sexta-feira, 30 de maio de 2014

Conversas sobre Educação

           Semana passada escrevi nesta coluna uma frase do prof. Valdo Barcelos, professor da Universidade Federal de Santa Maria. Ele afirma que “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano” (2013, p. 24).
Pensando nesta afirmação, acredito que esta incorporação em se tratando de ensino deve começar pelo olhar (e pela linguagem) amoroso(a) do professor, “pelo amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador” (Morin: 2007, p. 71). Deve começar com o professor sendo (ou retornando como o) “o centro da pedagogia, não )o seu) apêndice”, como coloca Arroyo (2011, p. 10), pois é preciso deixar de ver o professor “como recurso”– seja ele da etapa de ensino que for. 
É preciso, como coloca Arroyo (2011, p. 10), que se “recupere a sua condição de sujeito da ação educativa junto com os educandos”. Afinal, é nas nossas relações, no nosso conversar, como propõe Maturana (2004, p. 31) que nos humanizamos, que nos mostramos como humanos e que temos condições de modificar a nossa cultura.  
É preciso então que a universidade volte-se para estas questões que vêem a educação como um processo de construção humana. Que os cursos de licenciatura, em especial, agreguem a sua formação elementos significativos à prática docente, no sentido de preparar os futuros professores para o exercício compromissado de sua profissão, no sentido de preparar estes futuros professores para, através de suas linguagens e ações – com o seu linguajear[1] - contribuir de forma mais efetiva (e humana) para as modificações necessárias à cultura educacional que vivenciamos. 
Que a formação docente para estes professores seja impregnada de conhecimento sobre o emocionar, sobre o amor – emoção esta que, na visão de Maturana, funda o social. Que na formação docente destes professores seja possibilitada a reflexão sobre as relações humanas para que, aos poucos, possamos ir vendo as transformações também nas escolas. Para que estas, como afirma Barcelos (2013, p. 28), surjam como “espaços de criação, de invenção e de incentivo à espontaneidade em detrimento da cópia, da imitação e da violência simbólica e física que, infelizmente, ainda se fazem presentes no cotidiano de nossos espaços educacionais”.




[1] Termo cunhado por Maturana (2004).

REFERÊNCIAS:

ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: Imagens e Auto-imagens. Petrópolis. VOZES, 2011.

BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos: contribuições da Antropofagia Cultural Brasileira.  Rio de Janeiro. VOZES, 2013.

MATURANA, R.M.; VERDEN-ZÖLLER,G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo. Palas Athena, 2004.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

De autópsias, poesias e práticas pedagógicas

                                          Uma parte de mim é permanente:                                                                                                      outra parte se sabe de repente
                                                         (Ferreira Gullar )

Descobri tarde as coisas que não gostava na escola e na universidade. Aprendi tarde a ter voz de dizer verdades. Descobri, por exemplo, que não nasci para autopsiar poemas. Eu os quero inteiros, imprimindo mil nuances as minhas interpretações. Não os quero repartidos. Não os quero pela metade. Não os quero pela boca de outros, mastigados.
Na escola, me perguntavam o que o poema dizia. Eu nunca tive coragem de dizer  o que o poema dizia. Para mim, o poema flutuava em minhas mãos, era portal. Não dizia. Me olhava, me espreitava. Mas o que pensava sobre o poema, não estava escrito no livro do professor. Então... 
Na universidade, para alguns professores, nenhum aluno era capaz de autopsiar um poema. Para eles, não éramos capazes, não conseguiríamos nunca. Poesia era um bem próprio para doutores examinarem (risos). Descobri tarde que eu não queria autopsiar poemas, pois não nasci para ser professora legista.
Em muitos momentos vivenciei práticas de tortura emocional em plena universidade pública – alunos de graduação sendo açoitados verbalmente porque não davam conta de modificar toda uma cultura educacional brasileira, afinal, não vinham para a universidade e seu academicismo recheados de leitura clássica. Para estes encontros, além da falta de envolvimento docente com a aprendizagem dos alunos, no sentido de prepará-los para a escola, faltava amor. Não só o amor pela própria arte que se trazia para o universo da sala de aula, mas fundamentalmente o amor ao humano, bem no sentido cunhado por Humberto Maturana.  
O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social. Por isso, digo que o amor é a emoção que funda o social. E sem a aceitação do outro na convivência, não há fenômeno social. (MATURANA, 2009, P. 23 E 24)

