quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 27: sobre o "Sul", de Marenco e Sérgio Carvalho Pereira

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião sobre o projeto poético-musical "Sul", idealizado por Luiz Marenco e Sérgio Carvalho Pereira. Inolvidable, eu diria - para empezar minha incursão por território desconhecido. Eu que sou de poesia (no nível da palavra, apenas) nunca tinha presenciado tamanha riqueza pelos palcos do Rio Grande. É claro que ainda encontramos qualidade em verso e voz pelo cenário da música regional, mas o "Sul" vai além. É um passo más allá. Ao contemplar o espetáculo, pude ver o "Sul" como um projeto que apresenta a nossa cultura através da campanha. Diferente de "Estética do Frio", do Vitor Ramil, por exemplo, que vai caminhando pela cidade em direção aos abraços interculturais que damos. Com Ramil, nós nos apresentamos nosotros, meio irmão, medio hermano. O "Sul" de Marenco e Sérgio Carvalho inunda a campanha, revela-se nela - campo, coxilha, vento, banhado e silêncio. Com eles, somos o gaúcho representado na calmaria da milonga, em cada acorde, em cada galpão de estância. O "Sul" faz as pazes com o gaúcho que já não vemos, que já não somos para além das porteiras do Rio Grande.

No palco do show, instrumentistas de tirar o chapéu. Gaita, violão e baixo acústico fizeram o elo entre a voz do artista e a palavra do poeta. No palco, o poeta Sérgio Carvalho apresentou-se ao público, coisa rara na música do Brasil, onde o artista da pena nunca ganha a notoriedade que merece a sua autoria. Impressionou-me o "Sul" nisto também. Foi a primeira vez no cenário gaúcho que vi o poeta ter reconhecimento pela sua verve. Fiquei emocionada.... 

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião,  minha humilde impressão a partir dos acordes e poesia de Marenco e Sérgio Carvalho: a dificuldade do nosso sul ser reconhecido pelos outros pagos deste Brasil não é apenas uma questão linguística! É preciso ser campo e ruminanças para inclinar-se para este processo intercultural. O corpo do resto do Brasil não está preparado para o "Sul" e suas invernias... o seu silêncio... a sua melodia. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 26: sobre os últimos acontecimentos e a educação

Da janela dos prédios e das casas de minha cidade natal o povo grita por melhorias. Que melhore as possibilidades de crédito para adquirir bens e produtos, gritam por juros mais baixos, gritam pela queda da presidente que a maioria elegeu, gritam pela extinção do Partido dos Trabalhadores, gritam pela Ditadura...gritam, gritam e desfilam faixas de toda ordem em um protesto legitimado pela democracia que vivemos.

Da janela e das ruas de minha cidade natal o povo estende-se Brasil afora em um coro de pedidos. Já se pediu para que não lêssemos mais Paulo Freire, já se pediu pela volta dos militares (há ainda quem peça), agora declararam que todos deveriam ter sido mortos em 1964. Definitivamente, é o fim!

Da janela da minha casa eu peço que a educação retorne a escola urgentemente! Que o povo volte a acreditar na educação e que os professores saiam de seu movimento de protesto diário e abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que esquerda e direita em política é mais que uma relação espacial, geográfica; que abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que a palavra inglesa impeachment se escreve "impeachment" mesmo, que "foje" é com "g"... e por aí vai! Da janela da minha casa eu peço que o povo grite por educação de qualidade, porque com uma educação de qualidade não veremos tantas barbaridades escritas protestos afora, num verdadeiro assassinato em série da nossa língua portuguesa, da história do nosso país. 

