quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Balanço de final de ano...

Estamos as vésperas de mais uma noite de Ano Novo. É tempo (sempre é tempo) de buscar nossas memórias mais sagradas, renovar nossas energias; tempo de fazer planos, de sonhar caminho e possibilidades; tempo de varrer as poeiras da nossa alma, de fazer o balanço de nosso estoque. 

No meu balanço 2014, está a certeza de que não somos feitos de eternidade, nossa materialidade é a efemeridade do tempo. Está a certeza, também, de que "se não pudermos amar, que não nos demoremos", como afirmou Frida Kahlo. A vida é curta demais para não vivermos a plenitude do amar, do viver - para sermos  (só) metade do que podemos ser.

Neste ano, o tempo levou muitas pessoas que foram completas, que viveram completamente, que acalentavam o meu coração por páginas e páginas a fio. O ano se foi nos levando García Márquez, Rubem Alves, Manoel de Barros, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna. O tempo marcou distância entre mim e minha Vivi. Sem ela, meus dias não foram mais os mesmos e ficou um vazio imenso incapaz de descrever. O tempo marcou distância em tantos outros corações que conheço. Pais, irmãos que foram ser memória, assim como o velho Aroldo, meu pai, minha memória, minha lembrança e meu exemplo mais sagrado. 

Que 2015 seja tempo de viver melhor, de sermos melhores. De abandonarmos nossas miudezas, de sermos gigantes nos nossos pensares e sonhares - no amor. Que 2015 seja tempo de nos demorarmos no amor, de vivermos por inteiro nossa vida e compartilharmos nossa existência por inteiro com aqueles que amamos. Que 2015 seja tempo de semear coisas boas, assim como fizeram meu pai, Vivi, tantos pais e irmãos que nos deixaram em 2014, como fizeram nossos literatos amados. Que 2015 seja tempo de sermos nós, sem abrimos mão de nossos sonhos.

Feliz 2015 a todos!

Fonte: http://hdw.eweb4.com/search/flores/

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

De despedidas docentes e de futuros iluminados


Aos meus queridos alunos da
 10ª fase do curso de Letras da UFFS


Todo semestre nos despedidos de uma turma com o sentimento de que cumprimos muitos de nossos objetivos pedagógicos e que deixamos a desejar em outros tantos. Refletimos sobre a correria dos dias, sobre as possibilidades que ficaram apenas sendo "possibilidades". Prometemos a nós mesmos que ao encontrar novamente a turma faremos melhor do que fizemos.  


Este semestre, no entanto, vivi (e estou vivendo) algo diferente. Minha turma era uma turma de formandos e minha despedida foi com o desejo de futuro promissor aos meus alunos, de caminho iluminado na escolha que eles fizeram pela docência. Não terá o próximo semestre com a turma "Lauro de Wallau", mas terá a lembrança dos momentos significativos de troca, de aprendizagem, de amizade que vivemos. 



A 1ª turma de formandos do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Cerro Largo, é uma turma especial. Alunos sempre dispostos a aprender e a refletir sobre a prática docente, sempre respeitosos, comunicativos, divertidos - não tê-los no próximo semestre é ter um vazio no meu coração de professora. No entanto, ao mesmo tempo, é ter a certeza de que a Educação do nosso país estará caminhando para um rumo melhor, pois eles farão diferença por onde passarem. 

Este semestre foi tempo de ter certeza sobre o quanto aprendemos com nossos alunos. Aprendemos sempre ou, como escreveu Paulo Freire, Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”



¿Qué es educar?
(Gabriel Celaya)

Educar es lo mismo que poner un motor a una barca
Hay que medir, pensar, equilibrar y poner todo en marcha.
Pero, para eso, uno tiene que llevar en el alma
Un poco de marino
Un poco de pirata
Un poco de poeta
Y un kilo y medio de paciencia concentra.

Pero es consolador soñar mientras uno trabaja
Que esa barca, ese niño
Irá muy lejos por el agua.
Soñar que ese navío
Llevará nuestra carga de palabras
Hacia puertos distantes,
Hacia islas lejanas.