Este amor que é uma tarefa do sujeito para Freire era a própria educação. Para ele, “quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar” (Freire: 2008, p. 36).  É uma pena que, como afirma Barcelos (2013, p. 24), “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano”.

Que, em educação, não autopsiemos nossos sonhos... nem o de nossos alunos!
"que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio (...)
porque metade de mim é amor
e a outra metade também" (Oswaldo Montenegro)

Imagem retirada do sitio:
http://encruzilhadasliterarias.blogspot.com.br/2013/01/atencao-escritores-alencriativos.html

REFERÊNCIAS:

FREIRE, P. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. UFMG, 2009.
BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos - contribuições da antropofagia cultural brasileira. Rio de Janeiro. VOZES, 2013.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

De reconstruções



Quando eu viajo para outro lugar, gosto de ver a história marcada nos espaços públicos. Gosto de ver o passado reconhecido e respeitado no presente. Gosto de ver o passado como parte do presente na vida das pessoas.

Na Argentina, sempre me chamou atenção as manifestações das mães de maio, na Plaza de Mayo, em frente a casa do governo. As (agora) abuelas de mayo nunca deixaram o passado esquecido no tempo. O passado marcou profundamente a vida de cada uma destas mulheres, destas mães, destas avós. Está lá estampado em cada manifestação e marca a identidade do povo argentino.

O passado enquanto patrimônio arquitetônico é bem maior em muitos recantos de nosso Brasil também. Muitas cidades têm sua história nas ruas, preservada. No sul do Rio Grande do Sul vemos a promissora época de outrora nos prédios e praças de Pelotas, de Piratini, de Jaguarão. Em Porto Alegre, no centro da capital em especial, o passado corre paralelo a modernidade que se apresenta. O passado marca as identidades.

Se pensarmos a escola, o passado segue marcado de forma profundamente enraizada. A estrutura escolar em forma de carteiras, quadros e gizes segue intacta. Ainda não temos um presente que olhe efetivamente para este passado e se transforme em nova história. Não temos ainda um presente mudando (efetivamente) nossa forma de viver a educação. Meus olhos de educadora andam tristes neste sentido....

Esta semana os professores municipais, em São Paulo, saíram as ruas para reivindicar melhores salários. Cerca de 5 mil docentes colocaram a cara na rua para dizer que não estão satisfeitos com o que ganham, para dizer que precisam ser ouvidos. E precisam ser ouvidos urgentemente há anos.

Em um país onde todos querem dar pitaco na educação, é preciso ouvir os educadores. E ouvi-los para além de seus gritos por dignidade salarial. Em um país de tantas desigualdades, é preciso ouvir os professores falarem sobre o que realizam nas escolas que têm, com o pouco que têm em termos estruturais, em termos pedagógicos. Em um país que teima em fazer de suas manifestações atos de vandalismo - é preciso dar voz aos mestres. 

Google Imagens
É na educação que o Brasil acontece... É pela educação que precisamos nos mobilizar para criar um novo presente, para viver um novo futuro - sem jamais deixar de olhar criticamente para trás, observando nossa história, nossa caminhada, nossos equívocos. Afinal, somos hoje o passado que construímos. É preciso caminhar em educação sem  precisar bloquear a avenida Paulista e/ou a rua da Consolação.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Maio, mês feminino



Para Maria, Elisangela, Maria Eduarda, 
Aline, Antonia, Djalma, Marcia e Brenda

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a". Quinto mês do calendário gregoriano, seu nome deriva de uma deusa romana, Deusa da Fertilidade. Outras versões, apontam a origem à deusa Maya, mãe de hermes, o mensageiro.

