quinta-feira, 5 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 7

Para todos meus tios, primos,
irmão, pais, que sempre me fizeram ver 
na simplicidade das coisas a alegria de permancer.

Sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória. Coloco margarina e açúcar cristal na minha fatia imaginária. Saboreio lembranças!

Minha infância tem cheiro adocicado. Cheira a doce de leite feito em casa, pela tia Nida e pela minha mãe. A mãe ficava horas e horas as voltas com o fogão a lenha, no fundo do pátio, remexendo o tempo que só é passado. A tia reservava surpresas no armário de madeira amarelo.  E sempre (sempre!) fazia o tempo render carinhos, presença e narrativas. Ainda escuto, no corredor de luzes acesas da minha memória, o sapo em seu coaxar, entre concursos e risadas. 

Ir a São Pedro e não comer as roscas da tia Diones, feitas com vinagre,  é o mesmo que não ir.  Ela amassa com ternura o espaço e o tempo  - nos faz crianças em volta da bacia de nossa infância. 

Minha infância tem cheiro de churrasco de pai. Tem o tio Diogo na cozinha e tem chá de boldo de prontidão. E tem roda, família reunida, felicidade. 

Ainda sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória enquanto viro a página de mais um livro de Laura Esquivel. Em "Como água para chocolate", o narrador me teletransporta para o universo único de minha memória. Definitivamente sou feliz!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Querido irmão,


Para Aline, Aroldo e Antonia


Há um ano viviamos a alegria de dois nascimentos: a Antonia, que chegava carregada de luz, de boas vibrações para o nosso pequeno universo familiar, e o teu, como pai, definitivamente. 

Neste meses que se passaram a pequena se fez gigante. Ela te ensina todos os dias que a vida é um universo de sonhos indecifráveis. Toda manhã, um sorriso; cada minuto, uma descoberta. E a felicidade revelou-se simples e enorme como o teu coração. O mundo é outro com ela e ela, generosamente, te segura pela mão e te ensina a caminhar a delicadeza dos passos de menina. Já és outro, percebeste? 

Ao te ver, vejo o velho Aroldo - cuidadoso nos gestos e no modo de falar. Amoroso. Com Risada larga que é como um abraço. Contigo, ela estará sempre segura. Com ela, tu serás sempre feliz. Com vocês dois - pai e filha - vejo a vida renovando esperanças e minha alegria está completa.


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos
Como sabê-los? (...)

Que coisa louca
Que coisa linda

Que os filhos são!

(Vinicius de Moraes)



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 6

Para Marcus Fontana, meu companheiro 
de viagens, de vida.


Viajar é mudar a roupa da alma, declarou Mário Quintana. Declarou, também, que viajar é mudar o cenário da solidão. Talvez, a solidão do outro, da cultura do outro, do que o outro representa em nós e para nós no nosso processo de existir.

Quando viajo me permito ver com calma nos olhos. Gosto de ir ao encontro do outro, sentir suas vivências, sua linguagem, suas dores, seus amores, seu ritmo, suas canções. Eu viajo me permitindo abrazar o desconhecido do meu cotidiano. Me encharco de memórias, de cheiros, de sabores, de imagens, de olhares, de contatos.

E se para viajar basta existir, como versejou Fernando Pessoa, existo porque viajo. Viajo nas páginas dos romances, viajo pelas esquinas dos versos de minhas poesias, viajo para meu passado e para o meu futuro. Viajo pelos mapas que traço, sonhadora. E isto é, para mim, o exercício da minha felicidade. 






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 5

Nós somos feitos de memórias. É impossível me ver hoje sem reviver meu tempo desfiado neste labirinto do minotauro que é a nossa história. Sou o que me propus viver, o que escolhi não vivenciar, o que me mostraram; sou as lembranças de outros e as marcas de outros; sou o que li e reli e o que ainda vou ler.

As últimas páginas do livro de Laura Esquivel ("Tan veloz como el deseo") me fizeram mergulhar no meu passado. Ler é isso - viver o que nunca viveríamos no espaço tênue ou profundo da uma narrativa. É mais - ler é reviver o vivido, é olhar para fora, para outros mundos, mas, também, para dentro de um universo nem sempre conhecido que somos nós.  