Soñar que cuando un día
Esté durmiendo nuestro propio barco
En barcos nuevos seguirá
Nuestra bandera enarbolada.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Conversinhas sobre humanidade

Já é tempo de cuidar. De aprender a cuidar. De saber cuidar. A correria do dia a dia tem nos deixado cada vez mais longe do encontro com as palavras, dos seus significados, do tom da nossa voz, dos nossos sentimentos, do reconhecimento dos gestos. Estamos perdidos em meio a um caos e precisamos nos redescobrir humanos.

Da espécie humana, nascemos sob o cuidado de nossos pais. Não nos alimentamos, não mantemos uma higiene básica sem o cuidado de uma outra pessoa. Nossa estrutura emocional depende muito da forma como o "linguagear", como a conversação se estabelecerá conosco, com nossa biologia. Nós não nascemos humanos, humanos nos tornamos com os cuidados que nos são dados, com o cuidado que estabelecemos, reciprocamente - o cuidado da liberdade, o cuidado do amor, o cuidado do respeito, o cuidado com as palavras, o cuidado do diálogo...

Nesta época do ano, quando o Natal e o Ano-novo batem à porta, me pergunto muito sobre a nossa humanidade, sobre o que nos tornamos em meio a este caos do século XXI. Que futuro teremos? Como estamos cuidando de nós mesmos, como espécie, para não nos perdemos de nossa humanidade? Não trata-se de uma nostalgia do passado, não. No passado, o cuidado (e a humanidade) não era privilégio de muitos. Trata-se de uma reflexão que busca esperança para a descoberta de um viver social legitimo. Um viver pautado no amor, onde este amor é simplesmente o respeito ao outro como verdadeiramente outro na relação*. 

Que dezembro seja tempo de descobertas e de renovações em torno da nossa humanidade! Que o cuidado seja presença... 

*Humberto Maturana.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Para viver Dezembro...

Dezembro. O mês chega com a mesma velocidade em que o ano desfilou dias a fio. Foi com pressa que veio para fechar mais um ano de nossas atividades. Foi com rapidez que apareceu para apresentar os últimos dias de 2014.

Nas escolas, os professores já estão encaminhando os fechamentos dos cadernos de chamada, já estão fazendo os conselhos de classe, revisando os apontamentos, verificando os cálculos das aprendizagens. Na universidade também. Soma-se todos os pontinhos do semestre na tentativa de quantificar o conhecimento. A nota ainda é muito importante para alguns alunos (e para muitos professores), a ponto de batalharem décimo a décimo por ela. O que ainda não se deram conta (alunos e professores) nos espaços de ensino é que conhecimentos, experiências, saberes não cabem nos apontamentos docentes. Nós não podemos medir esta bagagem adquirida ao longo de tantas vivências, que estão para além, muitas vezes, de nossas salas de aula. Para uma mudança neste sentido, claro, teríamos que abrir mão do modelo educacional vigente no país, teríamos que buscar uma forma mais significativa de Educação.

Nesta época de final de atividades anuais /semestrais me pergunto sempre sobre o tempo que dediquei verdadeiramente ao meu conhecimento, ao meu auto-conhecimento, as pessoas. O quanto abri mão de dedicar-me ao que estava fazendo por estar pensando em outras tarefas; o quanto abri mão de estar presente por inteiro com meus amigos, com meus familiares, pensando nas atividades que tinha para corrigir; o quanto deixei de estar plena nos encontros com meus alunos imaginando como seria o próximo encontro (professor planeja classes todo o tempo!).

Foi pensando nesta forma de vida que, neste início de dezembro, me comprometi comigo mesma a ouvir menos e a escutar mais (do latim auscultar: atentar para aquilo que vem de dentro), me comprometi em ter uma atitude de pausa: "Pausa para acolher; pausa para cuidar; pausa para pensar; pausa para olhar; pausa para olhar com vagar; pausa para sentir; pausa para sentir com cuidado; pausa para perceber a minúcia; pausa para perceber e para cultivar a delicadeza; pausa para as pequenas coisas; pausa para as ações cotidianas; pausa para os gestos sutis; pausa para suspender a velocidade; pausa para exercitar a lentidão; pausa para viver a experiência; pausa para escutar os silêncios.” (Barcelos, 2010)*


BARCELOS, Valdo. Educação Ambiental: sobre metodologias, princípios e atitudes. Petrópolis: Vozes,  2010.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Somos reféns das más notícias

Esta semana encontrei-me com Borges. Conversamos horas a fio sobre memórias. Contou-me o literato argentino sobre suas andanças e suas descobertas. Contei-lhe das minhas. Tomamos um mate, relemos o Funes e segui refletindo sobre miudezas cotidianas, como o fato do homem, por exemplo, sempre lembrar-se das coisas negativas, deixando de lado - incrivelmente - o que de bom lhe acontece.

