quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Balanço de final de ano...

Estamos as vésperas de mais uma noite de Ano Novo. É tempo (sempre é tempo) de buscar nossas memórias mais sagradas, renovar nossas energias; tempo de fazer planos, de sonhar caminho e possibilidades; tempo de varrer as poeiras da nossa alma, de fazer o balanço de nosso estoque. 

No meu balanço 2014, está a certeza de que não somos feitos de eternidade, nossa materialidade é a efemeridade do tempo. Está a certeza, também, de que "se não pudermos amar, que não nos demoremos", como afirmou Frida Kahlo. A vida é curta demais para não vivermos a plenitude do amar, do viver - para sermos  (só) metade do que podemos ser.

Neste ano, o tempo levou muitas pessoas que foram completas, que viveram completamente, que acalentavam o meu coração por páginas e páginas a fio. O ano se foi nos levando García Márquez, Rubem Alves, Manoel de Barros, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna. O tempo marcou distância entre mim e minha Vivi. Sem ela, meus dias não foram mais os mesmos e ficou um vazio imenso incapaz de descrever. O tempo marcou distância em tantos outros corações que conheço. Pais, irmãos que foram ser memória, assim como o velho Aroldo, meu pai, minha memória, minha lembrança e meu exemplo mais sagrado. 

Que 2015 seja tempo de viver melhor, de sermos melhores. De abandonarmos nossas miudezas, de sermos gigantes nos nossos pensares e sonhares - no amor. Que 2015 seja tempo de nos demorarmos no amor, de vivermos por inteiro nossa vida e compartilharmos nossa existência por inteiro com aqueles que amamos. Que 2015 seja tempo de semear coisas boas, assim como fizeram meu pai, Vivi, tantos pais e irmãos que nos deixaram em 2014, como fizeram nossos literatos amados. Que 2015 seja tempo de sermos nós, sem abrimos mão de nossos sonhos.

Feliz 2015 a todos!

Fonte: http://hdw.eweb4.com/search/flores/

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

De despedidas docentes e de futuros iluminados


Aos meus queridos alunos da
 10ª fase do curso de Letras da UFFS


Todo semestre nos despedidos de uma turma com o sentimento de que cumprimos muitos de nossos objetivos pedagógicos e que deixamos a desejar em outros tantos. Refletimos sobre a correria dos dias, sobre as possibilidades que ficaram apenas sendo "possibilidades". Prometemos a nós mesmos que ao encontrar novamente a turma faremos melhor do que fizemos.  


Este semestre, no entanto, vivi (e estou vivendo) algo diferente. Minha turma era uma turma de formandos e minha despedida foi com o desejo de futuro promissor aos meus alunos, de caminho iluminado na escolha que eles fizeram pela docência. Não terá o próximo semestre com a turma "Lauro de Wallau", mas terá a lembrança dos momentos significativos de troca, de aprendizagem, de amizade que vivemos. 



A 1ª turma de formandos do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Cerro Largo, é uma turma especial. Alunos sempre dispostos a aprender e a refletir sobre a prática docente, sempre respeitosos, comunicativos, divertidos - não tê-los no próximo semestre é ter um vazio no meu coração de professora. No entanto, ao mesmo tempo, é ter a certeza de que a Educação do nosso país estará caminhando para um rumo melhor, pois eles farão diferença por onde passarem. 

Este semestre foi tempo de ter certeza sobre o quanto aprendemos com nossos alunos. Aprendemos sempre ou, como escreveu Paulo Freire, Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”



¿Qué es educar?
(Gabriel Celaya)

Educar es lo mismo que poner un motor a una barca
Hay que medir, pensar, equilibrar y poner todo en marcha.
Pero, para eso, uno tiene que llevar en el alma
Un poco de marino
Un poco de pirata
Un poco de poeta
Y un kilo y medio de paciencia concentra.

Pero es consolador soñar mientras uno trabaja
Que esa barca, ese niño
Irá muy lejos por el agua.
Soñar que ese navío
Llevará nuestra carga de palabras
Hacia puertos distantes,
Hacia islas lejanas.

Soñar que cuando un día
Esté durmiendo nuestro propio barco
En barcos nuevos seguirá
Nuestra bandera enarbolada.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Conversinhas sobre humanidade

Já é tempo de cuidar. De aprender a cuidar. De saber cuidar. A correria do dia a dia tem nos deixado cada vez mais longe do encontro com as palavras, dos seus significados, do tom da nossa voz, dos nossos sentimentos, do reconhecimento dos gestos. Estamos perdidos em meio a um caos e precisamos nos redescobrir humanos.

