terça-feira, 12 de julho de 2016

Das transformações II

No casulo
sou feito poesia de fim de tarde:
lusco-fusco-me para aurorar-me.

Das transformações I

No final de um verso encasuladoborboletei-me.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

De memórias e homenagens: primeira parte.

Para Claridiane, Francieli, Adriane, 
Carine, Julia, Adriana, Denise, Geanine, Mairon e Fabi.

Lembro ainda hoje da homenagem que fizemos para a professora Magda Porto no final da primeira série do ensino fundamental, lá no Colégio Padre Nóbrega. Toda a turma se reuniu para comprar uma caixinha de música e um buquê de rosas para a "profe". Ela, emocionada, não sabia o que falar aos pais e alunos presentes naquela turma 11. E nem precisava. A presença dela em nossas vidas já era um agradecimento. 

Acho que foi com a professora Magda que decidi ser professora. Ela me apresentou o mundo, abriu os meus olhos para letrinhas e números de toda ordem. Com ela escrevi o meu nome, o meu sobrenome e me achei a pessoa mais importante do mundo. Mas não foi simples assim, coisa de técnica. Ela entrava na sala de aula como quem entrava para um encontro único e inesquecível. Ela tinha brilho nos olhos e muito amor no coração. Para ela, existíamos. Para ela, todos eram importantes. Para ela, eramos irrepetíveis. 

Quando eu me formei professora, a prof. Magda estava entre os primeiros nomes de minha lista. Ela não poderia faltar. Era preciso que tivesse reconhecido, ao menos de minha parte, todo o emprenho dedicado as minhas primeiras letras. Com ela, para além das palavras, aprendi que há dispositivos em nossa formação que vem do coração. E este vibra em outra sintonia quando encontramos território preparado para as semeaduras. 

Hoje, convidada para ser a Patrona da 2ª turma de Letras da UFFS Cerro Largo, passou um filme pela minha cabeça. Eu me vi sem palavras, imersa em uma emoção indescritível. É como se eu voltasse a meninice, naquela turma 11, e, ao mesmo tempo, me percebesse definitivamente professora. Foi nos olhos dos meus alunos que eu me encontrei... estes formandos maravilhosos que formam esta turma da 10ª fase.  

Em cada um dos meus alunos, uma história, muitos sonhos, muitas expectativas.... No meu coração, o desejo de que encontrem pelo caminho alunos tão especiais como eles, capazes de proporcionar a um professor a possibilidade do crescimento, da aprendizagem, da troca, da amizade, da amorosidade. Vejo em cada deles um pouco da minha Prof. Magda - com o coração gigantesco, cheio de amor e de respeito pelos projetos de vida que chegavam em sua sala de aula. Com eles sou definitivamente feliz! 

Valeu a pena... Valeu!



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 27: sobre o "Sul", de Marenco e Sérgio Carvalho Pereira

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião sobre o projeto poético-musical "Sul", idealizado por Luiz Marenco e Sérgio Carvalho Pereira. Inolvidable, eu diria - para empezar minha incursão por território desconhecido. Eu que sou de poesia (no nível da palavra, apenas) nunca tinha presenciado tamanha riqueza pelos palcos do Rio Grande. É claro que ainda encontramos qualidade em verso e voz pelo cenário da música regional, mas o "Sul" vai além. É um passo más allá. Ao contemplar o espetáculo, pude ver o "Sul" como um projeto que apresenta a nossa cultura através da campanha. Diferente de "Estética do Frio", do Vitor Ramil, por exemplo, que vai caminhando pela cidade em direção aos abraços interculturais que damos. Com Ramil, nós nos apresentamos nosotros, meio irmão, medio hermano. O "Sul" de Marenco e Sérgio Carvalho inunda a campanha, revela-se nela - campo, coxilha, vento, banhado e silêncio. Com eles, somos o gaúcho representado na calmaria da milonga, em cada acorde, em cada galpão de estância. O "Sul" faz as pazes com o gaúcho que já não vemos, que já não somos para além das porteiras do Rio Grande.

No palco do show, instrumentistas de tirar o chapéu. Gaita, violão e baixo acústico fizeram o elo entre a voz do artista e a palavra do poeta. No palco, o poeta Sérgio Carvalho apresentou-se ao público, coisa rara na música do Brasil, onde o artista da pena nunca ganha a notoriedade que merece a sua autoria. Impressionou-me o "Sul" nisto também. Foi a primeira vez no cenário gaúcho que vi o poeta ter reconhecimento pela sua verve. Fiquei emocionada.... 

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião,  minha humilde impressão a partir dos acordes e poesia de Marenco e Sérgio Carvalho: a dificuldade do nosso sul ser reconhecido pelos outros pagos deste Brasil não é apenas uma questão linguística! É preciso ser campo e ruminanças para inclinar-se para este processo intercultural. O corpo do resto do Brasil não está preparado para o "Sul" e suas invernias... o seu silêncio... a sua melodia. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 26: sobre os últimos acontecimentos e a educação

Da janela dos prédios e das casas de minha cidade natal o povo grita por melhorias. Que melhore as possibilidades de crédito para adquirir bens e produtos, gritam por juros mais baixos, gritam pela queda da presidente que a maioria elegeu, gritam pela extinção do Partido dos Trabalhadores, gritam pela Ditadura...gritam, gritam e desfilam faixas de toda ordem em um protesto legitimado pela democracia que vivemos.

Da janela e das ruas de minha cidade natal o povo estende-se Brasil afora em um coro de pedidos. Já se pediu para que não lêssemos mais Paulo Freire, já se pediu pela volta dos militares (há ainda quem peça), agora declararam que todos deveriam ter sido mortos em 1964. Definitivamente, é o fim!

