quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O quadro


 Angelise Fagundes

Se pintasse, 

registraria a casa de imigrantes

que me abre as manhãs

todos os dias 

dessa quarentena

interminável


é um retrato do tempo

parado

a frente de minhas retinas

um retorno. uma memória. 


Se pintasse,

seria o quadro de minhas memórias.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Desde lejos

Angelise Fagundes


agosto acorda minha saudade de ti

o encontro adiado com tuas curvas,

teus aclives 

e o pôr do sol que se despede quente e alaranjado a oeste 


a tua lembrança invade este meu inverno com vento norte 

entre a Pasqualine e a Acampamento

sou toda Rio Branco e seus esquecidos paralelepípedos, 

sua arquitetura art déco

sou os dormentes, a estação

e as pessoas nos domingos de brique


abraço forte os teus caminhos

e percorro cada uma de tuas veredas

rodopio por tuas esquinas 

toco cada um de teus recantos, 

tua desconcertante geografia.



Minicon-finamento

Passa da meia noite. No sofá, diante da TV ligada em canal aleatório, reconhece todas as suas vulnerabilidades diante do caos. Acorda pontualmente às 8h. Todos os dias. Toma café da manhã. Café preto, forte e acompanhado de uma fatia generosa de bolo. Dirige-se à porta e observa a vizinhança: casas quase sem vida, encerradas. Na contramão da paisagem, um homem. Religiosamente cruza próximo às 9h. É antigo na redondeza. Veste sempre a mesma calça. Marrom. Maior que ele. Dobrada na barra até a canela. Coz alto. Amarrada bem acima, na cintura - com um cinto preto, fazendo um leve franzido. Cruza sempre com passos largos e mãos nos bolsos. Inclinado para a frente, leva as mãos nos bolsos como se carregasse o mundo todo nas costas. Aonde irá? Talvez caminhar para desopilar do isolamento forçado. Talvez vá prestar algum serviço no bairro. Talvez vá ao centro da cidade comprar mantimentos. Em definitivo, o que ele fará, não sabe. Sabe, claramente, que espera sua volta. É um rastro de humanidade que vê passar todos os dias de sua porta - a metros e metros de distância. Saudável. Sempre saudável. Ao meio dia, serve o almoço para os conviventes. São sempre os mesmos. Olham para o prato com a mesma fome. Repetidamente, todos os dias. Sesteiam quando é possível. E quando não o é, guardam o corpo por horas sobre a cama. Às 15h, serve um chá de ervas que foram plantadas no verão passado, no canteiro da frente. O aroma invade a casa e os conviventes se sentam à mesa, convidados. Demoram-se aí até o telejornal. Às vezes, conversam. Outras, os olhos tagarelam todas as novidades em um silêncio abissal. São sempre profundos os olhos. O jantar, servido às 21h, é sempre pouco e breve. Cada um se recolhe as suas individualidades logo depois. E o sofá, enfim, é todo seu. Ali, pode reconhecer e acolher suas vulnerabilidades. Ali, pode até chorar. Sempre baixinho, sempre baixinho.

As torres


Angelise Fagundes - Cerro Largo, agosto de 2020

Duas torres observam a cidade


acima dos vitrais

anunciam em badaladas

causa mortis,

         nascimentos e

                           orações


As torres debruçam-se sobre a cidade e seu tempo

atenta aos seus movimentos

as torres contemplam os isolados e suas janelas

no abraço das horas dos meses sem fim

dia e noite

noite, enfim.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Alfredo Tonetto, 414


                                                   Para Marcus, que voa comigo


Aos poucos, a casa vai se despedindo...

as gavetas abertas cederão lugar a outros tecidos e utensílios 
as paredes contarão outras histórias 
em quadros coloridos ou monocromáticos
os móveis borrarão as digitais de mãos sedentas de amor
do calor dos abraços e dos afagos
o guarda-roupas terá outros cheiros e não será mais os das manhãs de sorrisos abertos
os livros irão para outros olhares
mesmas mãos, novas prateleiras
serão território de renovadas descobertas

Na cozinha, não haverá taças de vinho e garrafas expostas e louça por lavar cheia de conversas e textos e artigos 
o fogão receberá novo artífice

No jardim, a roseira perderá a plateia atenta ao seu despertar 
As árvores não amadurecerão ao olhar da criança e não matarão a sua sede
os passos serão renovados de histórias 

Aos poucos, a casa vai se despedindo... 
E nós nos movemos em nossos alicerces carregados de sonhos.


domingo, 1 de dezembro de 2019

Soy

Soy la canción de cuna
la mirada, el susurro.
Soy la leche, la papa, las novedades.
Soy la lengua, las palabras, los abrazos.
Soy la sonrisa y el llanto.
Soy paciencia,
sustentación.
Soy mirada, guía, camino,
dirección.
Soy tantas y tanto desde entonces,
que pasé a firmar poco y corto:


me escribo madre.