Somos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos fixamos nos fatos negativos. É uma epidemia geral. Não conheço pessoa que não se prenda a estas ruínas nem sempre necessárias. Somos personagens propícios a melodramas, a folhetins mexicanos. Firmamos contratos com a negatividade sem ler as pequenas notas.

Volta e meia vejo alguém contando que o chefe nunca lembra das tantas coisas significativas que o funcionário realiza, mas se o subalterno esquece de algo, está feita a lambança. Nunca mais esquece o chefe do mísero fato. O subalterno enfia a cabeça no problema e esquece das coisas boas também. Entristece.  

Se algo não vai bem no relacionamento, nos prendemos a este fato. Um véu inimigo de Mnemósine nos venda as memórias positivas, as coisas boas da vida. Criamos problemas, evitamos soluções. Entristecemos. 

No final no ano, tempo de limpar os estoques e fazer os balanços necessários, nos damos conta de que a bolsa do ano fechou em queda, no negativo. Viramos reféns das más notícias, das desesperanças. Nos infectamos com esta epidemia negativa e a única solução está na poesia. Na poesia vivida no dia a dia, no rolar das horas, no sorriso do rosto e na luz da caminhada.

Que dezembro seja iluminado, com tempo para semear esperanças!


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

“A LEITURA, RESSURREIÇÃO DE LÁZARO, LEVANTA A LÁPIDE DAS PALAVRAS” *


A história da morte e ressurreição de Lázaro é contada pelo Evangelho de João em uma das obras mais lidas ao longo da história da humanidade, a Bíblia. Lázaro [1], acometido de uma doença, morre. Após sua morte, suas irmãs intercedem junto a Jesus e este vai até o sepulcro e profere: “Lázaro, vem para fora!”João, o evangelista, conta que em seguida “o morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto coberto com um sudário”. Lázaro, retirada à lápide da morte, retornou a vida! Ler é retornar a vida, constantemente. É retirar a lápide das palavras, como escreve Perros. 

Este retirar a lápide, visto pela pedagogia de Paulo Freire, é a leitura como desvelamento da realidade, ou seja, é quanto o leitor surge de dentro do sepulcro, como Lázaro, e passa a dar sentido a esta leitura. Sentido este que vai além da compreensão do código escrito. É a leitura do mundo e, por conseguinte, a leitura da vida, das coisas, dos homens sobre si, sobre os outros e sobre o que os cercam, os relacionam. Esta compreensão do texto a ser alcançada pela leitura implica, segundo Freire (1989, p. 9), a percepção das relações entre texto e contexto, isto é, perceber a vida que está para além da escrita da palavra.
Os livros contam a vida. Os livros contam a vida dos homens. Os livros contam das coisas que dão vida aos homens. Os livros ensinam aos homens a arte de viver. A morte da leitura é, neste sentido, o abandono desta vida que chega de dentro para fora. 
Eis o porquê da leitura (que não é apenas a da palavra) ter tamanha importância: “o homem não pode participar ativamente da história, na sociedade, na transformação da realidade, se não for ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para transformá-la” (Freire, 1989, p. 47). É preciso que na família, na escola, na sala de aula, na comunidade e na vida com um todo, o homem seja preparado para uma autêntica educação, aquela que, como sempre defendeu Freire, liberte, não domestique e subjugue. Uma educação que tire a lápide da aprendizagem e permita ver as pessoas que fazem parte dela de uma forma integrada com o meio, com o mundo, pois aprendemos a ler a partir do que somos, do nosso contexto, de nossas leituras anteriores, como menciona Roland Barthes em seu livro S/Z- “esse ‘yo’ que aproxima al texto es ya uma pluralidad de otros textos, de códigos infinitos, o más exactamente, perdidos” (2009, p. 19). 
A leitura é, assim, uma forma de integração, de troca entre as pessoas no seu espaço ou fora dele. Isto é o que permite a produção do conhecimento e a ampliação dos saberes e das possibilidades de ler o mundo.