Da espécie humana, nascemos sob o cuidado de nossos pais. Não nos alimentamos, não mantemos uma higiene básica sem o cuidado de uma outra pessoa. Nossa estrutura emocional depende muito da forma como o "linguagear", como a conversação se estabelecerá conosco, com nossa biologia. Nós não nascemos humanos, humanos nos tornamos com os cuidados que nos são dados, com o cuidado que estabelecemos, reciprocamente - o cuidado da liberdade, o cuidado do amor, o cuidado do respeito, o cuidado com as palavras, o cuidado do diálogo...

Nesta época do ano, quando o Natal e o Ano-novo batem à porta, me pergunto muito sobre a nossa humanidade, sobre o que nos tornamos em meio a este caos do século XXI. Que futuro teremos? Como estamos cuidando de nós mesmos, como espécie, para não nos perdemos de nossa humanidade? Não trata-se de uma nostalgia do passado, não. No passado, o cuidado (e a humanidade) não era privilégio de muitos. Trata-se de uma reflexão que busca esperança para a descoberta de um viver social legitimo. Um viver pautado no amor, onde este amor é simplesmente o respeito ao outro como verdadeiramente outro na relação*. 

Que dezembro seja tempo de descobertas e de renovações em torno da nossa humanidade! Que o cuidado seja presença... 

*Humberto Maturana.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Para viver Dezembro...

Dezembro. O mês chega com a mesma velocidade em que o ano desfilou dias a fio. Foi com pressa que veio para fechar mais um ano de nossas atividades. Foi com rapidez que apareceu para apresentar os últimos dias de 2014.

Nas escolas, os professores já estão encaminhando os fechamentos dos cadernos de chamada, já estão fazendo os conselhos de classe, revisando os apontamentos, verificando os cálculos das aprendizagens. Na universidade também. Soma-se todos os pontinhos do semestre na tentativa de quantificar o conhecimento. A nota ainda é muito importante para alguns alunos (e para muitos professores), a ponto de batalharem décimo a décimo por ela. O que ainda não se deram conta (alunos e professores) nos espaços de ensino é que conhecimentos, experiências, saberes não cabem nos apontamentos docentes. Nós não podemos medir esta bagagem adquirida ao longo de tantas vivências, que estão para além, muitas vezes, de nossas salas de aula. Para uma mudança neste sentido, claro, teríamos que abrir mão do modelo educacional vigente no país, teríamos que buscar uma forma mais significativa de Educação.

Nesta época de final de atividades anuais /semestrais me pergunto sempre sobre o tempo que dediquei verdadeiramente ao meu conhecimento, ao meu auto-conhecimento, as pessoas. O quanto abri mão de dedicar-me ao que estava fazendo por estar pensando em outras tarefas; o quanto abri mão de estar presente por inteiro com meus amigos, com meus familiares, pensando nas atividades que tinha para corrigir; o quanto deixei de estar plena nos encontros com meus alunos imaginando como seria o próximo encontro (professor planeja classes todo o tempo!).

Foi pensando nesta forma de vida que, neste início de dezembro, me comprometi comigo mesma a ouvir menos e a escutar mais (do latim auscultar: atentar para aquilo que vem de dentro), me comprometi em ter uma atitude de pausa: "Pausa para acolher; pausa para cuidar; pausa para pensar; pausa para olhar; pausa para olhar com vagar; pausa para sentir; pausa para sentir com cuidado; pausa para perceber a minúcia; pausa para perceber e para cultivar a delicadeza; pausa para as pequenas coisas; pausa para as ações cotidianas; pausa para os gestos sutis; pausa para suspender a velocidade; pausa para exercitar a lentidão; pausa para viver a experiência; pausa para escutar os silêncios.” (Barcelos, 2010)*


BARCELOS, Valdo. Educação Ambiental: sobre metodologias, princípios e atitudes. Petrópolis: Vozes,  2010.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Somos reféns das más notícias

Esta semana encontrei-me com Borges. Conversamos horas a fio sobre memórias. Contou-me o literato argentino sobre suas andanças e suas descobertas. Contei-lhe das minhas. Tomamos um mate, relemos o Funes e segui refletindo sobre miudezas cotidianas, como o fato do homem, por exemplo, sempre lembrar-se das coisas negativas, deixando de lado - incrivelmente - o que de bom lhe acontece.

Somos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos fixamos nos fatos negativos. É uma epidemia geral. Não conheço pessoa que não se prenda a estas ruínas nem sempre necessárias. Somos personagens propícios a melodramas, a folhetins mexicanos. Firmamos contratos com a negatividade sem ler as pequenas notas.

Volta e meia vejo alguém contando que o chefe nunca lembra das tantas coisas significativas que o funcionário realiza, mas se o subalterno esquece de algo, está feita a lambança. Nunca mais esquece o chefe do mísero fato. O subalterno enfia a cabeça no problema e esquece das coisas boas também. Entristece.  

