sexta-feira, 20 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 9

De tudo que vi, li e recebi sobre as manifestações contra o governo no último domingo, 15, sem dúvida a faixa que me chamou mais atenção pedia um "basta de Paulo Freire" para a/na Educação. Uma tristeza que comprova que Freire além de não ser lido no seu próprio país tinha razão: "ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. Todos sabemos algo. Todos ignoramos algo”.

Em meio a isto, voltei a me questionar sobre os cursos de licenciatura que, tão apartados de uma Educação nossa, ainda buscam em outros paises pensadores que ajudem a formar os nossos professores. Paulo Freire não é lido (ou muito pouco lido) no nosso país! No nosso! Nos paises que valorizam uma Educação Libertadora, em paises emancipados da opressão do silenciamento e da ignorancia pedagógica, educacional - Paulo Freire é base. O nosso pensador foi homenageado em Harvard, Cambridge, Oxford - Universidades estas reconhecidas no mundo todo. Aqui, pedem um basta as suas leituras. Por quê? Por puro desconhecimento.

Para Freire, não posso ser um profissional na segunda-feira e alguém diferente nos finais de semana. Para Freire, sou o que sou em qualquer espaço em que esteja. Para ele, a educação é um ato de amor. O amor, a própria educação. Pedir que se de um basta nas leituras de Freire é, sim, manifestar a própria cultura brasileira, importadora de modelos que pouco servem a nossa realidade. É achar que o que vem de fora é melhor do que o que é produzido aqui. 

Valdo Barcelos em seu Livro "Uma educação nos trópicos" menciona que não vivemos uma crise na educação, porque a crise inicia, tem seu ápice e acaba. O que nós vivemos em educação - este "niilismo educacional" - é um problema cultural. Nós não valorizamos o conhecimento como um bem. Para mudarmos este cenário precisamos mudar nossa cultura. E, sim, só conseguiremos avançar neste processo lendo Paulo Freire

Precisamos, como coloca Humberto Maturana, mudar a cultura através do amor, do conviver, do "linguajear". Aos poucos, semeando um olhar amoroso com/para a educação, vamos ajudando a construir um pais melhor, e, claro, mais leitor de Paulo Freire.

Imagem retirada de: http://www.olhardireto.com.br/ 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 8

Não há um botão que cliquemos para a felicidade acontecer. Ela não chega assim, sem rituais internos. Não chega automaticamente e dificilmente vem acompanhada. É nossa responsabilidade despertar para a vida e aceitar o despertar dos demais. 

No conviver que nos relacionamos, o da cultura do consumo, vivemos uma ideia de felicidade que vem pela via da posição social, do ter as coisas. Se não lucramos, não competimos, não ganhamos - e, nesta situação, dificilmente nos encontramos com a recompensa maior que promete esta sociedade - a felicidade. Ter negado o direito a esta felicidade só gera sofrimento.

Para Maturana e Ximena Davila, a origem deste sofrimento vem da negação (nossa, do outro) no convívio, é cultural. Para eles, quando não nos encontramos com a felicidade é porque estamos vivendo em um mundo relacional que nos nega. Importantíssimo dizer, também, que para Maturana e Ximena a sociedade patriarcal proporciona muito destes sofrimentos. Para eles, deveriamos existir no espaço de nossa convivência em uma sociedade matrística - marcada pela aceitação do outro como verdadeiro outro na relação, no linguajear, sem cobranças, sem expectativas. Para eles, todos os nossos "problemas" estão na negação de que somos originalmente seres amorosos.

Se vivêssemos como seres amorosos realmente nossa cultura seria outra. Não precisariamos viver em busca de um botão para clicarmos em busca da felicidade, rituais internos (e com o externo) de aceitação (minha e dos demais) fariam parte naturalmente de nossa caminhada, seriam culturais. A felicidade não chegaria (como não chega) naturalmente, mas seria parte de nosso conviver, porque não só nos responsabilizariamos com ela, mas também com a do outro. 

Para hoje, mais amor e esperança na vida e nas pessoas!

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz,  Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz" (Gonzaguinha)


quinta-feira, 5 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 7

Para todos meus tios, primos,
irmão, pais, que sempre me fizeram ver 
na simplicidade das coisas a alegria de permancer.

Sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória. Coloco margarina e açúcar cristal na minha fatia imaginária. Saboreio lembranças!

Minha infância tem cheiro adocicado. Cheira a doce de leite feito em casa, pela tia Nida e pela minha mãe. A mãe ficava horas e horas as voltas com o fogão a lenha, no fundo do pátio, remexendo o tempo que só é passado. A tia reservava surpresas no armário de madeira amarelo.  E sempre (sempre!) fazia o tempo render carinhos, presença e narrativas. Ainda escuto, no corredor de luzes acesas da minha memória, o sapo em seu coaxar, entre concursos e risadas. 

Ir a São Pedro e não comer as roscas da tia Diones, feitas com vinagre,  é o mesmo que não ir.  Ela amassa com ternura o espaço e o tempo  - nos faz crianças em volta da bacia de nossa infância. 

Minha infância tem cheiro de churrasco de pai. Tem o tio Diogo na cozinha e tem chá de boldo de prontidão. E tem roda, família reunida, felicidade. 

Ainda sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória enquanto viro a página de mais um livro de Laura Esquivel. Em "Como água para chocolate", o narrador me teletransporta para o universo único de minha memória. Definitivamente sou feliz!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Querido irmão,


Para Aline, Aroldo e Antonia


Há um ano viviamos a alegria de dois nascimentos: a Antonia, que chegava carregada de luz, de boas vibrações para o nosso pequeno universo familiar, e o teu, como pai, definitivamente. 

Neste meses que se passaram a pequena se fez gigante. Ela te ensina todos os dias que a vida é um universo de sonhos indecifráveis. Toda manhã, um sorriso; cada minuto, uma descoberta. E a felicidade revelou-se simples e enorme como o teu coração. O mundo é outro com ela e ela, generosamente, te segura pela mão e te ensina a caminhar a delicadeza dos passos de menina. Já és outro, percebeste? 

Ao te ver, vejo o velho Aroldo - cuidadoso nos gestos e no modo de falar. Amoroso. Com Risada larga que é como um abraço. Contigo, ela estará sempre segura. Com ela, tu serás sempre feliz. Com vocês dois - pai e filha - vejo a vida renovando esperanças e minha alegria está completa.


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos
Como sabê-los? (...)

Que coisa louca
Que coisa linda

Que os filhos são!

(Vinicius de Moraes)



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 6

Para Marcus Fontana, meu companheiro 
de viagens, de vida.


Viajar é mudar a roupa da alma, declarou Mário Quintana. Declarou, também, que viajar é mudar o cenário da solidão. Talvez, a solidão do outro, da cultura do outro, do que o outro representa em nós e para nós no nosso processo de existir.

Quando viajo me permito ver com calma nos olhos. Gosto de ir ao encontro do outro, sentir suas vivências, sua linguagem, suas dores, seus amores, seu ritmo, suas canções. Eu viajo me permitindo abrazar o desconhecido do meu cotidiano. Me encharco de memórias, de cheiros, de sabores, de imagens, de olhares, de contatos.

E se para viajar basta existir, como versejou Fernando Pessoa, existo porque viajo. Viajo nas páginas dos romances, viajo pelas esquinas dos versos de minhas poesias, viajo para meu passado e para o meu futuro. Viajo pelos mapas que traço, sonhadora. E isto é, para mim, o exercício da minha felicidade. 






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 5

Nós somos feitos de memórias. É impossível me ver hoje sem reviver meu tempo desfiado neste labirinto do minotauro que é a nossa história. Sou o que me propus viver, o que escolhi não vivenciar, o que me mostraram; sou as lembranças de outros e as marcas de outros; sou o que li e reli e o que ainda vou ler.

As últimas páginas do livro de Laura Esquivel ("Tan veloz como el deseo") me fizeram mergulhar no meu passado. Ler é isso - viver o que nunca viveríamos no espaço tênue ou profundo da uma narrativa. É mais - ler é reviver o vivido, é olhar para fora, para outros mundos, mas, também, para dentro de um universo nem sempre conhecido que somos nós.  