Independente de sua filiação etimológica, maio é o mês que me faz lembrar o quanto nós, mulheres, desenvolvemos um papel de fundação, de pilares fundamentais em nossas família, na história, na educação de forma geral.

Na literatura, Malinche foi figura fundamental para a concepção do primeiro mexicano. No Brasil, Iracema e seu filho Moacir - cruza de índio com português -  abriram espaço para nosso mito fundador da brasilidade: uma mistura em tons de terra, céu, sol, mar e idiomas. No sul, Imembui cumpre este papel literário de conceber a vida e o amor em tons de poesia. Ao lado de Morotin deu a luz ao primeiro santamariense. 

Na vida da gente encontramos também estes mitos fundamentais. A mãe da gente é este mito fundador dos nossos lações familiares. Da nossa vida! Minha família existiu primeiro no ventre de minha mãe, casa compartilhada entre mim e meus irmãos. Foi ela, a dona Maria, que preparou o espírito e abriu as portas do corpo para que existíssemos. Sem ela, nem Aroldo, nem Elisangela, nem Angelise. Dela, novas famílias dão vida a vida da gente. Com ela, novas mães agregam-se ao nosso universo feminino de gerar vida, o homem, o humano.

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a".

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao Pacheco com amor...

Esta semana eu realizei um sonho de leitora, conheci o escritor José Francisco de Almeida Pacheco. Esta semana eu realizei um sonho de educadora, conheci o professor José Francisco de Almeida Pacheco. Pessoa simples, o Zé da Ponte abriu sua fala no 3º SENID (Seminário Nacional de Inclusão Digital), em Passo Fundo, com um convite ao diálogo. Diretamente nos indagou sobre as perguntas que teríamos para fazer a ele, porque ele não estava lá para dizer nada, mas para conversar conosco.

Eu sempre fui do diálogo. Inquieta, sempre quis me posicionar. Na escola, quando cheguei como professora, o que eu mais queria era poder dialogar, aprender em um sistema de compartilhamento. Conversar em um nível pedagógico - sonhar, planejar, realizar. Inúmeras vezes, durante a fala de Pacheco, eu desejei perguntar o porquê de tamanha falta de diálogo nos espaços de ensino Brasil afora: falta de diálogo entre os professores, com a comunidade, com os pais, com os alunos. Há um silenciamento que me angustia profundamente. 

Livre das verbas e das políticas governamentais, o Pacheco realiza o Projeto Âncora aqui no Brasil. Disse ele que cansou de ouvir dos colegas que o escutavam nas inúmeras falas que realizava pelo país que os sonhos que ele colocava em prática só eram possíveis em Portugal, no primeiro mundo. "Ora pois", então ele veio fazer educação aqui. Faz educação com a comunidade, com as pessoas. Na sua escola todos são bem-vindos a construir um espaço de interação e de aprendizagem mútua. É lindo de ver!

Contou ele que há quase quarenta anos, na Escola da Ponte, em Portugal, um aluno apareceu na escola todo desgrenhado, sujo. Ao chegar, o professor Pacheco indagou sobre o que havia acontecido com ele. O rapaz contou que no barraco que ele morava não havia luz e que durante a noite a irmã dele havia gritado muito, por horas. Pela manhã, quando o sol despontou, descobriram o motivos dos gritos da menina: os ratos haviam comido uma de suas orelhas. Diante da história de Nelson, o professor Pacheco disse ao rapaz que talvez tivesse sido melhor ele ter ficado por casa, já que a família precisava dele. O garoto, então, respondeu ao Zé da Ponte que estava ali porque precisava estar, porque quando saía de casa para ir a escola, sentia algo dentro do peito que mais parecia ser alegria.

Alegria... e disse tudo!