Com o livro, pude recordar o quanto as palavras, a presença e o exemplo são fundamentais para a constituição do que somos, para a nossa educação. Meu pai, passados 23 anos de sua morte, ainda é meu maior exemplo, meu herói. Ele, assim como Júbilo, personagem central da obra de Esquivel, era radiotelegrafista e tinha uma doçura no comunicar. Meu pai era um homem de anunciar, nunca de reclamar. Comunicava para fundar a paz, jamais a desesperança. E se nós somos feitos de memórias e se estas fundam o que somos, marcam o nosso corpo - quero as palavras do meu pai marcadas em mim para a eternidade, porque  - sim! - quero sempre ser uma voz que anuncia a alegria do caminhar. 

"No sólo eso, mi padre habitaba a mi cuerpo, en el de mi hermano, en el de mis hijos, en el de mis sobrinos. Su herencia biológica y emotiva estaba presente en todos nosotros. En nuestra mente, en nuestros recuerdos, en nuestra manera de ver la vida, de reír, de hablar, de caminar."
"Eso es finalmente lo que vale, que alguien perdure en la memoria gracias al poder transformador de sus palabras. Por cierto, las que contenían mi mensaje eran éstas:
 - Querida Chipi-Chipi, la muerte no existe, pero la vida, como tú la conoces, es maravillosa ¡aprovéchela! Te quiero por siempre. Tu papá". (Esquivel, pg. 194)

A literatura e nossos encontros... profundamente emocionada com a obra de Laura Esquivel.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 4

Nos tornamos reféns dos padrões. Precisamos estar na moda, ser suficiente magra, bem sucedida. Precisamos, às vezes, até sem saber o porquê. Precisamos pelo simples fato de que está posto. Não refletimos sobre isso... seguimos a onda, apenas. Fugir de quaisquer destes caminhos é mergulhar no profundo rio da crítica, seja feita por nós mesmos, seja por outras pessoas.

Recentemente ganhou nota em muitas mídias o fato de uma menina de Canguçu (RS) ter se inscrito (ou sido inscrita) para o Concurso Garota Verão. Até aí, nenhum problema, não é? Muitas meninas desejam desfilar  e sonham em ser modelos. Acontece que a Vanessa estava fora dos ditos padrões. Virou manchete, nota, postagem no Facebook! Para surpresa de muitos e para a certeza de que algo ainda se pode salvar neste mar de insanidade, Vanessa foi lá e arrasou. Desfilou para mostrar que não existe padrão para a boniteza do que ela é.

Se o manequim é 36 ou 46  - não importa. A alegria de se fazer o que se quer, de ser quem se é não cabem em um número, nem podem caber dentro de um padrão. A moda muda, o "padrão" de beleza (imposto) muda e ser bem sucedido nem sempre está em alta. Mas ser feliz,  independente do que os outros vão pensar, não tem preço.

Que a Vanessa seja a primeira Garota Verão a nos libertar destas amarras!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 3

"Marco Archer Moreira. Brasileiro. Condenado a pena de morte. 
Morto na Indonésia no último dia 17". 

Os dias que antecederam e sucederam o assassinato do brasileiro na Indonésia foram de inúmeros comentários nas redes sociais. Procurei me abster de qualquer manifestação no fervor da notícia, pois estes temas costumam gerar (ainda mais) conflitos no campo das comunicações. É como política, religião - todo mundo quer manifestar seu ponto de vista acreditando em sua capacidade de ser respeitoso com o outro, mas se o outro divergir de opinião, os argumentos ganham unhas afiadas e há uma imposição em cada palavra. Pois bem...

No país em que vivemos muitos são condenados a pena de morte diariamente. Alguns, ao nascer, já tem tempo de vida pré-destinado. E nós pouco nos lembramos disto, não é verdade?! A pena, às vezes, é a fome que bate a porta; outras, o tráfico que teima em tomar posse; em inúmeras oportunidades, é a falta de acesso a saúde, a educação. Muitos brasileiros morrem no nosso país diariamente condenados por suas penas. Há inúmeras formas de morrer!