Com o livro, pude recordar o quanto as palavras, a presença e o exemplo são fundamentais para a constituição do que somos, para a nossa educação. Meu pai, passados 23 anos de sua morte, ainda é meu maior exemplo, meu herói. Ele, assim como Júbilo, personagem central da obra de Esquivel, era radiotelegrafista e tinha uma doçura no comunicar. Meu pai era um homem de anunciar, nunca de reclamar. Comunicava para fundar a paz, jamais a desesperança. E se nós somos feitos de memórias e se estas fundam o que somos, marcam o nosso corpo - quero as palavras do meu pai marcadas em mim para a eternidade, porque  - sim! - quero sempre ser uma voz que anuncia a alegria do caminhar. 

"No sólo eso, mi padre habitaba a mi cuerpo, en el de mi hermano, en el de mis hijos, en el de mis sobrinos. Su herencia biológica y emotiva estaba presente en todos nosotros. En nuestra mente, en nuestros recuerdos, en nuestra manera de ver la vida, de reír, de hablar, de caminar."
"Eso es finalmente lo que vale, que alguien perdure en la memoria gracias al poder transformador de sus palabras. Por cierto, las que contenían mi mensaje eran éstas:
 - Querida Chipi-Chipi, la muerte no existe, pero la vida, como tú la conoces, es maravillosa ¡aprovéchela! Te quiero por siempre. Tu papá". (Esquivel, pg. 194)

A literatura e nossos encontros... profundamente emocionada com a obra de Laura Esquivel.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 4

Nos tornamos reféns dos padrões. Precisamos estar na moda, ser suficiente magra, bem sucedida. Precisamos, às vezes, até sem saber o porquê. Precisamos pelo simples fato de que está posto. Não refletimos sobre isso... seguimos a onda, apenas. Fugir de quaisquer destes caminhos é mergulhar no profundo rio da crítica, seja feita por nós mesmos, seja por outras pessoas.

Recentemente ganhou nota em muitas mídias o fato de uma menina de Canguçu (RS) ter se inscrito (ou sido inscrita) para o Concurso Garota Verão. Até aí, nenhum problema, não é? Muitas meninas desejam desfilar  e sonham em ser modelos. Acontece que a Vanessa estava fora dos ditos padrões. Virou manchete, nota, postagem no Facebook! Para surpresa de muitos e para a certeza de que algo ainda se pode salvar neste mar de insanidade, Vanessa foi lá e arrasou. Desfilou para mostrar que não existe padrão para a boniteza do que ela é.

Se o manequim é 36 ou 46  - não importa. A alegria de se fazer o que se quer, de ser quem se é não cabem em um número, nem podem caber dentro de um padrão. A moda muda, o "padrão" de beleza (imposto) muda e ser bem sucedido nem sempre está em alta. Mas ser feliz,  independente do que os outros vão pensar, não tem preço.

Que a Vanessa seja a primeira Garota Verão a nos libertar destas amarras!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 3

"Marco Archer Moreira. Brasileiro. Condenado a pena de morte. 
Morto na Indonésia no último dia 17". 

Os dias que antecederam e sucederam o assassinato do brasileiro na Indonésia foram de inúmeros comentários nas redes sociais. Procurei me abster de qualquer manifestação no fervor da notícia, pois estes temas costumam gerar (ainda mais) conflitos no campo das comunicações. É como política, religião - todo mundo quer manifestar seu ponto de vista acreditando em sua capacidade de ser respeitoso com o outro, mas se o outro divergir de opinião, os argumentos ganham unhas afiadas e há uma imposição em cada palavra. Pois bem...

No país em que vivemos muitos são condenados a pena de morte diariamente. Alguns, ao nascer, já tem tempo de vida pré-destinado. E nós pouco nos lembramos disto, não é verdade?! A pena, às vezes, é a fome que bate a porta; outras, o tráfico que teima em tomar posse; em inúmeras oportunidades, é a falta de acesso a saúde, a educação. Muitos brasileiros morrem no nosso país diariamente condenados por suas penas. Há inúmeras formas de morrer!

Eu sou contra a pena de morte seja ela onde for, com quem quer que seja. Simples de explicar o porquê: eu sou favorável a vida. Ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém, por maior erro que esta pessoa possa ter cometido.  Isso me faz lembrar de uma entrevista feita ao Humberto Maturana que li recentemente. Ele conta que na sua sala de estudos tem na parede um quadro com a Declaração dos Direitos Humanos e que a estes direitos ele acrescentou mais dois, que percebe serem pertinentes a nossa constituição humana. São eles: o direito de errar  e o direito de mudar de opinião. Para Maturana, estes direitos são uma forma de ampliação da aceitação do outro, pois "se não podemos cometer erros, não podemos corrigir erros". 

