terça-feira, 10 de abril de 2018

Indumentária

Vestida esperança
desabrocho uma rima
para enfeitar o verso que anda torto.

É tempo de derrubar as folhas das árvores do corpo
renovar desejos em ventanias de outono

E ir, simplesmente ir inverno a dentro
garimpeira de mim.


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

PEQUENO CONTO DAS SUTILEZAS II

Por Angelise Fagundes

Jantar em família. Brigite tenta conversar sobre a situação política do país. Afeita ao debate, posiciona-se. Descobre, enfim, que isso é coisa de homem naquele lugar. Rotulam-na: histérica! E desde aquela sexta-santa perdeu a voz.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Pequena poesia da mulher moderna


Angelise Fagundes


Há um mundo cobrando vida dentro do meu ventre
verve a vida
e nasce o verso.

revelações


Angelise Fagundes

há dias em que me enfeito de primavera e rodopio esperança

há outros tantos que brigo com uma angustia aqui dentro
um nó indecifrável
um sem motivo
um emaranhado sem ponta

eu escuto as minhas demoras entranhadas
faço verso em minhas redes
faço fio, faço laço

há dias em que as angustias são nós cego
e o que me falta é tempo de mim








quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pequeno conto das sutilezas I



Por Angelise Fagundes

Domingo quente de outubro. Festa. Velhos amigos comentavam em uma roda as qualidades de se ser Brigite. Haviam visto a moça crescer. Linda, muito linda. Inteligente, muito inteligente, exclamavam! Entre um abraço, outro abraço, mais abraços, Brigite, incomodada, descobria que violência contra a mulher tem várias faces. 



domingo, 20 de agosto de 2017

Do guarda-roupa e da vida



Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida emocional, meu interior. É a personificação da minha existência. 

Na infância, eu dividia meu espaço no armário com a minha irmã. Na verdade, com a minha irmã, Menudos e Dominós. Minha participação naquele espaço era praticamente nula. O que me tocava eram mais as gavetas de uma antiga penteadeira. Na adolescência, fui ganhando o mundo e um guarda-roupas só para mim. À época, era um turbilhão de informações. Um rebuliço. Livros, figurinhas, ursos de pelúcia, papéis de carta, cadernos, diários e Barbies  - tudo misturado. Mas os móveis ainda guardavam a lembrança de outros donos...

Aos 15 anos, avessa as festas e exposições sociais exageradas, ao invés de "debus", ganhei meu primeiro quarto. O guarda-roupa vestia-se de bege. Tinha um espelho grande nas portas do meio. E eu passava a me ver com mais nitidez. Dei-me conta que acumular boas lembranças era mais importante do que acumular o desconforto de peças mal ajustadas ao corpo da gente. Foi então que ali, naquele guarda-roupa, organizei a minha vida em pequenos espaços.

Ainda hoje me deparo com meu guarda-roupa retratando muito de mim. Ora bagunçado, ora organizado, ora cheio, ora vazio. Toda estação é tempo de visitá-lo com mãos abertas, olhar-nos face a face - como no espelho da água em beira de rio. 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desumanização


Angelise Fagundes

despido de si
o homem cruza o Hades

já não há brilho nos olhos
não há amor nas palavras
não se vê mais o outro

em meio à luta de classes
sexismo, xenofobia, homofobia, racismo...


o homem já homem não é.



Robôs, do Uruguaio Gustavo Alamón


Caminos o/ou Do que somos feitos no Sul

Vitor Ramil conta no artigo "Estética do Frio" (http://www.vitorramil.com.br/estetica.htm#) que, certa feita, no escaldante Rio de Janeiro, via, pela TV, notícias do Sul, do frio chegando ao pampa rio-grandense. Sentiu, sorvendo seu mate e suando muitíssimo, que não era daquele espaço. Sentiu-se fora do lugar. Já me senti fora do lugar algumas vezes!

Quando vivi na Argentina, sentia algo estranho com relação aos brasileiros que viviam na mesma casa que eu. Eram meus compatriotas, mas compartíamos raramente gostos, costumes e falares. Estranho ser brasileira naquela situação de estrangeira com "os meus". Misturada aos argentinos nas calles de Santa Fe, no entanto, sentia-me parte. O mate sempre foi um elo interessante entre nosotros, del sur.

Nas calles uruguayas em um inverno qualquer, de frente para o rio, "lo mismo". Me Senti parte daquele frio gelado que abarca. O frio molda a nossa carne. Pertencemos ao frio e o frio nos pertence. Borges (apud Ramil) certamente tinha razão... o frio (esta arte do sul) é o que nos revela.

Foi talvez por lá, en las orillas del Plata, que senti conscientemente o que Ramil escreveu. Sou do Sul! E, em sendo do Sul, minhas identidades se apresentam com outros contornos geográficos. Meu mapa é outro. Me equilibro em outro meridiano. Meus trópicos são patas arriba. Sou muito mais parte de um território cultural compartilhado, muito além de questões fronteiriças de outros tempos e tratados. 

Em tempo de muros e fechamento de fronteiras, sou pampa aberto.





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

De memórias e homenagens: primeira parte.

Para Claridiane, Francieli, Adriane, 
Carine, Julia, Adriana, Denise, Geanine, Mairon e Fabi.

Lembro ainda hoje da homenagem que fizemos para a professora Magda Porto no final da primeira série do ensino fundamental, lá no Colégio Padre Nóbrega. Toda a turma se reuniu para comprar uma caixinha de música e um buquê de rosas para a "profe". Ela, emocionada, não sabia o que falar aos pais e alunos presentes naquela turma 11. E nem precisava. A presença dela em nossas vidas já era um agradecimento. 

Acho que foi com a professora Magda que decidi ser professora. Ela me apresentou o mundo, abriu os meus olhos para letrinhas e números de toda ordem. Com ela escrevi o meu nome, o meu sobrenome e me achei a pessoa mais importante do mundo. Mas não foi simples assim, coisa de técnica. Ela entrava na sala de aula como quem entrava para um encontro único e inesquecível. Ela tinha brilho nos olhos e muito amor no coração. Para ela, existíamos. Para ela, todos eram importantes. Para ela, eramos irrepetíveis. 

Quando eu me formei professora, a prof. Magda estava entre os primeiros nomes de minha lista. Ela não poderia faltar. Era preciso que tivesse reconhecido, ao menos de minha parte, todo o emprenho dedicado as minhas primeiras letras. Com ela, para além das palavras, aprendi que há dispositivos em nossa formação que vem do coração. E este vibra em outra sintonia quando encontramos território preparado para as semeaduras. 

Hoje, convidada para ser a Patrona da 2ª turma de Letras da UFFS Cerro Largo, passou um filme pela minha cabeça. Eu me vi sem palavras, imersa em uma emoção indescritível. É como se eu voltasse a meninice, naquela turma 11, e, ao mesmo tempo, me percebesse definitivamente professora. Foi nos olhos dos meus alunos que eu me encontrei... estes formandos maravilhosos que formam esta turma da 10ª fase.  

Em cada um dos meus alunos, uma história, muitos sonhos, muitas expectativas.... No meu coração, o desejo de que encontrem pelo caminho alunos tão especiais como eles, capazes de proporcionar a um professor a possibilidade do crescimento, da aprendizagem, da troca, da amizade, da amorosidade. Vejo em cada deles um pouco da minha Prof. Magda - com o coração gigantesco, cheio de amor e de respeito pelos projetos de vida que chegavam em sua sala de aula. Com eles sou definitivamente feliz! 

Valeu a pena... Valeu!



Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.