* Frase de George Perros
 
[1] (latLazaru, np de origem hebraica) 1 O que está atacado de lepra; leproso, morfético.2 O que está coberto de chagas (Dicionário Michaelis).

BARTHES, Roland. S/Z. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1992.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Para mover poeiras, poesia

Mormaços I

Há dias que sou
preguiça de mim
descansando em banho-maria.


Mormaços II

Há dias que sou saudade de mim


Mormaços III

Nestes dias, amor
é que tu me encontras desnuda de ais
que me olhas sem lentes

Nestes dias que te amo sem véus
e sem expectativas
não sou metades nem silêncios nestes dias.

Nestes dias sou abraço, beijo e cama
E tudo mais é esperança e raio de sol. 

Poema de noite só

Há dias em que 
o amor adormece estrelas
no céu de mim,
cadente.

http://quixotesforrosebaioes.blogspot.com.br/2012/10/um-haiconto-de-estrelas-e-vagalumes.html

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Estou farta....

Estou farta de tanta homofobia, de tanta xenofobia, de tanto racismo. Estou farta da agressividade diária que as redes sociais  e os jornais da nação têm perpetuado, compartilhado e (acreditem!) curtido Brasil afora. Estou carente de humanidade, de gente que tem brilho no olhar, que não se mecanizou. Estou carente de respeito coletivo, de responsabilidade coletiva. Estou necessitada de educação, de gratidão, de memória, de generosidade, de amor.

Recentemente, um professor da Universidade Federal do Espírito Santo foi afastado de suas atividades docentes por declarar, em aula, que preferiria ser atendido por um médico branco do que por um médico negro. Justificou o "ilustre professor" que um médico branco teria tido mais oportunidades ao longo de sua formação, que estaria mais bem preparado para o exercício da profissão. Este professor, frente a tudo isso, ainda acredita não ser uma pessoa preconceituosa e defende-se com argumentos que tentam justificar seu racismo. 

A educação está cheia de preconceitos velados, de preconceitos declarados. E não me refiro a Educação Básica. A Educação Básica ainda é o lugar que encontramos maior propagação do exercício da escuta, da colaboração, da humanidade, do respeito ao indivíduo. Refiro-me, em especial, ao Ensino Superior. 

Como aluna de graduação, escutei inúmeras vezes que, por sermos filhos da educação básica pública, por sermos brasileiros, jamais conseguiríamos ler devidamente literatura clássica, por exemplo;  que isso não era material acessível as nossas condições inferiores, porque brasileiro que se prese não lê, não sabe ler. E isso é apenas uma amostra das inúmeras barbaridades que já vivenciei como professora em formação. 

E é por isso que defendo uma educação firmada no amor, no amor difundido por Paulo Freire e por Humberto Maturana - o amor como a própria educação, como  a aceitação do outro como verdadeiro outro na relação. Nós precisamos urgentemente nos humanizar, humanizar nossas salas de aula. Só assim pessoas como este professor da Universidade Federal do Espírito Santo abandonarão o racismo e passarão a ver as pessoas a partir de uma outra ótica, que não a da cultura de dominação, patriarcal e ainda tão presente no nosso país.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um país carente de humanidade, de respeito.

Estão querendo separar o Brasil. Sim, estão querendo. Estão querendo separar por pura falta de entendimento, por discordância, por sotaque, por jeito de viver e de pensar. Estão querendo separar por falta de conhecimento, de respeito a cultura do outro, ao outro. 

Quando a miss Ceará ganhou o miss Brasil foi um deus nos acuda. As redes sociais foram invadidas por um sentimento de ódio. Diziam que a moça não merecia ter ganho porque além de baixinha tinha um sotaque desagradável. Desde quando sotaque é desagradável? Sotaque é sotaque, gente! A forma de falar da gente carrega o que somos, carrega a nossa cultura, a nossa riqueza de povo. Desagradável é ter preconceito.

Mas não parou por aí. Após as eleições presidenciais, as redes sociais foram invadidas novamente por comentários xenofóbicos. Queriam separar o norte e nordeste do restante do país. Tudo isso por conta de votos. Há até quem tenha compartilhado imagens do Brasil dividido por um muro, sem dar-se conta de que para crescermos como nação precisamos justamente abolir estas linhas divisórias, independente de políticos, de partidos, de gestores públicos. Vi, nestes últimos dias, uma inversão do que Boaventura de Souza Santos chama de Epistemologia do Norte, Epistemologias do Sul.  

