava sobre o poema, não estava escrito no livro do professor. Então... 
Na universidade, para alguns professores, nenhum aluno era capaz de autopsiar um poema. Para eles, não éramos capazes, não conseguiríamos nunca. Poesia era um bem próprio para doutores examinarem (risos). Descobri tarde que eu não queria autopsiar poemas, pois não nasci para ser professora legista.
Em muitos momentos vivenciei práticas de tortura emocional em plena universidade pública – alunos de graduação sendo açoitados verbalmente porque não davam conta de modificar toda uma cultura educacional brasileira, afinal, não vinham para a universidade e seu academicismo recheados de leitura clássica. Para estes encontros, além da falta de envolvimento docente com a aprendizagem dos alunos, no sentido de prepará-los para a escola, faltava amor. Não só o amor pela própria arte que se trazia para o universo da sala de aula, mas fundamentalmente o amor ao humano, bem no sentido cunhado por Humberto Maturana.  
O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social. Por isso, digo que o amor é a emoção que funda o social. E sem a aceitação do outro na convivência, não há fenômeno social. (MATURANA, 2009, P. 23 E 24)

Este amor que é uma tarefa do sujeito para Freire era a própria educação. Para ele, “quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar” (Freire: 2008, p. 36).  É uma pena que, como afirma Barcelos (2013, p. 24), “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano”.

Que, em educação, não autopsiemos nossos sonhos... nem o de nossos alunos!
"que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio (...)
porque metade de mim é amor
e a outra metade também" (Oswaldo Montenegro)

Imagem retirada do sitio:
http://encruzilhadasliterarias.blogspot.com.br/2013/01/atencao-escritores-alencriativos.html

REFERÊNCIAS:

FREIRE, P. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. UFMG, 2009.
BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos - contribuições da antropofagia cultural brasileira. Rio de Janeiro. VOZES, 2013.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

De reconstruções



Quando eu viajo para outro lugar, gosto de ver a história marcada nos espaços públicos. Gosto de ver o passado reconhecido e respeitado no presente. Gosto de ver o passado como parte do presente na vida das pessoas.

Na Argentina, sempre me chamou atenção as manifestações das mães de maio, na Plaza de Mayo, em frente a casa do governo. As (agora) abuelas de mayo nunca deixaram o passado esquecido no tempo. O passado marcou profundamente a vida de cada uma destas mulheres, destas mães, destas avós. Está lá estampado em cada manifestação e marca a identidade do povo argentino.

O passado enquanto patrimônio arquitetônico é bem maior em muitos recantos de nosso Brasil também. Muitas cidades têm sua história nas ruas, preservada. No sul do Rio Grande do Sul vemos a promissora época de outrora nos prédios e praças de Pelotas, de Piratini, de Jaguarão. Em Porto Alegre, no centro da capital em especial, o passado corre paralelo a modernidade que se apresenta. O passado marca as identidades.

Se pensarmos a escola, o passado segue marcado de forma profundamente enraizada. A estrutura escolar em forma de carteiras, quadros e gizes segue intacta. Ainda não temos um presente que olhe efetivamente para este passado e se transforme em nova história. Não temos ainda um presente mudando (efetivamente) nossa forma de viver a educação. Meus olhos de educadora andam tristes neste sentido....

Esta semana os professores municipais, em São Paulo, saíram as ruas para reivindicar melhores salários. Cerca de 5 mil docentes colocaram a cara na rua para dizer que não estão satisfeitos com o que ganham, para dizer que precisam ser ouvidos. E precisam ser ouvidos urgentemente há anos.

Em um país onde todos querem dar pitaco na educação, é preciso ouvir os educadores. E ouvi-los para além de seus gritos por dignidade salarial. Em um país de tantas desigualdades, é preciso ouvir os professores falarem sobre o que realizam nas escolas que têm, com o pouco que têm em termos estruturais, em termos pedagógicos. Em um país que teima em fazer de suas manifestações atos de vandalismo - é preciso dar voz aos mestres. 

Google Imagens
É na educação que o Brasil acontece... É pela educação que precisamos nos mobilizar para criar um novo presente, para viver um novo futuro - sem jamais deixar de olhar criticamente para trás, observando nossa história, nossa caminhada, nossos equívocos. Afinal, somos hoje o passado que construímos. É preciso caminhar em educação sem  precisar bloquear a avenida Paulista e/ou a rua da Consolação.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Maio, mês feminino



Para Maria, Elisangela, Maria Eduarda, 
Aline, Antonia, Djalma, Marcia e Brenda

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a". Quinto mês do calendário gregoriano, seu nome deriva de uma deusa romana, Deusa da Fertilidade. Outras versões, apontam a origem à deusa Maya, mãe de hermes, o mensageiro.