Eu acredito na mudança constante que nos move. Acredito que muitos educadores que vi posicionando-se favoráveis a pena de morte, a violência, mover-se-ão em direção ao outro e a si mesmos. Acredito que nos humanizaremos no espaço amoroso de nossa convivência e assim não precisaremos mais morrer na falta de nós mesmos. 

(...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 2



Por este dias fui presenteada com o livro "Tan Veloz como el deseo", de Laura Esquivel. Leitura fluida e prazerosa, o livro da escritora mexicana tem me feito pensar sobre as palavras, sobre o poder que as palavras têm no nosso conviver. 

Júbilo, personagem central da obra, tem um dom especial. Ele consegue mediar as palavras, consegue escutar mais além do dito. Ele percebe as intensões, os pensamentos e o ânimo de todos. Ele traduz, assim, os sentimentos que as palavras carregam, o sentimento das pessoas e com isso ajuda estas pessoas a comunicarem-se com os demais, a reconciliarem-se com os demais.

Júbilo é um bom exemplo daquele que faz valer o conviver. Na obra, ele é filho de uma imigrante espanhola e um descendente  dos antigos povos maias. Com a mãe, fala espanhol. Com a avó, o "maya". Ele é a ponte entre a avó e a família. E nesta ligação, tenta fazer com que sua mãe e sua avó superem problemas interculturais. Ele faz com que ambas vivam em harmonia, pois ao traduzir o que as matriarcas dizem - ele traduz apaziguando as palavras.

É preciso ser um pouco Júbilo na nossa essência, penso eu. Ao nos comunicarmos, precisamos pacificar as palavras. Há tantas formas de dizer as coisas, não é?! Dizê-las com o intuito de construir pontes e alegrias me parece ser um caminho bonito. Escutar, falar e escrever como quem ama... minha escolha para o ano que recém engatinha.  


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 1

Toda vez que ligo a televisão perco um pouco de fé na humanidade. A televisão sangra. É noticia triste atrás de noticia triste. 

Esta semana o mundo voltou-se para a França. Lá, o humor perdeu a graça após um atentado que matou doze pessoas. Doze vidas cheias de sonhos para 2015, sonhos estes que não se concretizarão.

Aqui, as coisas não são diferentes. As motivações é que são. E estas motivações levam planos, destroem famílias, aniquilam projetos. Estamos desaprendendo a conviver. Não sabemos mais como nos relacionar com as pessoas, é incrível. É por isso que insisto na frase: "precisamos nos humanizar urgentemente!" É o único caminho a meu ver.

Mas humanizarmo-nos requer que mudemos, também, nossa forma de viver, de estar no mundo (neste mundo!), de nos comunicarmos com o mundo, com as pessoas. Nós só evoluiremos como espécie na medida em que incorporarmos em nossas práticas algo que já compõe a nossa biologia: o amor. Mas este amor não é o amor romântico que já fez muitos e muitos jovens suicidarem-se séculos atrás. É o amor proposto nas formulações de Maturana. O amor como o respeito ao outro como legítimo outro na relação.

Existindo o respeito como componente primeiro de nossas ações, no nosso "linguajear" - a televisão ganhará mais espaço para coisas leves, para o prazer. Notícia triste pode até virar ficção. Que bom seria... que fosse a tristeza da violência apenas realidade em papel.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um poema para iniciar o ano

Um poema para iniciar o ano
apenas um poema que caiba o mundo
e suas expectativas 
que caibam as pessoas
que caibam os sonhos
que caibam as esperanças

apenas um poema para iniciar o ano
que salve a alegria pelos próximos trezentos 
e sessenta e cinco dias

um poema que ilumine o céu
e acalme os mares
que seja gozo e rima e caminhos

um poema que abrace e aproxime
e seja encontro
e seja presença
e seja olhos nos olhos
e aperto de mão

um único poema
para que a vida seja (mais) poesia.

Fonte da Imagem: http://radioboanova.com.br/wp-content/uploads/2014/12/ano_novo.jpg 

Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.