Vi um país carente de humanidade, de respeito. É isto que precisamos urgentemente mudar na nossa nação. Para crescermos, precisamos ser mais humanos. Precisamos olhar o outro como parte do que somos, como fundamental para nossa constituição identitária. Nós somos o Brasil e o Brasil somos todos nós. 




sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Un pajarito me contó que también estamos hechos de historias"*

Cada história "es una baldosita en mosaico del tiempo", escreveu Eduardo Galeano tempos atrás. E nós somos feitos destas memórias, somos cada pedaço deste ladrilhozinho costurado ao fluir das horas. A nossa identidade nada mais é do que este vivido, do que este experienciar do tempo, este acumular narrativas, de passado. Eu sou o que vivi em meio aos caminhos e descaminhos do meu caminhar.

Lembro-me  das pescarias à margem do Toropi. Eu era menina de subir em árvores e correr carreira com os piás da volta de casa. Era menina de buscar milho em lavouras e limões na beira da estrada. Era menina e tinha ouvidos ansiosos de escuta. "En la orilla del río", o mundo passou em palavras. Descortinou-se para mim nos versos iluminados do meu pai, que me ensinou a ver o mundo com olhos de esperança e amorosidade, encharcados de poesia, entre caniços e lambaris.

Narrativas. Pedaços do tempo que não se apagam de mim. Meu pai imprimiu nos meus ouvidos a sua presença eterna. Não sou sem ele. Ele não é sem mim. Nos descobrimos neste fluir do tempo, preenchendo nossas memórias passadas e nosso tecido imaginário de futuros. Nos perpetuamos. Nós somos e seremos sempre feitos de palavras, porque, como escreveu Galeano, "somos hijos de los días, hijos del tiempo, y cada día tiene una historia que contar. Porque estamos hechos de átomos, según los científicos, pero un pajarito me contó que también estamos hechos de historias".





*Eduardo Galeano

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

De políticas e de amor

O homem é um bicho estranho mesmo. Volta e meia recheia a sua vida de expectativas, sonha e sonha com visões românticas extremas, espera ansiosamente para que seus desejos sejam atendidos na medida (exata) em que foram gerados e acaba sempre frustrado. É uma obsessão meio bovarista!

Isto! Bovarista! Como Emma Bovary que casou-se com Charles Bovary e após algum tempo passou a desejar outro amor. No adultério imaginou encontrar a liberdade e a felicidade sempre desejada. Ledo engano! A satisfação pessoal nunca foi um atributo da personagem de Flaubert. Assim como não é o estado de espírito de grande parte das pessoas com as quais tenho cruzado nos últimos dias. 

Na política ou no amor, as pessoas perderam o foco e a memória. Reclama-se do governo atual como se reclamava do anterior e do anterior do anterior e como, certamente, se reclamará do que está por vir. Reclama-se por um estado permanente de insatisfação da alma. Reclama-se, mas se olvida que escolha é um direito exercido por nós. E, insatisfeitos com nossas próprias escolhas, delegamos a responsabilidade de nossas decisões aos outros: eu não elegi o fulano, não votei do sicrano... 

No amor ou na política, as pessoas perderam o foco e a memória. Busca-se no outro a possibilidade da realização total, plena. Busca-se em vão, assim como fez Emma Bovary! Depositar a responsabilidade de nossas escolhas em outras pessoas, esperando destas uma correspondência total aos nossos desejos - é humanamente impossível, visto que ninguém carrega uma bolinha de cristal anexada aos seus arquivos pessoais. É uma obsessão bovarista!

É preciso, urgentemente, tomar consciência de que nossas escolhas - sejam elas quais forem - são nossa responsabilidade. Escolher viver da ideia platônica do amor no mundo das ideias é escolher frustrar-se constantemente. Escolher votos de protesto, votos que são a decisão  de uma insatisfação não fundamentada - é escolher frustrar-se ininterruptamente. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Precisa-se urgentemente de (e)leitores qualificados

Tenho observado já há algum tempo algumas pessoas dedicando-se a fazer voto de protesto. Querem, com seu voto, eleger algum "político" que sirva como uma bandeira contra as barbaridades que vem acontecendo no nosso país. Será isso protesto mesmo? Tenho as minhas dúvidas.  

