quarta-feira, 19 de abril de 2023

Os fantasmas

 Os fantasmas me

espreitam na entrada

da noite


assombram-me com

suas vozes e palavras

de espanto


fragilizam-me o 

quanto podem

até vencerem-me pelo cansaço


Eu adormeço

de mãos dadas com

meus medos.

A mémória (II)

A memória

da minha infância 

é tecida de palavras

e esquecimento:

    um pouco de mim

    metade de outros. 

A mémória (I)

 A mémória (I)

é um tempo suspendo

que visito

vez ou outra

quarta-feira, 22 de março de 2023

Quarenta

 Meus outonos revelam

quarenta voltas ao redor da terra


entre versos e narrativas

habito meu corpo, morada transitória de minhas descobertas

sou fogo e calmaria

luta e imensidão

sou tantas esperanças e sonhos e poesias inacabadas

rascunhos e páginas em branco

texto e enigmas


a cada folha que se despede das minhas estações

sou broto e resistência

sou, enfim, carne e osso

lágrimas e sorrisos

abraços e portos

aconchegos e despedidas

ao fim, eu sou.





quarta-feira, 15 de março de 2023

Encontro com a madrugada

a madrugada abraçou-me trazendo minhas dores de presente

revelou-as frente a minha fragilidade

havia poeira em muitos guardados

coisas que nem lembrava mais estarem sob minha tutela


aos poucos, visualizo cada uma dessas memórias

converso com elas 

me dispo de amarras e trago à superfície a minha humanidade


a noite ainda me assombra e tenho vez ou outra medo de enfrentá-la


é neste momento que acolho as minhas lágrimas e converso com minhas ruminanças

há sempre um amanhã por chegar nas janelas da minha morada

há sempre sol invadindo a casa 


quando a madrugada me abraça cheia de presentes, 

caminho passos firmes ao nascer do dia


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Ponto final?


Nunca fui amiga da morte,

mas ainda tento reconhecê-la como parte dos meus ciclos:

morri muitas vezes e nasci no mesmo corpo outras tantas

superei-a, superando-me

como não a ver como parte do todo, em cada um...

como o certo fim que me habita?


Abro os olhos e deixo o verde-vento-céu entrar pela janela

Sou toda reflexão e poesia, verve e amor

aqui, a vida segue fazendo morada

Habitam-me tantas no meu corpo mutante...tantas histórias

que me resta concluir que 

a morte segue em vida como memória.



 

Justino Kieling, 580

 

Há, na esquina da minha vida, uma casa

sombreada de nogueiras e muitos tons de verde-poesia,

habito-a desde então

eu e os meus

 

alicerçada de sonhos,

(re)descobrimos nossas partes em cada cômodo

Encontramos olvidos

Tateamos caminhos


Recomeçamos

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Tia Nida

Sem abraços e despedidas

partiu numa manhã

ensolarada de outubro


deixou pães de casa 

sobre a mesa das memórias

doces de leite, chimias,

punhados e mais punhados de afeto


alinhavou as costuras do tempo

em retalhos coloridos

se multiplicou


desde então

refugiou-se em cada um dos que amou.




domingo, 27 de junho de 2021

poeminha

alguma vez

alguma vez, talvez

alguma vez, talvez, seja possivel nomear tudo isso que me levou.


alguma vez

talvez 

me devolva para mim.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Liberdade

Minha primeira liberdade infantil

foi atravessar a rua da minha casa

e brincar na calçada do vizinho.


Era um mundo

Um mundo todo ali

na frente da minha casa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Constatação

pela janela, os olhos repousam cansados sobre a cidade.

há saudade profunda no olhar do poeta.
saudade de si.
saudade dos outros.

onde foram parar suas humanidades, se pergunta, desesperançado.

e entende - no ponto final do verso - que há circunstâncias irrecuperáveis. 


Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.