sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Ponto final?


Nunca fui amiga da morte,

mas ainda tento reconhecê-la como parte dos meus ciclos:

morri muitas vezes e nasci no mesmo corpo outras tantas

superei-a, superando-me

como não a ver como parte do todo, em cada um...

como o certo fim que me habita?


Abro os olhos e deixo o verde-vento-céu entrar pela janela

Sou toda reflexão e poesia, verve e amor

aqui, a vida segue fazendo morada

Habitam-me tantas no meu corpo mutante...tantas histórias

que me resta concluir que 

a morte segue em vida como memória.



 

Justino Kieling, 580

 

Há, na esquina da minha vida, uma casa

sombreada de nogueiras e muitos tons de verde-poesia,

habito-a desde então

eu e os meus

 

alicerçada de sonhos,

(re)descobrimos nossas partes em cada cômodo

Encontramos olvidos

Tateamos caminhos


Recomeçamos

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Tia Nida

Sem abraços e despedidas

partiu numa manhã

ensolarada de outubro


deixou pães de casa 

sobre a mesa das memórias

doces de leite, chimias,

punhados e mais punhados de afeto


alinhavou as costuras do tempo

em retalhos coloridos

se multiplicou


desde então

refugiou-se em cada um dos que amou.




domingo, 27 de junho de 2021

poeminha

alguma vez

alguma vez, talvez

alguma vez, talvez, seja possivel nomear tudo isso que me levou.


alguma vez

talvez 

me devolva para mim.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Liberdade

Minha primeira liberdade infantil

foi atravessar a rua da minha casa

e brincar na calçada do vizinho.


Era um mundo

Um mundo todo ali

na frente da minha casa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Constatação

pela janela, os olhos repousam cansados sobre a cidade.

há saudade profunda no olhar do poeta.
saudade de si.
saudade dos outros.

onde foram parar suas humanidades, se pergunta, desesperançado.

e entende - no ponto final do verso - que há circunstâncias irrecuperáveis. 


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Os olhos do meu filho


Angelise Fagundes


Depois de tantos poemas

não há palavras que definam

teu olhar

tus ojos, m'ijo

tus ojos

são só alegria a me acompanhar.


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O quadro


 Angelise Fagundes

Se pintasse, 

registraria a casa de imigrantes

que me abre as manhãs

todos os dias 

dessa quarentena

interminável


é um retrato do tempo

parado

a frente de minhas retinas

um retorno. uma memória. 


Se pintasse,

seria o quadro de minhas memórias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Desde lejos

Angelise Fagundes


agosto acorda minha saudade de ti

o encontro adiado com tuas curvas,

teus aclives 

e o pôr do sol que se despede quente e alaranjado a oeste 


a tua lembrança invade este meu inverno com vento norte 

entre a Pasqualine e a Acampamento

sou toda Rio Branco e seus esquecidos paralelepípedos, 

sua arquitetura art déco

sou os dormentes, a estação

e as pessoas nos domingos de brique


abraço forte os teus caminhos

e percorro cada uma de tuas veredas

rodopio por tuas esquinas 

toco cada um de teus recantos, 

tua desconcertante geografia.



Minicon-finamento

Passa da meia noite. No sofá, diante da TV ligada em canal aleatório, reconhece todas as suas vulnerabilidades diante do caos. Acorda pontualmente às 8h. Todos os dias. Toma café da manhã. Café preto, forte e acompanhado de uma fatia generosa de bolo. Dirige-se à porta e observa a vizinhança: casas quase sem vida, encerradas. Na contramão da paisagem, um homem. Religiosamente cruza próximo às 9h. É antigo na redondeza. Veste sempre a mesma calça. Marrom. Maior que ele. Dobrada na barra até a canela. Coz alto. Amarrada bem acima, na cintura - com um cinto preto, fazendo um leve franzido. Cruza sempre com passos largos e mãos nos bolsos. Inclinado para a frente, leva as mãos nos bolsos como se carregasse o mundo todo nas costas. Aonde irá? Talvez caminhar para desopilar do isolamento forçado. Talvez vá prestar algum serviço no bairro. Talvez vá ao centro da cidade comprar mantimentos. Em definitivo, o que ele fará, não sabe. Sabe, claramente, que espera sua volta. É um rastro de humanidade que vê passar todos os dias de sua porta - a metros e metros de distância. Saudável. Sempre saudável. Ao meio dia, serve o almoço para os conviventes. São sempre os mesmos. Olham para o prato com a mesma fome. Repetidamente, todos os dias. Sesteiam quando é possível. E quando não o é, guardam o corpo por horas sobre a cama. Às 15h, serve um chá de ervas que foram plantadas no verão passado, no canteiro da frente. O aroma invade a casa e os conviventes se sentam à mesa, convidados. Demoram-se aí até o telejornal. Às vezes, conversam. Outras, os olhos tagarelam todas as novidades em um silêncio abissal. São sempre profundos os olhos. O jantar, servido às 21h, é sempre pouco e breve. Cada um se recolhe as suas individualidades logo depois. E o sofá, enfim, é todo seu. Ali, pode reconhecer e acolher suas vulnerabilidades. Ali, pode até chorar. Sempre baixinho, sempre baixinho.

As torres


Angelise Fagundes - Cerro Largo, agosto de 2020

Duas torres observam a cidade


acima dos vitrais

anunciam em badaladas

causa mortis,

         nascimentos e

                           orações


As torres debruçam-se sobre a cidade e seu tempo

atenta aos seus movimentos

as torres contemplam os isolados e suas janelas

no abraço das horas dos meses sem fim

dia e noite

noite, enfim.

Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.