Recentemente, a CNN dos Estados Unidos da América fez uma reportagem no Brasil sobre as propagandas políticas veiculadas na última campanha. Esta reportagem foi ao ar na última quinta-feira, dia do último debate dos candidatos a presidência do país. Na reportagem mencionada, a repórter Shasta Darlington apresentou as propagandas do Tiririca, do Palhaço Mortadela, Obamas, Bin Ladens, Super-heróis e até Jesus na luta pelo voto do brasileiro. Foi triste ver o tom de deboche na reportagem, visão de fora que nos vê como pessoas pouco preparadas para disputar e para discutir sobre a política nacional. Viramos piada.

Piada esta propagada ao analisarem os discursos dos últimos debates - tanto em nível federal como em estadual. Se há por um lado gente preparada para "mudar" o cenário que vivemos (mudança esta que acredito ser lenta, bem lenta), por outro há gente extremamente despreparada para estar na disputa por um cargo. Despreparada politica e humanamente.

Mas o despreparo não está apenas do lado de lá, no lado dos candidatos. Nós (e)leitores precisamos mudar também. Precisamos urgentemente nos qualificar. É com consciência e com escolhas firmadas no conhecimento das propostas e da vida pública dos candidatos que colaboraremos para as mudanças que buscamos. Protestar é votar consciente! 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

POEMA ANTROPOFÁGICO

O poema me engole
mastiga minhas entranhas
de mim, leva
o vento para 
o contraponto do verso.

Mais forte
o poema move a tinta
no branco do papel.

Se inscreve, me escreve, me revela
come minhas mazelas
e vai para o rodapé ruminar incertezas.



Antropofagias, parangolés e educação

Contam por aí que Oswald de Andrade não tinha pensando em uma teoria dos trópicos quando escreveu o Manifesto Pau-Brasil. Foi com Tarsila do Amaral que a Antropofagia veio à tona como proposta de Oswald, a fim de repensar a nossa escrita, o nosso fazer literário, buscando uma língua e uma literatura não-catequizada, definitivamente nossa. 

À sua época, com os mesmos ideais de Oswald - na busca por pensar e repensar algo a partir de nossas proposições, para nosso contexto, sem modelos pré-estabelecidos, Hélio Oiticica - pintor, escultor, artista plástico e performático  - criou o Parangolé. Uma arte feita no corpo, com o corpo - onde há uma incorporação da obra com o autor, onde todos podem colaborar, saindo da cadeira de espectador, agitando-se como partícipe da criação. O Parangolé é a arte da liberdade de criação - no não estabelecido - da múltiplas possibilidades, do exercício da participação.

Na educação, precisamos nos apropriar deste "Parangolé Pedagógico". É preciso proporcionar espaços onde os alunos sejam artistas de suas práticas, onde possam tomar decisões a partir de reflexões claras e coerentes realizadas no espaço da convivência. É preciso proporcionar espaços de buscas, de desapego aos modelos, de pensar o local, o nosso universo na prática pedagógica. É preciso que nós, professores, também nos tornemos artistas, autores de nossas ações. É tempo de nos apropriarmos de nossa arte, de propormos reflexões antropofágicas a partir de todas nossas leituras, de todas nossas práticas, retirando o melhor de nossas reflexões, de nossas relações, nos tornando mais fortes frente aos desafios de caminhar em mapas ainda não definidos. Para a nossa Educação, nossos sonhos.
http://modovestir.blogspot.com.br/2008/08/parangols-de-oiticica-clique-aqui.html#.VCS4IWddV8E 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Em tempo de Semana Farroupilha

A relação que cultivo com a poesia é de berço. Alguns dirão, genética, porque sempre algum "Fernandes da Silva" carrega um verso e uma prosa dentro de si - isso é assim desde o Vô Pedro e da Vó Noemia. E assim foi. Em mim, o verso veio cedo. 