Se algo não vai bem no relacionamento, nos prendemos a este fato. Um véu inimigo de Mnemósine nos venda as memórias positivas, as coisas boas da vida. Criamos problemas, evitamos soluções. Entristecemos. 

No final no ano, tempo de limpar os estoques e fazer os balanços necessários, nos damos conta de que a bolsa do ano fechou em queda, no negativo. Viramos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos infectamos com esta epidemia negativa e a única solução está na poesia. Na poesia vivida no dia a dia, no rolar das horas, no sorriso do rosto e na luz da caminhada.

Que dezembro seja iluminado, com tempo para semear esperanças!


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

“A LEITURA, RESSURREIÇÃO DE LÁZARO, LEVANTA A LÁPIDE DAS PALAVRAS” *


A história da morte e ressurreição de Lázaro é contada pelo Evangelho de João em uma das obras mais lidas ao longo da história da humanidade, a Bíblia. Lázaro [1], acometido de uma doença, morre. Após sua morte, suas irmãs intercedem junto a Jesus e este vai até o sepulcro e profere: “Lázaro, vem para fora!”João, o evangelista, conta que em seguida “o morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto coberto com um sudário”. Lázaro, retirada à lápide da morte, retornou a vida! Ler é retornar a vida, constantemente. É retirar a lápide das palavras, como escreve Perros. 

Este retirar a lápide, visto pela pedagogia de Paulo Freire, é a leitura como desvelamento da realidade, ou seja, é quanto o leitor surge de dentro do sepulcro, como Lázaro, e passa a dar sentido a esta leitura. Sentido este que vai além da compreensão do código escrito. É a leitura do mundo e, por conseguinte, a leitura da vida, das coisas, dos homens sobre si, sobre os outros e sobre o que os cercam, os relacionam. Esta compreensão do texto a ser alcançada pela leitura implica, segundo Freire (1989, p. 9), a percepção das relações entre texto e contexto, isto é, perceber a vida que está para além da escrita da palavra.
Os livros contam a vida. Os livros contam a vida dos homens. Os livros contam das coisas que dão vida aos homens. Os livros ensinam aos homens a arte de viver. A morte da leitura é, neste sentido, o abandono desta vida que chega de dentro para fora. 
Eis o porquê da leitura (que não é apenas a da palavra) ter tamanha importância: “o homem não pode participar ativamente da história, na sociedade, na transformação da realidade, se não for ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para transformá-la” (Freire, 1989, p. 47). É preciso que na família, na escola, na sala de aula, na comunidade e na vida com um todo, o homem seja preparado para uma autêntica educação, aquela que, como sempre defendeu Freire, liberte, não domestique e subjugue. Uma educação que tire a lápide da aprendizagem e permita ver as pessoas que fazem parte dela de uma forma integrada com o meio, com o mundo, pois aprendemos a ler a partir do que somos, do nosso contexto, de nossas leituras anteriores, como menciona Roland Barthes em seu livro S/Z- “esse ‘yo’ que aproxima al texto es ya uma pluralidad de otros textos, de códigos infinitos, o más exactamente, perdidos” (2009, p. 19). 
A leitura é, assim, uma forma de integração, de troca entre as pessoas no seu espaço ou fora dele. Isto é o que permite a produção do conhecimento e a ampliação dos saberes e das possibilidades de ler o mundo.


* Frase de George Perros
 
[1] (latLazaru, np de origem hebraica) 1 O que está atacado de lepra; leproso, morfético.2 O que está coberto de chagas (Dicionário Michaelis).

BARTHES, Roland. S/Z. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1992.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Para mover poeiras, poesia

Mormaços I

Há dias que sou
preguiça de mim
descansando em banho-maria.


Mormaços II

Há dias que sou saudade de mim


Mormaços III

Nestes dias, amor
é que tu me encontras desnuda de ais
que me olhas sem lentes

Nestes dias que te amo sem véus
e sem expectativas
não sou metades nem silêncios nestes dias.

Nestes dias sou abraço, beijo e cama
E tudo mais é esperança e raio de sol. 

Poema de noite só

Há dias em que 
o amor adormece estrelas
no céu de mim,
cadente.

http://quixotesforrosebaioes.blogspot.com.br/2012/10/um-haiconto-de-estrelas-e-vagalumes.html

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Estou farta....

Estou farta de tanta homofobia, de tanta xenofobia, de tanto racismo. Estou farta da agressividade diária que as redes sociais  e os jornais da nação têm perpetuado, compartilhado e (acreditem!) curtido Brasil afora. Estou carente de humanidade, de gente que tem brilho no olhar, que não se mecanizou. Estou carente de respeito coletivo, de responsabilidade coletiva. Estou necessitada de educação, de gratidão, de memória, de generosidade, de amor.