Durante mais de uma hora eu me emocionei inúmeras vezes com histórias como a do Nelson. Sonhei uma escola como a do Pacheco para os inúmeros alunos que já tive. Sonhei uma escola assim feita pelos meus alunos; que eles façam uma escola assim amanhã - uma escola de alegria, firmada nas relações humanas, no amor. Porque, já me contou o professor José Pacheco que o "professor não ensina o que diz, ensina aquilo que é". Que sejamos feitos de amor, porque "para a educação vamos por dois caminhos: ou por amor, ou por vingança. Ficamos por amor, o amor de Varela, de Maturana, de Freire - estes maravilhosos latino-americanos" (Pacheco).




quarta-feira, 23 de abril de 2014

De esperanças e amizades


 Ao seu Ari e aos nossos colegas Décio, 
Gilmar, Rodrigo e Ari, da UFFS.


É de impressionar como o tempo mudou a rotina, a vida, o comportamento das pessoas. Quando eu era criança, podíamos brincar livres pela rua de casa, os muros e portões eram baixos e nós podíamos pulá-los sem esforço. Da janela, gritávamos para a vizinha e a vizinha, comadre, chamava sempre que preciso. 

Hoje, eu moro em um apartamento e desconheço as pessoas. Sou eu, meu companheiro e a nossa gata. Na televisão, as notícias nos assombram e já nem saímos mais tanto assim de casa. É o inverso da vida social. Nos resguardamos do inesperado. Vivemos com medo.

Esta semana, porém, na vinda para Cerro Largo, me deparei com algo que pensava já não existir mais. Na estrada, eu e minha colega Ana Beatriz ficamos paradas por conta de um pneu furado - culpa da estrada esburacada e sem reparos. Era noitinha já e nós estávamos amedrontadas com o movimento da estrada. Ligamos para nossos colegas virem nos ajudar (parceria rara hoje em dia também!), mas fomos surpreendidas pela generosidade do seu Ari. O seu Ari, esposo da Teca, de Cerro Largo. 

Noite já - ele parou o carro e se prontificou a nos ajudar. Pessoa iluminada, deu sentido a nossa noite, me fez ver que no mundo ainda há pessoas boas, caridosas, dedicadas a fazer o bem. Animou a minha esperança na humanidade.

Certamente, seu Ari fará parte de nossas memórias  - as minhas e as da Ana Beatriz. Afinal, não é sempre que alguém pode ser chamado de amigo. Não é mana?





quinta-feira, 17 de abril de 2014

O exercício do olhar


Tenho escrito muito sobre afetividade, sobre as relações, neste espaço. Penso, às vezes, que sou repetitiva. É que minha vida gira um pouco em tentar compreender este aspecto humano. Este humanizar-se. Este aproximar-se dos outro.

Eu trabalho com pessoas, trabalho como mediadora de descobertas, de possibilidades, de aprendizagens. Eu sou professora e amo minha profissão. Neste trabalho aprendi a ver para além das formalidades de uma sala de aula, de seus rituais. Aprendi a ver as pessoas. E aprendi a ver assim, de uma hora para outra, diante de uma turma de 6º ano.

Era agosto e fazia muito frio.  Eu entrava na escola para minha primeira experiência no ensino fundamental. Haviam me dito que a turma para a qual eu daria a minha primeira aula de língua portuguesa era uma turma difícil, cheia de problemas. Eles não paravam quietos. Antes de entrar na sala de aula, tentei desfazer-me de toda e qualquer possibilidade de ver a turma com olhos alheios. Foi aí que uma mágica aconteceu. Eu vi por primeira vez. Havia vida naquele espaço. Cada dia que passava, em cada olhar, via uma história de vida diferente. Eram muitas dificuldades que eu realmente não poderia dar conta. Mas eu poderia, ali, naquele espaço pequeno em que compartilhávamos a existência, tentar criar um espaço afetivo de convivência e aprendizagens. Eu consegui, acreditem. Dar e receber amor é um exercício diário que precisamos abraçar como responsabilidade com a transformação, com a vida. E neste processo de transformar a minha sala de aula, acabei me transformando e aprendendo muito mais com meus alunos do que, sem dúvida, eles comigo. Eu jamais vou esquecer aqueles olhares amorosos....