Da janela da minha casa eu peço que a educação retorne a escola urgentemente! Que o povo volte a acreditar na educação e que os professores saiam de seu movimento de protesto diário e abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que esquerda e direita em política é mais que uma relação espacial, geográfica; que abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que a palavra inglesa impeachment se escreve "impeachment" mesmo, que "foje" é com "g"... e por aí vai! Da janela da minha casa eu peço que o povo grite por educação de qualidade, porque com uma educação de qualidade não veremos tantas barbaridades escritas protestos afora, num verdadeiro assassinato em série da nossa língua portuguesa, da história do nosso país. 

Da janela da minha casa, eu rezo para que meus colegas professores não abandonem a causa e não deixem de lado estes inúmeros projetos de vida que diariamente chegam as nossas escolas. Nós ainda podemos mudar muita coisa neste país, a começar pelas nossas salas de aula! Da janela da minha casa, eu rezo por um governo que olhe a educação como investimento real no povo (e que o povo perceba isto!) e que olhe para seu funcionalismo como quem olha para a sua equipe de trabalho. Eu rezo para que a folha de pagamento de meus colegas venha em dia em todos os sentidos... e que venha recheada de reconhecimento e de esperança...
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Fonte imagens: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/imagens-marcantes-protestos-de-domingo.html 



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O poeta


                   Ao poeta Joaquim Moncks, que me inspirou a                                                                     versejar nesta semana de verão, em pleno agosto.

O poeta é 
aquele que se permite
sonhar entre 
a palavra 
e o branco oscuro do papel

O poeta, ah o poeta...

caminha no fio do verso
despindo 
                no
                     correr 
                               da lâmina 
                                                as suas faces mais secretas

O poeta é o que sou 
poesia sou eu 
transformada em palavra.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

De vento e poesia

O vento norte é mestre-sala
pelas ruelas da cidade
carente de bailarina
faz desfile, cria alegoria
apresenta-se comissão de frente
despe-se de saias, revela-se em assovios

O vento vai a frente
varre a rua e suas pegadas
sacode a poeira dos transeuntes

Enredado de memórias,
o vento rodopia o cabelo
da menina que passa

Já sem tempo
carente das demoras
o vento desaba em choro
a espera da amada. 



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 25: de mim e da fronteira

Sempre gostei da fronteira, da ideia de fronteira imposta pelo Estado, ideia esta (quase sempre) impraticável nos espaços fimbrios do extremo sul do Brasil. Eu sempre movi meu olhares para a fronteira, para esta linha que nos aparta do que somos para nos encontrarmos no que não somos. Sempre estive entre o lá e o cá - costurando o espaço desta terra que para os meus olhos é "uma terra só*". 

Na infância, eu buscava no rádio de pilha sintonizar o meu tempo com o tempo dos meus antepassados. Sorvi canções e programações em espanhol, rocei meu léxico na língua do outro. Me "interculturei"! 

No Mestrado, sedenta por borrar linhas divisórias, encontrei a obra de Aldyr Garcia Schlee. Fronteiriço de Jaguarão (RS), vi na literatura criada pelo autor palavras para minhas percepções. O narrador de Schlee  (e o próprio autor em seus depoimentos) observa a fronteira como quem faz parte, como aquele que construiu a sua identidade não no "eu", não no "outro", mas em um "nosotros". Para Schlee o outro lado da linha é parte do que somos. Para o autor a fronteira - ainda que marcada por um rio, por uma ponte, pelos trilhos do trem - é "Uma Terra Só". 

Eu não nasci na fronteira, mas cresci com olhos fronteiriços, olhos que não atentam para marcos, para barreiras. Meus olhos são fluidos, híbridos, são nosotrosSempre gostei da fronteira. Sempre estive entre o lá e o cá...

* obra de Aldyr Garcia Schlee

sábado, 18 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 24: de mala pronta

Estou de mala pronta. Com os sonhos todos na bagagem, me vou ao Uruguay. Meu destino - Tacuarembó! Turista de mim, vou percorrer o interior deste espaço fimbrio que um dia já foi Brasil mas que apartado do pai redescobriu-se gigante. 

Reza a lenda que Carlos Gardel, o grande nome do Tango, é de Tacuarembó. Os Argentinos alegam que foi na sua Tacuarembó que o "milonguero*" nasceu.  O Uruguaios, por sua vez, atestam o nascimento de Gardel com uma certidão exposta no museu de mesmo nome, na Tacuarembó Uruguaia. Argentino ou Uruguaio, Gardel levou o extremo sul da América para os ouvidos do mundo - marcando este território para além chuteiras, mates e alfajores.

E por falar em alfajores e seus diversos recheios - eis outra disputa entre Argentinos e Uruguaios: o doce de leite. Os amigos hermanos que me perdoem, mas um Conaprole é fundamental. Por melhor que seja o doce de leite na Argentina, o doce de leite que se come no Uruguai é "inolvidable". Assim como  - de um lado ou do outro do Río de la Plata  - são inolvidables as medialunas, o frio que nos identifica como crias do Sul, a hospitalidade, as lutas.

Estou de mala pronta. O destino  - um pouco de mim. 


http://www.descubriendouruguay.com/auc.aspx?154142,1172

* Milonga - baile de tango

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do que somos

nos demoramos em nossas descobertas
pacientes de nós
tecemos fiapos
viramos retalhos
fragmentos
descompassos

nos demoramos em nossas descobertas
impacientes por nós
bordamos 
criamos 
sonhamos


a vida passa nas nossas demoras
e nos encontramos 
costureiros de memórias

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