Comecei a declamar poesia antes mesmo de ser alfabetizada. Para decorar um poema, minha mãe tinha que decorá-lo também. Lia verso por verso para que eu aprendesse, para que eu compreendesse bem e desse veracidade para a interpretação. Aos quatro anos eu já participava de concursos de declamação pelos CTGs de Santa Maria.

Meu pai, sempre preocupado com minha formação humana, a cada apresentação que eu realizava, me explicava veementemente antes de entrar no palco: "o importante, minha filha, não é ganhar, mas participar". E eu participava com o melhor de mim.  

Em meio aos festejos da Semana Farroupilha, lembro-me disso, lembro-me da minha família, das minhas memórias mais sagradas. Participando dos Centros de Tradição à época aprendíamos coisas significativas para nossa trajetória de vida. Aprendíamos a respeitar a nós mesmos e a respeitar aos outros como verdadeiros outros na relação. Que os festejos de nosso tempo presente sejam de reflexão e de respeito mútuo, para jamais perdermos a poesia que nos aproxima, a musicalidade que nos embala.

 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Já é tempo de evoluir para além do apego histórico

Como muitas famílias do Rio Grande do Sul, a minha participou por muito tempo de invernadas e patronagens dos Centros de Tradições Gaúchas. Meu pai foi patrão de CTG, minha irmã prenda juvenil, adulta, regional. No CTG, aprendi a declamar e a participar de eventos culturais. Li muito sobre a história e a cultura do estado, sobre os feitos que nos formaram enquanto tipo social sulino, porque para o pai, importante mesmo era saber o porquê se estava ali, o porquê se usava aquela indumentária e por aí vai. Na nossa casa, niilismo dos pampas nunca ganhou espaço. Ou sabia o que era ser gaúcho ou não participava da entidade. 

Para além da entidade, na minha casa, assim como em muitas casas do Rio Grande do Sul, o respeito sempre esteve em primeiro lugar. Respeito ao próximo, às preferências (a todas!), ao indivíduo. Não nasci em um lar que não me orientasse para o bem e para o respeito ao direito primeiro - o direito humano. 

O evento ocorrido recentemente em Santana do Livramento é triste. Incendiar um CTG por conta do espaço realizar um casamento coletivo em que abarca todas as realidades da nossa sociedade é lamentável. E logo em 11 de setembro, dia que marca historicamente a luta de nosso estado por "liberdade, igualdade e fraternidade". Em 11 de setembro, com estes ideais, Souza Neto proclamou a República Rio-grandense. Ideais estes que deveriam ser prática na casa de muitos  não só no nosso estado, mas para além das nossas fronteiras. 

Escutei, esta semana, que o Rio Grande do Sul, por conta dos últimos acontecimentos - o incêndio no CTG e o insulto da torcida do Grêmio ao goleiro Aranha, do Santos - está sendo conhecido como um estado racista e homofóbico. Propaganda negativa que só se reverte com educação. Mas não uma educação formal, de responsabilidade da escola. Uma educação na e para a família. Uma educação para o respeito, sobretudo uma educação humana. 

Eu respeito muito a cultura do estado. Mas já é tempo de evoluir para além do apego histórico. É tempo de ser grande na forma de se relacionar com o mundo. Só assim "nossas façanhas servirão de modelo a toda terra".

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

(Continente)

(Continente)

Angelise Fagundes

me tornei refém dos teus beijos
onda inquieta no teu corpo continente

 - poeta insone - 

em noites de não ser me encontro em ti
eu, aos pedaços,
recomponho-me em nossa cama
aconchego de abraçar carências

na noite-estrela - sou guia
guiada por ti
no teu peito-leme
horizonte inflamado
acariciado pelo castanho dos olhos meus
esverdeados pelos teus

me tornei refém dos teus beijos-conscientes
concentrados em nós
na volúpia de abraços quentes
aconchego cálido das minhas descobertas

me tornei refém dos teus mistérios...

com os pés no chão me tornei refém dos meus desejos
sucumbidos aos teus beijos
recanto de minh'alma atroz.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Declaração

Para o Marcus, porque somos feitos de poesia


Deita tua pele
sobre a minha
delineia a tua poesia
vem ser estrofe
rima rica com a minha.


Debruça tua boca
sobre a minha
meu ombro clama
pela tua companhia.