Da janela da minha casa, eu rezo para que meus colegas professores não abandonem a causa e não deixem de lado estes inúmeros projetos de vida que diariamente chegam as nossas escolas. Nós ainda podemos mudar muita coisa neste país, a começar pelas nossas salas de aula! Da janela da minha casa, eu rezo por um governo que olhe a educação como investimento real no povo (e que o povo perceba isto!) e que olhe para seu funcionalismo como quem olha para a sua equipe de trabalho. Eu rezo para que a folha de pagamento de meus colegas venha em dia em todos os sentidos... e que venha recheada de reconhecimento e de esperança...
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Fonte imagens: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/imagens-marcantes-protestos-de-domingo.html 



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O poeta


                   Ao poeta Joaquim Moncks, que me inspirou a                                                                     versejar nesta semana de verão, em pleno agosto.

O poeta é 
aquele que se permite
sonhar entre 
a palavra 
e o branco oscuro do papel

O poeta, ah o poeta...

caminha no fio do verso
despindo 
                no
                     correr 
                               da lâmina 
                                                as suas faces mais secretas

O poeta é o que sou 
poesia sou eu 
transformada em palavra.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

De vento e poesia

O vento norte é mestre-sala
pelas ruelas da cidade
carente de bailarina
faz desfile, cria alegoria
apresenta-se comissão de frente
despe-se de saias, revela-se em assovios

O vento vai a frente
varre a rua e suas pegadas
sacode a poeira dos transeuntes

Enredado de memórias,
o vento rodopia o cabelo
da menina que passa

Já sem tempo
carente das demoras
o vento desaba em choro
a espera da amada. 



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 25: de mim e da fronteira

Sempre gostei da fronteira, da ideia de fronteira imposta pelo Estado, ideia esta (quase sempre) impraticável nos espaços fimbrios do extremo sul do Brasil. Eu sempre movi meu olhares para a fronteira, para esta linha que nos aparta do que somos para nos encontrarmos no que não somos. Sempre estive entre o lá e o cá - costurando o espaço desta terra que para os meus olhos é "uma terra só*". 

Na infância, eu buscava no rádio de pilha sintonizar o meu tempo com o tempo dos meus antepassados. Sorvi canções e programações em espanhol, rocei meu léxico na língua do outro. Me "interculturei"! 

No Mestrado, sedenta por borrar linhas divisórias, encontrei a obra de Aldyr Garcia Schlee. Fronteiriço de Jaguarão (RS), vi na literatura criada pelo autor palavras para minhas percepções. O narrador de Schlee  (e o próprio autor em seus depoimentos) observa a fronteira como quem faz parte, como aquele que construiu a sua identidade não no "eu", não no "outro", mas em um "nosotros". Para Schlee o outro lado da linha é parte do que somos. Para o autor a fronteira - ainda que marcada por um rio, por uma ponte, pelos trilhos do trem - é "Uma Terra Só". 

Eu não nasci na fronteira, mas cresci com olhos fronteiriços, olhos que não atentam para marcos, para barreiras. Meus olhos são fluidos, híbridos, são nosotrosSempre gostei da fronteira. Sempre estive entre o lá e o cá...

* obra de Aldyr Garcia Schlee

sábado, 18 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 24: de mala pronta

Estou de mala pronta. Com os sonhos todos na bagagem, me vou ao Uruguay. Meu destino - Tacuarembó! Turista de mim, vou percorrer o interior deste espaço fimbrio que um dia já foi Brasil mas que apartado do pai redescobriu-se gigante. 

Reza a lenda que Carlos Gardel, o grande nome do Tango, é de Tacuarembó. Os Argentinos alegam que foi na sua Tacuarembó que o "milonguero*" nasceu.  O Uruguaios, por sua vez, atestam o nascimento de Gardel com uma certidão exposta no museu de mesmo nome, na Tacuarembó Uruguaia. Argentino ou Uruguaio, Gardel levou o extremo sul da América para os ouvidos do mundo - marcando este território para além chuteiras, mates e alfajores.