Eu sou contra a pena de morte seja ela onde for, com quem quer que seja. Simples de explicar o porquê: eu sou favorável a vida. Ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém, por maior erro que esta pessoa possa ter cometido.  Isso me faz lembrar de uma entrevista feita ao Humberto Maturana que li recentemente. Ele conta que na sua sala de estudos tem na parede um quadro com a Declaração dos Direitos Humanos e que a estes direitos ele acrescentou mais dois, que percebe serem pertinentes a nossa constituição humana. São eles: o direito de errar  e o direito de mudar de opinião. Para Maturana, estes direitos são uma forma de ampliação da aceitação do outro, pois "se não podemos cometer erros, não podemos corrigir erros". 

Eu acredito na mudança constante que nos move. Acredito que muitos educadores que vi posicionando-se favoráveis a pena de morte, a violência, mover-se-ão em direção ao outro e a si mesmos. Acredito que nos humanizaremos no espaço amoroso de nossa convivência e assim não precisaremos mais morrer na falta de nós mesmos. 

(...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 2



Por este dias fui presenteada com o livro "Tan Veloz como el deseo", de Laura Esquivel. Leitura fluida e prazerosa, o livro da escritora mexicana tem me feito pensar sobre as palavras, sobre o poder que as palavras têm no nosso conviver. 

Júbilo, personagem central da obra, tem um dom especial. Ele consegue mediar as palavras, consegue escutar mais além do dito. Ele percebe as intensões, os pensamentos e o ânimo de todos. Ele traduz, assim, os sentimentos que as palavras carregam, o sentimento das pessoas e com isso ajuda estas pessoas a comunicarem-se com os demais, a reconciliarem-se com os demais.

Júbilo é um bom exemplo daquele que faz valer o conviver. Na obra, ele é filho de uma imigrante espanhola e um descendente  dos antigos povos maias. Com a mãe, fala espanhol. Com a avó, o "maya". Ele é a ponte entre a avó e a família. E nesta ligação, tenta fazer com que sua mãe e sua avó superem problemas interculturais. Ele faz com que ambas vivam em harmonia, pois ao traduzir o que as matriarcas dizem - ele traduz apaziguando as palavras.

É preciso ser um pouco Júbilo na nossa essência, penso eu. Ao nos comunicarmos, precisamos pacificar as palavras. Há tantas formas de dizer as coisas, não é?! Dizê-las com o intuito de construir pontes e alegrias me parece ser um caminho bonito. Escutar, falar e escrever como quem ama... minha escolha para o ano que recém engatinha.  


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 1

Toda vez que ligo a televisão perco um pouco de fé na humanidade. A televisão sangra. É noticia triste atrás de noticia triste. 

Esta semana o mundo voltou-se para a França. Lá, o humor perdeu a graça após um atentado que matou doze pessoas. Doze vidas cheias de sonhos para 2015, sonhos estes que não se concretizarão.

Aqui, as coisas não são diferentes. As motivações é que são. E estas motivações levam planos, destroem famílias, aniquilam projetos. Estamos desaprendendo a conviver. Não sabemos mais como nos relacionar com as pessoas, é incrível. É por isso que insisto na frase: "precisamos nos humanizar urgentemente!" É o único caminho a meu ver.

Mas humanizarmo-nos requer que mudemos, também, nossa forma de viver, de estar no mundo (neste mundo!), de nos comunicarmos com o mundo, com as pessoas. Nós só evoluiremos como espécie na medida em que incorporarmos em nossas práticas algo que já compõe a nossa biologia: o amor. Mas este amor não é o amor romântico que já fez muitos e muitos jovens suicidarem-se séculos atrás. É o amor proposto nas formulações de Maturana. O amor como o respeito ao outro como legítimo outro na relação.

Existindo o respeito como componente primeiro de nossas ações, no nosso "linguajear" - a televisão ganhará mais espaço para coisas leves, para o prazer. Notícia triste pode até virar ficção. Que bom seria... que fosse a tristeza da violência apenas realidade em papel.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um poema para iniciar o ano

Um poema para iniciar o ano
apenas um poema que caiba o mundo
e suas expectativas 
que caibam as pessoas
que caibam os sonhos
que caibam as esperanças

apenas um poema para iniciar o ano
que salve a alegria pelos próximos trezentos 
e sessenta e cinco dias

um poema que ilumine o céu
e acalme os mares
que seja gozo e rima e caminhos

um poema que abrace e aproxime
e seja encontro
e seja presença
e seja olhos nos olhos
e aperto de mão

um único poema
para que a vida seja (mais) poesia.

