segunda-feira, 28 de maio de 2018

Poesia para nosso amor


Pedacinho de amor

Tenho uma vida aqui dentro da gente.
Metade de mim, metade de ti, um todo de nós.
Tenho uma vida aqui dentro da gente
Pedacinho de amor
Raio de luz
Casa cheia:
Nunca mais estaremos a sós.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Indumentária

Vestida esperança
desabrocho uma rima
para enfeitar o verso que anda torto.

É tempo de derrubar as folhas das árvores do corpo
renovar desejos em ventanias de outono

E ir, simplesmente ir inverno a dentro
garimpeira de mim.


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

PEQUENO CONTO DAS SUTILEZAS II

Por Angelise Fagundes

Jantar em família. Brigite tenta conversar sobre a situação política do país. Afeita ao debate, posiciona-se. Descobre, enfim, que isso é coisa de homem naquele lugar. Rotulam-na: histérica! E desde aquela sexta-santa perdeu a voz.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Pequena poesia da mulher moderna


Angelise Fagundes


Há um mundo cobrando vida dentro do meu ventre
verve a vida
e nasce o verso.

revelações


Angelise Fagundes

há dias em que me enfeito de primavera e rodopio esperança

há outros tantos que brigo com uma angustia aqui dentro
um nó indecifrável
um sem motivo
um emaranhado sem ponta

eu escuto as minhas demoras entranhadas
faço verso em minhas redes
faço fio, faço laço

há dias em que as angustias são nós cego
e o que me falta é tempo de mim








quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pequeno conto das sutilezas I



Por Angelise Fagundes

Domingo quente de outubro. Festa. Velhos amigos comentavam em uma roda as qualidades de se ser Brigite. Haviam visto a moça crescer. Linda, muito linda. Inteligente, muito inteligente, exclamavam! Entre um abraço, outro abraço, mais abraços, Brigite, incomodada, descobria que violência contra a mulher tem várias faces. 



domingo, 20 de agosto de 2017

Do guarda-roupa e da vida



Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida emocional, meu interior. É a personificação da minha existência. 

Na infância, eu dividia meu espaço no armário com a minha irmã. Na verdade, com a minha irmã, Menudos e Dominós. Minha participação naquele espaço era praticamente nula. O que me tocava eram mais as gavetas de uma antiga penteadeira. Na adolescência, fui ganhando o mundo e um guarda-roupas só para mim. À época, era um turbilhão de informações. Um rebuliço. Livros, figurinhas, ursos de pelúcia, papéis de carta, cadernos, diários e Barbies  - tudo misturado. Mas os móveis ainda guardavam a lembrança de outros donos...

Aos 15 anos, avessa as festas e exposições sociais exageradas, ao invés de "debus", ganhei meu primeiro quarto. O guarda-roupa vestia-se de bege. Tinha um espelho grande nas portas do meio. E eu passava a me ver com mais nitidez. Dei-me conta que acumular boas lembranças era mais importante do que acumular o desconforto de peças mal ajustadas ao corpo da gente. Foi então que ali, naquele guarda-roupa, organizei a minha vida em pequenos espaços.

Ainda hoje me deparo com meu guarda-roupa retratando muito de mim. Ora bagunçado, ora organizado, ora cheio, ora vazio. Toda estação é tempo de visitá-lo com mãos abertas, olhar-nos face a face - como no espelho da água em beira de rio. 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desumanização


Angelise Fagundes

despido de si
o homem cruza o Hades

já não há brilho nos olhos
não há amor nas palavras
não se vê mais o outro

em meio à luta de classes
sexismo, xenofobia, homofobia, racismo...


o homem já homem não é.



Robôs, do Uruguaio Gustavo Alamón


Caminos o/ou Do que somos feitos no Sul

Vitor Ramil conta no artigo "Estética do Frio" (http://www.vitorramil.com.br/estetica.htm#) que, certa feita, no escaldante Rio de Janeiro, via, pela TV, notícias do Sul, do frio chegando ao pampa rio-grandense. Sentiu, sorvendo seu mate e suando muitíssimo, que não era daquele espaço. Sentiu-se fora do lugar. Já me senti fora do lugar algumas vezes!

Quando vivi na Argentina, sentia algo estranho com relação aos brasileiros que viviam na mesma casa que eu. Eram meus compatriotas, mas compartíamos raramente gostos, costumes e falares. Estranho ser brasileira naquela situação de estrangeira com "os meus". Misturada aos argentinos nas calles de Santa Fe, no entanto, sentia-me parte. O mate sempre foi um elo interessante entre nosotros, del sur.

Nas calles uruguayas em um inverno qualquer, de frente para o rio, "lo mismo". Me Senti parte daquele frio gelado que abarca. O frio molda a nossa carne. Pertencemos ao frio e o frio nos pertence. Borges (apud Ramil) certamente tinha razão... o frio (esta arte do sul) é o que nos revela.

Foi talvez por lá, en las orillas del Plata, que senti conscientemente o que Ramil escreveu. Sou do Sul! E, em sendo do Sul, minhas identidades se apresentam com outros contornos geográficos. Meu mapa é outro. Me equilibro em outro meridiano. Meus trópicos são patas arriba. Sou muito mais parte de um território cultural compartilhado, muito além de questões fronteiriças de outros tempos e tratados. 

Em tempo de muros e fechamento de fronteiras, sou pampa aberto.





Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.