E por falar em alfajores e seus diversos recheios - eis outra disputa entre Argentinos e Uruguaios: o doce de leite. Os amigos hermanos que me perdoem, mas um Conaprole é fundamental. Por melhor que seja o doce de leite na Argentina, o doce de leite que se come no Uruguai é "inolvidable". Assim como  - de um lado ou do outro do Río de la Plata  - são inolvidables as medialunas, o frio que nos identifica como crias do Sul, a hospitalidade, as lutas.

Estou de mala pronta. O destino  - um pouco de mim. 


http://www.descubriendouruguay.com/auc.aspx?154142,1172

* Milonga - baile de tango

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do que somos

nos demoramos em nossas descobertas
pacientes de nós
tecemos fiapos
viramos retalhos
fragmentos
descompassos

nos demoramos em nossas descobertas
impacientes por nós
bordamos 
criamos 
sonhamos


a vida passa nas nossas demoras
e nos encontramos 
costureiros de memórias

Google Imagens


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 23: do tempo e sua covardia

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. Consome minhas últimas pilhas, me leva adiante com sua pressa sem me deixar piscar os olhos, olhar em volta, respirar fundo, sorver os minutos, ter calma, estar viva e saber disto. Meu relógio não aguentou a pressão, despediu-se de mim para férias sem prazo pré-estabelecido. Disse adeus e me deixou um recado: o tempo se esvai. E se esvai mesmo... 

Eu ando carente de mim, carente de me perceber vida e vivente entre os meus. Eu ando cheia de formulários, protocolos e datas marcadas. Eu ando cheia de leituras obrigatórias e pouco me sobra para o prazer de ler os livros silenciados ao lado da minha cama, de me consumir e viajar por entre estradas imaginadas. Eu ando carente da escuta. Imersa em coisas para fazer - não escuto os passos pela casa, sua poesia e as notícias que batem à porta. A correria tampou os meus ouvidos como uma forma de sobrevivência. É uma necessidade de estar concentrada em mim para não sucumbir a onda que vem atrás - forte e avassaladora como um tsunami.... 

Eu ando carente de mim, de me descobrir com tempo de sobra para as escolhas (as minhas!), para os jantares em família, para as conversas demoradas - olhos nos olhos, boca no ouvido, mãos nas mãos. Ando carente de caminhar sem pressa. De viver cada minuto. O meu tempo é um presente que ando jogando fora...

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. No rádio, Alejandro Sanz canta... "Miras el reloj, faltan 10 y piensas: ¿me da tiempo? (...)Mira cómo corre, qué cobarde es el tiempo".

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 22: das indignações cotidianas

A semana finda com saldo negativo para o nosso país. Se já não íamos para o céu, agora jamais sairemos do inferno. Eis que, na Câmara dos Deputados, os ilustres filhos de Deus aprovaram a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos. Ao invés de escolas, teremos prisões! Senhores, preciso confessar, estes deputados não me representam! Eu louvaria (e até votaria) no sujeito que propõe a anunciar caminhos significativos para a mudança deste país, pessoas sérias o bastante para propor e realizar mudanças na Educação, pela Educação, pelo humano, pela humanização do que viramos. Mas estes que andam por aí colocando celas onde deveriam colocar escolas e salas de aula, colocando grades onde deveriam colocar quadros, cadernos e janelas... estes, meus senhores, estes deputados não me representam. Assim como não me representam as pessoas que tiveram a infeliz ideia de desmoralizar a imagem da presidente criando adesivos ofensivos a sua imagem. Para estes também seria fundamental um investimento significativo nas escolas, pois na escola reconhecemos o papel da mulher na nossa sociedade, suas conquistas ao longo da história, suas lutas e suas dificuldades. Estes inábeis, curtos de ideia, não ofenderam apenas a presidente e sua autoridade, ofenderam a todas as mulheres brasileiras. Para estes, escola de qualidade já! Para os Deputados de nosso país, escolas de qualidade já e, claro, muita oração. Afinal, nem Deus é capaz de perdoar tantos pecados.