Fonte da Imagem: http://radioboanova.com.br/wp-content/uploads/2014/12/ano_novo.jpg 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Balanço de final de ano...

Estamos as vésperas de mais uma noite de Ano Novo. É tempo (sempre é tempo) de buscar nossas memórias mais sagradas, renovar nossas energias; tempo de fazer planos, de sonhar caminho e possibilidades; tempo de varrer as poeiras da nossa alma, de fazer o balanço de nosso estoque. 

No meu balanço 2014, está a certeza de que não somos feitos de eternidade, nossa materialidade é a efemeridade do tempo. Está a certeza, também, de que "se não pudermos amar, que não nos demoremos", como afirmou Frida Kahlo. A vida é curta demais para não vivermos a plenitude do amar, do viver - para sermos  (só) metade do que podemos ser.

Neste ano, o tempo levou muitas pessoas que foram completas, que viveram completamente, que acalentavam o meu coração por páginas e páginas a fio. O ano se foi nos levando García Márquez, Rubem Alves, Manoel de Barros, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna. O tempo marcou distância entre mim e minha Vivi. Sem ela, meus dias não foram mais os mesmos e ficou um vazio imenso incapaz de descrever. O tempo marcou distância em tantos outros corações que conheço. Pais, irmãos que foram ser memória, assim como o velho Aroldo, meu pai, minha memória, minha lembrança e meu exemplo mais sagrado. 

Que 2015 seja tempo de viver melhor, de sermos melhores. De abandonarmos nossas miudezas, de sermos gigantes nos nossos pensares e sonhares - no amor. Que 2015 seja tempo de nos demorarmos no amor, de vivermos por inteiro nossa vida e compartilharmos nossa existência por inteiro com aqueles que amamos. Que 2015 seja tempo de semear coisas boas, assim como fizeram meu pai, Vivi, tantos pais e irmãos que nos deixaram em 2014, como fizeram nossos literatos amados. Que 2015 seja tempo de sermos nós, sem abrimos mão de nossos sonhos.

Feliz 2015 a todos!

Fonte: http://hdw.eweb4.com/search/flores/

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

De despedidas docentes e de futuros iluminados


Aos meus queridos alunos da
 10ª fase do curso de Letras da UFFS


Todo semestre nos despedidos de uma turma com o sentimento de que cumprimos muitos de nossos objetivos pedagógicos e que deixamos a desejar em outros tantos. Refletimos sobre a correria dos dias, sobre as possibilidades que ficaram apenas sendo "possibilidades". Prometemos a nós mesmos que ao encontrar novamente a turma faremos melhor do que fizemos.  


Este semestre, no entanto, vivi (e estou vivendo) algo diferente. Minha turma era uma turma de formandos e minha despedida foi com o desejo de futuro promissor aos meus alunos, de caminho iluminado na escolha que eles fizeram pela docência. Não terá o próximo semestre com a turma "Lauro de Wallau", mas terá a lembrança dos momentos significativos de troca, de aprendizagem, de amizade que vivemos. 



A 1ª turma de formandos do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Cerro Largo, é uma turma especial. Alunos sempre dispostos a aprender e a refletir sobre a prática docente, sempre respeitosos, comunicativos, divertidos - não tê-los no próximo semestre é ter um vazio no meu coração de professora. No entanto, ao mesmo tempo, é ter a certeza de que a Educação do nosso país estará caminhando para um rumo melhor, pois eles farão diferença por onde passarem. 

Este semestre foi tempo de ter certeza sobre o quanto aprendemos com nossos alunos. Aprendemos sempre ou, como escreveu Paulo Freire, Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”



¿Qué es educar?
(Gabriel Celaya)

Educar es lo mismo que poner un motor a una barca
Hay que medir, pensar, equilibrar y poner todo en marcha.
Pero, para eso, uno tiene que llevar en el alma
Un poco de marino
Un poco de pirata
Un poco de poeta
Y un kilo y medio de paciencia concentra.

Pero es consolador soñar mientras uno trabaja
Que esa barca, ese niño
Irá muy lejos por el agua.
Soñar que ese navío
Llevará nuestra carga de palabras
Hacia puertos distantes,
Hacia islas lejanas.

Soñar que cuando un día
Esté durmiendo nuestro propio barco
En barcos nuevos seguirá
Nuestra bandera enarbolada.

Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.