Em tempos de Páscoa, em tempos de transformação, meu desejo é de que as renovações passem pelo olhar de todos os professores, de todas as equipes diretivas, de toda a comunidade escolar. Que haja doçura em suas formas de ver o ensino e que haja muito prazer em aprender e em ensinar. Que a escola seja espaço de alegrias ...


Afinal, já escreveu Saramago, “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Repara que, ao olhar com olhos de amorosidade, tudo terá valido a pena.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Em tempos de leitura e humanização

Esta semana duas obras muito interessantes tomaram conta de minha leitura: "A arte de amar", de Erich Fromm, e "A Cabeça bem-feita", de Edgar Morin.

Nesse clássico da filosofia humanista, Fromm abarca de forma muito simples e clara aspectos significativos relacionados ao amor. O amor e suas dificuldades, inclusive a de saber-se amar, a de deixar-se amar. Discorre ele que "apesar do profundo anseio por amor, quase tudo é considerado mais importante que o amor: o sucesso, o prestígio, o dinheiro, o poder - quase toda a nossa energia é empregada em aprender a alcançar esses objetivos, e quase nenhuma em aprender a arte de amar" (Fromm, p. 7). 

Em uma leitura inicial, me parece que o que Fromm reflete vem ao encontro das ideias de Humberto Maturana, na medida em que no pensador chileno vemos o amor não como um sentimento, mas como um o reconhecimento do outro como verdadeiro outro na relação. Aprender a amar é aprender a respeitar o outro. Premissa tanto em Maturana quanto em Erich Fromm. 

Para Maturana, há ainda uma outra questão em se tratando de amor. Para ele, o amor é um aspecto biológico do ser. Morin, a respeito disto, em "A Cabeça bem-feita", menciona: "o ser humano nos é revelado em sua complexidade - ser, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural. O cérebro por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mão, com a qual escrevemos, são órgãos totalmente biológicos, totalmente culturais" (Morin, p. 40).

Sempre me inquietou muito que nos cursos de graduação o tema amor, (o tema) das relações, não fosse parte das discussões. Em áreas humanas, me parecia uma contradição este distanciamento. Em cursos de formação de professores, então, me parece uma contradição ainda maior. Evidente que, ao me referir ao amor, trago à baila os teóricos já mencionados neste texto e, também, o nosso grande pensador da educação, Paulo Freire. 

Eis que lendo Morin, me deparo com o seguinte trecho e tudo fica mais claro neste sentido: "Paradoxalmente, são as ciências humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuição ao estudo da condição humana, precisamente porque estão desligadas, fragmentadas e compartimentadas. Essa situação esconde inteiramente a relação indivíduo/ espécie/ sociedade, e esconde o próprio ser humano. Tal como as ciências biológicas anula a noção de vida, a fragmentação das ciências humanas anula a noção de homem". (Morin, p. 41)

Diante disto, em meio as minhas leituras, cabe por fim algumas reflexões bem pontuais. Em termos humanos, precisamos ainda aprender muito. Em termos pedagógicos, educacionais  - ¡Qué se yo! ¡Un montón!




REFERÊNCIAS:

FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita - repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.



domingo, 6 de abril de 2014

De céus, estrelas e um punhado de incertezas

Angelise Fagundes

Meu tempo anda ruminante...
Volta e meia me puxa a manga da camisa
Me faz girar o corpo nos calcanhares
Eu olho o céu e olho os meus pés
Há um infinito entre o que somos
Carne e espírito - Corpo de vento

Meu tempo anda ruminante...
Me faz olhar o atrás, me faz perceber o avante
E teima em discutir com meus pormenores

Nas ruminanças entre o que somos
Decidi ser rio
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sexta-feira, 4 de abril de 2014

De Educação e de interesses

Napoleão Bonaparte, referindo-se aos interesses humanos, deixou registrada a seguinte frase: "todo homem luta com mais bravura pelos seus interesses do que pelos seus direitos". Em um universo de tantas individualidades, presenciamos, diariamente, uma bravura que chega a superar os limites da moral e da ética.