A semana finda com saldo negativo para o nosso país.... sem previsão de melhorar! 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 21: quando parte um paisano

Nico Fagundes foi destes raros homens que deixam história, que marcam a história, que as (re)contam através de escrituras e ruminanças. Com ele, com a sua escrita historiográfica, muito de nossa cultura rio-grandense ficou registrada para além dos costumes, da vivência. Virou material de estudo, de consumo por muitos guris e gurias nos Centros de Tradição Gaúcha mundo afora.
O Nico (e toda a sua família Fagundes) fez da nossa cultura um gosto a ser cultivado. Na contramão das grandes redes - fez da televisão aliada na divulgação das nossas façanhas, da nossa arte regional – ainda que esta divulgação se mantenha fortemente localizada no Sul do país. De bombacha, pala no lombo, lenço e chapéu tapeado levou de mão em mão o mate doce dos enamorados pela arte produzida aqui na nossa casa, o Rio Grande. 
Longe de ser um niilistas dos pampas, Nico Fagundes sempre foi um estudioso de sua prática tradicionalista. Sabia da formação do nosso estado, da história de cada batalha, das danças tradicionais, da comida campeirada, sabia da constituição do gaúcho como poucos sabem hoje neste Rio Grande de Deus. Defendia (diferente de mim) uma matriz lusitana para nossa fundação. Nos fez brasileiros. Fez o gaúcho - de todas as querências - reconhecer-se parte do Brasil.

O Nico Fagundes fará falta para os gaúchos! O ativista Nico Fagundes fará falta para o Estado do Rio Grande do Sul! Fará falta para os gaúchos e gaúchas de todas as querências...


Se foi o paisano. Fechou a porteira de sua trajetória pelos campos do Rio Grande do Sul. Foi viver em outra morada. Quitou sua caderneta na venda da Província de São Pedro e partiu! 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 20: de educação e futebol!

O Celso Antunes já fez suas colocações sobre educação e futebol. No Brasil, o país do futebol, quem já não se arriscou em fazer estas relações, não é verdade?! Eu mesma explicava classes de palavras para meus pequenos do ensino fundamental relacionando-as aos jogadores e posições destes em campo. A gurizadinha compreendia e achava um barato! Nós somos os grandes atores deste campeonato chamado educação...

Como técnica, volta e meia eu me vejo escalando mal o meu time. Eu desarticulo, erro posições, me equivoco com as jogadas, desorganizo a minha planilha. Às vezes, dou uma bola dentro, ganho campeonato! Todo professor tem seus altos e baixos na profissão. Quem não tem? Mas a gente faz uma paradinha técnica, revisa nossas bases, organiza nosso melhor fardamento e entra em campo sempre com a garra de um a camisa 10. A gente acredita em todos os nossos jogadores, no seu potencial coletivo e nas suas individualidades. Nossa equipe é sempre esperança de taça na mão, medalha no peito!

Em campo, os nossos jogadores fazem gol de bicicleta, fazem gol olímpico, fazem falta, erram pênalti, se atrapalham nas jogadas. Às vezes entram em campo, às vezes ficam no banco, às vezes esquecem da bola, nem sempre vestem a camiseta. A gente tenta te todas as formas. Propõe jogadas - da uma pedalada aqui, um drible ali, uma carretilha acolá e a partida se efetiva. A gente dá chapéu na desesperança, faz carrinho na falta de vontade. 

A gente pode ficar pensando em quem sai vencedor deste campo, de quem é o mérito da vitória. Alguns vão dizer que tudo se deve a visão e a atuação do técnico; outros, ao brilho das individualidades; há quem lembrará da importância do trabalho do grupo. Eu diria que, neste campeonato, o mérito da vitória é de todo aquele que se move em direção ao gol, é de todo aquele que acredita que cada passo faz a diferença, que cada cartão, que cada jogada é fundamental. No final das contas - seja de um lado, seja de outro - quem sempre ganha é a Educação!



Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.