Recentemente, um professor da Universidade Federal do Espírito Santo foi afastado de suas atividades docentes por declarar, em aula, que preferiria ser atendido por um médico branco do que por um médico negro. Justificou o "ilustre professor" que um médico branco teria tido mais oportunidades ao longo de sua formação, que estaria mais bem preparado para o exercício da profissão. Este professor, frente a tudo isso, ainda acredita não ser uma pessoa preconceituosa e defende-se com argumentos que tentam justificar seu racismo. 

A educação está cheia de preconceitos velados, de preconceitos declarados. E não me refiro a Educação Básica. A Educação Básica ainda é o lugar que encontramos maior propagação do exercício da escuta, da colaboração, da humanidade, do respeito ao indivíduo. Refiro-me, em especial, ao Ensino Superior. 

Como aluna de graduação, escutei inúmeras vezes que, por sermos filhos da educação básica pública, por sermos brasileiros, jamais conseguiríamos ler devidamente literatura clássica, por exemplo;  que isso não era material acessível as nossas condições inferiores, porque brasileiro que se prese não lê, não sabe ler. E isso é apenas uma amostra das inúmeras barbaridades que já vivenciei como professora em formação. 

E é por isso que defendo uma educação firmada no amor, no amor difundido por Paulo Freire e por Humberto Maturana - o amor como a própria educação, como  a aceitação do outro como verdadeiro outro na relação. Nós precisamos urgentemente nos humanizar, humanizar nossas salas de aula. Só assim pessoas como este professor da Universidade Federal do Espírito Santo abandonarão o racismo e passarão a ver as pessoas a partir de uma outra ótica, que não a da cultura de dominação, patriarcal e ainda tão presente no nosso país.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um país carente de humanidade, de respeito.

Estão querendo separar o Brasil. Sim, estão querendo. Estão querendo separar por pura falta de entendimento, por discordância, por sotaque, por jeito de viver e de pensar. Estão querendo separar por falta de conhecimento, de respeito a cultura do outro, ao outro. 

Quando a miss Ceará ganhou o miss Brasil foi um deus nos acuda. As redes sociais foram invadidas por um sentimento de ódio. Diziam que a moça não merecia ter ganho porque além de baixinha tinha um sotaque desagradável. Desde quando sotaque é desagradável? Sotaque é sotaque, gente! A forma de falar da gente carrega o que somos, carrega a nossa cultura, a nossa riqueza de povo. Desagradável é ter preconceito.

Mas não parou por aí. Após as eleições presidenciais, as redes sociais foram invadidas novamente por comentários xenofóbicos. Queriam separar o norte e nordeste do restante do país. Tudo isso por conta de votos. Há até quem tenha compartilhado imagens do Brasil dividido por um muro, sem dar-se conta de que para crescermos como nação precisamos justamente abolir estas linhas divisórias, independente de políticos, de partidos, de gestores públicos. Vi, nestes últimos dias, uma inversão do que Boaventura de Souza Santos chama de Epistemologia do Norte, Epistemologias do Sul.  

Vi um país carente de humanidade, de respeito. É isto que precisamos urgentemente mudar na nossa nação. Para crescermos, precisamos ser mais humanos. Precisamos olhar o outro como parte do que somos, como fundamental para nossa constituição identitária. Nós somos o Brasil e o Brasil somos todos nós. 




sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Un pajarito me contó que también estamos hechos de historias"*

Cada história "es una baldosita en mosaico del tiempo", escreveu Eduardo Galeano tempos atrás. E nós somos feitos destas memórias, somos cada pedaço deste ladrilhozinho costurado ao fluir das horas. A nossa identidade nada mais é do que este vivido, do que este experienciar do tempo, este acumular narrativas, de passado. Eu sou o que vivi em meio aos caminhos e descaminhos do meu caminhar.

Lembro-me  das pescarias à margem do Toropi. Eu era menina de subir em árvores e correr carreira com os piás da volta de casa. Era menina de buscar milho em lavouras e limões na beira da estrada. Era menina e tinha ouvidos ansiosos de escuta. "En la orilla del río", o mundo passou em palavras. Descortinou-se para mim nos versos iluminados do meu pai, que me ensinou a ver o mundo com olhos de esperança e amorosidade, encharcados de poesia, entre caniços e lambaris.

Narrativas. Pedaços do tempo que não se apagam de mim. Meu pai imprimiu nos meus ouvidos a sua presença eterna. Não sou sem ele. Ele não é sem mim. Nos descobrimos neste fluir do tempo, preenchendo nossas memórias passadas e nosso tecido imaginário de futuros. Nos perpetuamos. Nós somos e seremos sempre feitos de palavras, porque, como escreveu Galeano, "somos hijos de los días, hijos del tiempo, y cada día tiene una historia que contar. Porque estamos hechos de átomos, según los científicos, pero un pajarito me contó que también estamos hechos de historias".





*Eduardo Galeano

Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.