14/11/2019.

Da velha política

Nos diários, fake news e destemperos
divisões
disparates
discussões

novas narrativas, velhas artimanhas

E já não há novidade para olhos sedentos de informação.


15/11/2019

Ensimesmada

Uma vez por dia tento me ver melhor
busco meu olhar perdido entre fraldas e brinquedos
e me digo, ensimesmada,

aproveita.

Logo ali o tempo é saudade de menino entre os tapetes,
cambaleando primeiros passos
Logo mais o colo apequena e as mãos crescem
Logo, logo o mundo é infinito e tu, pouso.

Tu sempre serás porto, abrigo, imensidão - poesia.

Lentamente eu me olho
dona de minhas escolhas
meu olhar perdido encontra abrigo nas bolitas castanhas de meu filho, tão minhas
e já sou outra, tantas, inúmeras



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O que a mamãe que eu sou hoje diria para a mamãe que estava por nascer há um ano atrás



Angelise,


Amamentar é mais complexo que parir.
O leite demora em torno de 5 dias para descer.
Amamentar dói.
Amamentar não tem nada de romantismo.
Amamentar não é só instintivo simplesmente. É técnica também.
Para amamentar, vale a pena se informar muito e ter a ajuda de profissionais especializados para auxiliar mamães de primeira viagem.
Faça sua rede de apoio sobre amamentação no instagram. Siga @amamentacaodobem obrigatoriamente!
Se precisar de "equilid" para se sentir segura, não

 tenha vergonha, mas se informe sobre o que 
essa escolha implica na sua vida e na do seu filho;
Leia sobre "tintura de algodoeiro" e se acreditar em caminhos alternativos para melhorar a amamentação, use;
Chá de funcho, chá de alfafa, chá da mamãe (weleda) são excelentes para a produção de leite.
Se puder, compre uma bombinha elétrica para estimular a produção (Lansinoh e Medela são excelentes!).
Beba muita água! Muita!
Deixe o filhote pendurado na teta!
Tenha toda a ajuda que puder!
Se forem oferecer leite industrializado ao seu filho no hospital, pergunte se há leite que não provoque alergia alimentar no pequeno (leites hidrolisados, por exemplo!) e, no caso de não terem, com a prescrição de um pediatra, se ofereça para comprar. Evite que seu filho tenha APLV!
Não acredite em tudo que os médicos nos dizem. Se dizem para que não faça restrição alimentar e seu filho chora de cólica, considere que o leite e os derivados podem ser  alimentos a serem retirados temporariamente de sua dieta. Tudo é temporário e passa muito rápido! Não vai nem sentir falta, acredite!
Se precisar, use bico de silicone no seio, mas tire-o logo que o peito estiver curado.
Use óleo de girassol (Dersani) nos machucados do seio. Millar é uma pomada maravilhosa também.
Conte com o seu obstetra sempre!
Para amamentar é preciso ter coragem! Tenha! Mas se a dor não for suportável, não se culpe! Muitas mães não amamentam e não são menos mães por isso!
Com o tempo - acredite - tudo melhora! 
Depois do primeiro mês, amamentar é muito prazeroso!

Sorte que vai dar certo!




Angelise - 1 ano e 19 dias de amamentação em livre demanda





Reflexões sobre a maternidade 1

Há um ano não escrevia nada. Passei este tempo todo com os olhos baixos, fixos. Custou-me conseguir erguer a cabeça e ver ao redor. Foi um aprendizado olhar em volta. A maternidade é mesmo um mergulho de cabeça. Eu imaginava que a gestação terminaria na 39ª semana do meu pequeno, com o seu nascimento. Engano meu. Era a primeira etapa dela. Ao parir, passei a gestar a mãe que tenho me tornado dia a dia. 

Fotografia  📷 @eduardaalegre.ph

segunda-feira, 4 de março de 2019

Quadrinha de mãe

duas bolitas miúdas
tão cheinhas de vida
são os olhos do meu filho
que me enchem de alegria.


Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.