Um bom exemplo disto talvez seja o programa BBB - Big Brother Brasil, que em muitos países teve apenas uma versão, mas que no brasil virou uma febre incurável - ao menos até 2017. Neste programa de "realidade", os participantes realizam artimanhas de toda a ordem para alcançar o seu objetivo - ganhar um milhão de reais. Para isso, mudam  - conforme o interesse - sua forma de estar no mundo, de viver o mundo. 

Não vi, ainda, nenhum participante do BBB que afirmasse, após eliminação, ter feito cada ato de forma intencional. Tudo é sempre sem querer, tudo faz parte do jogo, tudo faz parte deste universo criado dentro de uma realidade que consideram não ser a mesma realidade "aqui de fora". Vale lembrar que os interesses mudam conforme o contexto em que se vive. Fora da casa, com ou sem dinheiro, o interesse (já) passa a ser outro. 

Vendo episódios do último programa do BBB, esta semana, me lembrei dos interesses que circundam a educação. A escola, a universidade, são como esta tela que emite sons e imagens para o mundo. Muitas vezes - eu diria que na maioria das vezes - esta "tela" não escuta o mundo, não acata muitas de suas motivações. É uma questão de interesse. Como diria o Marquês de Maricá - "a dialética do interesse é quase sempre mais poderosa que a da razão e consciência". Vai entender, então...

Interessada que sou - espero que a Educação de nosso país de uma forma geral, em todas as esferas, lute com mais bravura pelos seus direitos do que pelos seus interesses. Espero, de verdade, que as pessoas façam isso e que, humanizadas, anunciem mais e reclamem menos. Espero, com todo o meu coração, que interesses pessoais não afetem o coletivo de um projeto significativo em torno da Educação. Espero, por fim, que realmente se pense e se trabalhe para um projeto significativo para a Educação. 

"Os interesses particulares fazem esquecer facilmente os interesses públicos." (Montesquieu) 

sexta-feira, 28 de março de 2014

De ditaduras e silenciamentos

Na maioria das vezes, percebemos que ainda não vimos em vida tudo que é possível ver. E algumas visões são inexplicáveis. Uma destas é o que anda acontecendo pela Coreia do Norte.

Na última semana, a ditadura de Kim Jong-un determinou um corte de cabelo à moda socialista para sua população. Primeiramente, foram liberados dez modelos de cortes diferentes para os homens e dezoito para as mulher. Agora, no entanto, a coisa mudou. Em mais uma demostração de autoritarismo e excentricidade, o ditador decidiu impor o seu próprio corte de cabelo a toda a população masculina do país. 

Com este acontecido, fiquei remexendo os meus botões da memória e selecionando as ditaduras que ainda vivenciamos em pleno Brasil do século XXI. 

Na escola, vi muitas coisas interessantes. No início da cada ano letivo, a ditadora, digo, a diretora lia para toda a comunidade escolar as normas que o ano obrigava a seguir. Nenhuma regra havia sido construída com os alunos, nem mesmo os professores da casa participavam da seleção. Era norma e norma cuidadosamente verificada no dia-a-dia dos pequenos aprendizes. 

A mais tirana de todas estas normas escolares, para mim, sempre foi a do silenciamento (e não vi isso apenas na escola, vi na universidade também). Todos têm que escutar o mestre, todos têm que ficar de boca fechada, todos têm que prestar atenção porque o conteúdo cai na prova. É uma violência sem tamanho silenciar uma criança! 

Na escola, com os meus alunos, eu sempre fui partidária de outras construções. Na minha sala de aula, regra sempre foi o respeito, a alegria, o olho no olho, a amorosidade. Criança que não confia no professor não aprende (quase) nada de bom com ele. 

Em todos os tempos, é preciso aprender a compartilhar carinho, respeito, humanidade. Em tempos de imposição, é preciso aprender a ser grande  - nos pensares e sonhares. E que este sonho não seja moldado por nenhuma mão à moda Kim Jong-un.
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Constatação

Tenho gostado de mais  de pessoas que  me gostam de menos:  Nunca fui boa em matemática.