quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Onilda

Para a minha avó, que nos deixa no dia de hoje.


Partiu.
Se foi como uma vela sobre a mesa em noite escura...
lentamente.
Como cada ponto de um crochê que desfaz a vida
esqueceu-se de um e de outro
de todos, enfim
retornaram memórias e rostos de outros tempos
retornou ela.

Expostas sobre a mesa das vivências
ficaram ambrosias,
doces de abóbora,
toalhas tecidas com mãos fortes.
Ficou a família reunida em fotos guardadas
Ficaram as tarefas cotidianas que pouco a pouco consomem a todos.
Ficamos nós.
Uns sem mãe. Outras sem sogra. Muitos sem a avó.

retornaram memórias e rostos de outros tempos
retornou ela.



domingo, 17 de junho de 2018

Pedro,


Quando mamãe estava com 16 semanas de gestação e descobrimos que eras tu que virias fazer história aqui conosco, decidimos que era necessário te contar algumas coisas importantes sobre tua vinda e sobre o mundo que te receberia.

Papai e mamãe são caminantes deste mundão velho de Deus, tu já deves ter percebido! Estávamos na Colômbia, a 2.600 metros de altitude, quando foste concebido. Papai e mamãe brincam que os atletas de futebol vão jogar na altitude e não fazem nada e papai fez um golaço!

Vieste para nossas vidas em meio a muita alegria, muita diversidade, sabores diferentes, cores maravilhosas, entre livros do Gabo e Laura Esquivel… y mucha charla en español. Te levamos a museus, praças, cafés, restaurantes, lugares históricos. Rimos e brindamos muito! Começamos ali mesmo a te apresentar o mundo e toda a sua riqueza linguística, humana, cultural!

A vida é isso, meu filho: é fluir e se permitir olhar além das nossas fronteiras! Quando saímos de nosso pequeno universo percebemos e aprendemos muito com o outro e descobrimos muito sobre nós mesmos, sobre nossa identidade. Contigo, queremos conhecer muitos outros lugares!

Precisamos te confessar que nosso contexto não está muito propício para essa abertura. O Brasil(eiro) está cada vez mais conservador, com um fascismo crescente e assustador. A corrupção é epidêmica e ocupa todos os setores da sociedade. Até a Canarinho está em baixa! Diante disso, Pedro, só o amor pode nos salvar da barbárie! E o amor é sempre uma escolha possível!

Para que possas, então, ter uma ideia do mundo que te recebe - papai e mamãe começaram a fazer um arquivo histórico para ti. Informado, a partir de diferentes veículos sobre o contexto em que vieste para este planetinha, esperamos que sejas autônomo, crítico e que faças a leitura do mundo e com o mundo com teus próprios olhos. Esse é nosso presente cheio de carinho para ti...

  



Não tenhas medo! O mundo pode ser maravilhoso, meu filho!

Mamãe e papai.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Carta a Pedro,

Há tantas coisas para te dizer... tantas...

Quero te contar, primeiro, o porquê do teu nome. Teu nome é uma memória. É um amor. É uma história bonita que mamãe viveu e que papai, tão carinhosamente, abraçou. O teu papai é um homem incrível!

Pedro era o nome de meu avô paterno. Eu não o conheci pessoalmente, mas guardo muito dele aqui dentro de mim. Na beira do Toropi, entre caniços e lambaris, teu avó Aroldo me contava muitas histórias sobre ele. Aprendi a amar teu nome assim... pelos olhos do homem maravilhoso que foi o meu pai. 

O teu bisavô era um homem humilde, de palavras rimadas, de poesia. Era trovador na rádio de São Pedro. Quem o conheceu, revela que era uma pessoa muito amorosa e querida por todos. Há muito dele na pastinha de poesias do vô Aroldo, que poderás ler com a mamãe, com o papai e com tuas próprias descobertas. Teu nome, meu filho, não é uma homenagem ao teu bisavô. Teu nome é o nosso reconhecimento à boniteza do amor que pode existir entre as pessoas. 