Independente de sua filiação etimológica, maio é o mês que me faz lembrar o quanto nós, mulheres, desenvolvemos um papel de fundação, de pilares fundamentais em nossas família, na história, na educação de forma geral.

Na literatura, Malinche foi figura fundamental para a concepção do primeiro mexicano. No Brasil, Iracema e seu filho Moacir - cruza de índio com português -  abriram espaço para nosso mito fundador da brasilidade: uma mistura em tons de terra, céu, sol, mar e idiomas. No sul, Imembui cumpre este papel literário de conceber a vida e o amor em tons de poesia. Ao lado de Morotin deu a luz ao primeiro santamariense. 

Na vida da gente encontramos também estes mitos fundamentais. A mãe da gente é este mito fundador dos nossos lações familiares. Da nossa vida! Minha família existiu primeiro no ventre de minha mãe, casa compartilhada entre mim e meus irmãos. Foi ela, a dona Maria, que preparou o espírito e abriu as portas do corpo para que existíssemos. Sem ela, nem Aroldo, nem Elisangela, nem Angelise. Dela, novas famílias dão vida a vida da gente. Com ela, novas mães agregam-se ao nosso universo feminino de gerar vida, o homem, o humano.

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a".

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao Pacheco com amor...

Esta semana eu realizei um sonho de leitora, conheci o escritor José Francisco de Almeida Pacheco. Esta semana eu realizei um sonho de educadora, conheci o professor José Francisco de Almeida Pacheco. Pessoa simples, o Zé da Ponte abriu sua fala no 3º SENID (Seminário Nacional de Inclusão Digital), em Passo Fundo, com um convite ao diálogo. Diretamente nos indagou sobre as perguntas que teríamos para fazer a ele, porque ele não estava lá para dizer nada, mas para conversar conosco.

Eu sempre fui do diálogo. Inquieta, sempre quis me posicionar. Na escola, quando cheguei como professora, o que eu mais queria era poder dialogar, aprender em um sistema de compartilhamento. Conversar em um nível pedagógico - sonhar, planejar, realizar. Inúmeras vezes, durante a fala de Pacheco, eu desejei perguntar o porquê de tamanha falta de diálogo nos espaços de ensino Brasil afora: falta de diálogo entre os professores, com a comunidade, com os pais, com os alunos. Há um silenciamento que me angustia profundamente. 

Livre das verbas e das políticas governamentais, o Pacheco realiza o Projeto Âncora aqui no Brasil. Disse ele que cansou de ouvir dos colegas que o escutavam nas inúmeras falas que realizava pelo país que os sonhos que ele colocava em prática só eram possíveis em Portugal, no primeiro mundo. "Ora pois", então ele veio fazer educação aqui. Faz educação com a comunidade, com as pessoas. Na sua escola todos são bem-vindos a construir um espaço de interação e de aprendizagem mútua. É lindo de ver!

Contou ele que há quase quarenta anos, na Escola da Ponte, em Portugal, um aluno apareceu na escola todo desgrenhado, sujo. Ao chegar, o professor Pacheco indagou sobre o que havia acontecido com ele. O rapaz contou que no barraco que ele morava não havia luz e que durante a noite a irmã dele havia gritado muito, por horas. Pela manhã, quando o sol despontou, descobriram o motivos dos gritos da menina: os ratos haviam comido uma de suas orelhas. Diante da história de Nelson, o professor Pacheco disse ao rapaz que talvez tivesse sido melhor ele ter ficado por casa, já que a família precisava dele. O garoto, então, respondeu ao Zé da Ponte que estava ali porque precisava estar, porque quando saía de casa para ir a escola, sentia algo dentro do peito que mais parecia ser alegria.

Alegria... e disse tudo!

Durante mais de uma hora eu me emocionei inúmeras vezes com histórias como a do Nelson. Sonhei uma escola como a do Pacheco para os inúmeros alunos que já tive. Sonhei uma escola assim feita pelos meus alunos; que eles façam uma escola assim amanhã - uma escola de alegria, firmada nas relações humanas, no amor. Porque, já me contou o professor José Pacheco que o "professor não ensina o que diz, ensina aquilo que é". Que sejamos feitos de amor, porque "para a educação vamos por dois caminhos: ou por amor, ou por vingança. Ficamos por amor, o amor de Varela, de Maturana, de Freire - estes maravilhosos latino-americanos" (Pacheco).




Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.