Pedro Fagundes Fontana. 

16 semanas de amor
Preciso te contar, também, que combinei com o papai que teu sobrenome será "Fagundes" e não o "da Silva" - bem juntinho e lindo com o "Fontana" do papai. Eu vou te explicar! A mamãe foi criada pela vovó Maria. Ela é uma mulher muito guerreira, forte, corajosa. A nossa sociedade ainda é muito machista. O filho leva (quase sempre) o nome do pai. Neste caso, o nome do meu pai seguiria a diante, fazendo história na nossa família. Precisamos mudar isso, não é mesmo? Precisamos reconhecer que as mulheres são tão importantes na nossa caminhada quanto os homens. A minha mãe é! Comecemos por nós a fazer esta história diferente, não é meu filho?!


Na próxima cartinha mamãe vai te contar sobre uma coisa que estamos organizando para ti... 



segunda-feira, 28 de maio de 2018

mi nena, mi pibe...

mi nena, mi pibe...

Nós ainda não sabemos da tua biologia. Não sabemos se serás um menino ou uma menina a vir para este mundo tão patriarcal, tão machista, tão violento, tão desigual. Sabemos, porém, que aqui na casa que construímos para te receber terás todo o amor que necessitas para crescer feliz. Aqui, te mostraremos que o mundo pode ser diferente e que cabe a cada um de nós nos responsabilizarmos verdadeiramente pelas nossas escolhas. Aqui, nós somos iguais - mamãe e papai. Somos gente! Caminhamos juntos, lado a lado, ombro a ombro. E é assim que nós te queremos, de braços abertos, exatamente como és. Queremos que sejas livre em todas as tuas escolhas e que saibamos construir juntos - nós três - um lar cheio de respeito, cumplicidade e confiança. Estamos nos humanizando dia a dia - desde de sempre - para tua chegada. E é com amor e por amor que vens chegando em nossa caminhada!


Besitos de tu mamá,

Angelise

Poesia para nosso amor


Pedacinho de amor

Tenho uma vida aqui dentro da gente.
Metade de mim, metade de ti, um todo de nós.
Tenho uma vida aqui dentro da gente
Pedacinho de amor
Raio de luz
Casa cheia:
Nunca mais estaremos a sós.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Indumentária

Vestida esperança
desabrocho uma rima
para enfeitar o verso que anda torto.

É tempo de derrubar as folhas das árvores do corpo
renovar desejos em ventanias de outono

E ir, simplesmente ir inverno a dentro
garimpeira de mim.


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

PEQUENO CONTO DAS SUTILEZAS II

Por Angelise Fagundes

Jantar em família. Brigite tenta conversar sobre a situação política do país. Afeita ao debate, posiciona-se. Descobre, enfim, que isso é coisa de homem naquele lugar. Rotulam-na: histérica! E desde aquela sexta-santa perdeu a voz.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Pequena poesia da mulher moderna


Angelise Fagundes


Há um mundo cobrando vida dentro do meu ventre
verve a vida
e nasce o verso.

revelações


Angelise Fagundes

há dias em que me enfeito de primavera e rodopio esperança

há outros tantos que brigo com uma angustia aqui dentro
um nó indecifrável
um sem motivo
um emaranhado sem ponta

eu escuto as minhas demoras entranhadas
faço verso em minhas redes
faço fio, faço laço

há dias em que as angustias são nós cego
e o que me falta é tempo de mim








quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pequeno conto das sutilezas I



Por Angelise Fagundes

Domingo quente de outubro. Festa. Velhos amigos comentavam em uma roda as qualidades de se ser Brigite. Haviam visto a moça crescer. Linda, muito linda. Inteligente, muito inteligente, exclamavam! Entre um abraço, outro abraço, mais abraços, Brigite, incomodada, descobria que violência contra a mulher tem várias faces. 



Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.