Acalma tuas ânsias
junto as minhas
faz da noite
o nosso dia.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Se foi o poema

Angelise Fagundes


Se foi o poema
na folha perdida
levado ao vento

Se fez norte o poema
ventania...
rasgou as páginas
e suas sinestesias

andou pelas ruas
entre as pernas das gentes
entre as saias
...se foi o poema

na esquina assoviou um verso
e partiu
ladeira acima
num descompasso 
se despediu

já era outro
outro poema
metade de ti
quase nada meu



"Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade!" Rubem Alves

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

De rivalidades esportivas e Educação

Para o colega  Luis Antonio Hass, que me ajudou a pensar neste texto


Humberto Maturana em suas obras, em especial na obra "Emoções e linguagem na educação e na política"*, alerta que "a competição não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro". Para o autor, as emoções envolvidas nas disputas esportivas não apontam para algo bom, porque a vitória de um time surge da derrota de outro. No último Grenal (que mais uma vez foi de alegria para o Internacional) pude observar duas condutas muitíssimo interessantes neste sentido e que podemos relacionar com os processos educativos.

Em pleno dia dos pais um gremista de quinze anos foi espancado por um grupo de colorados. O rapaz teve traumatismo craniano. Uma tristeza imensa! Dentro de campo, por outro lado, caminhamos um pouco mais em termos humanos no campo da rivalidade. Felipão foi recebido com muito carinho pelo grupo do Internacional. D'Alessandro, Alex e demais jogadores foram abraçar carinhosamente o técnico da equipe contrária que chegava, depois de uma Copa frustrada, novamente no Rio Grande do Sul.

Em meio a isso, em meio as leituras e as vivências futebolísticas, fiquei me perguntando sobre as possibilidades de educarmos para a aceitação do outro, para o respeito de si mesmo e do outro, para o compartilhamento - de ideias, materiais, conhecimentos (seria preciso uma revolução, criarmos outro tipo totalmente diferente de escola). Como me explicou o colega Luis Antonio Hass, da UFFS, o Grenal - maior clássico do Brasil - divide o estado em duas torcidas. Na cultura, como somar diante da divisão? 

Para além destas "matemáticas", vale colocar que tanto no campo da educação como no campo futebolístico, estimular a competição é correr o risco da não aceitação do outro, da sua negação como legítimo outro na relação. Para Maturana, se a educação estimula a competição e a negação de si mesmo e do outro que a competição traz consigo, a educação não serve. Quem sabe uma torcida única servisse para tornar os nossos jogos momentos felizes de compartilhamento, de alegrias... Precisamos aprender muito na convivência... precisamos caminhar muito em termos de Educação... 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

"Impossível viver sem sonhos".

Tenho um caso de amor com as leituras de Paulo Freire. Ele "coloca palavras nos meus sentimentos", como escreveu Rubem Alves a respeito dos seus autores preferidos. Com Freire, um de meus autores preferidos, a leitura flui, prazerosamente.

Hoje foi a vez de descobrir o livro "Pedagogia dos Sonhos Possíveis". Livro este organizado em 2001 (reeditado em 2014), por sua esposa Ana Maria Araújo Freire, a Nita, educadora e também divulgadora da obra de Freire. Neste livro cheio de material inédito do educador brasileiro me deparei com o a possibilidade do sonho. Freire declara na página 49 desta coletânea: "Impossível viver sem sonhos". Para ele  - e para mim também -  é impossível existir sem sonhos.

Assim como Freire, eu sonho com uma Educação que seja capaz de ampliar os saberes dos alunos, ampliar o seu campo de visão, que os torne mais sabedores do mundo e das coisas. Sonho som isso porque vejo a educação como algo que consegue dar às pessoas maior clareza maior para "lerem o mundo". Para Freire, esta abertura no campo de visão  - este "ler o mundo" - permite aos cidadãos tomar consciência de suas responsabilidades, intervindo, assim, na realidade em que vivem, transformando-a. 

Eu sonho com uma escola consciente de suas possibilidades, com uma escola intervindo na sua realidade, transformando-a cada vez mais. Para muitos, é uma utopia um cambio série e efetivo na situação educacional que vivemos.  Para mim,   uma realidade possível de ser conquistada com o trabalho efetivo (e afetivo) da comunidade escolar - que não é só o professor, mas os pais, os funcionários, os motoristas do transporte escolar, a comunidade que vive no entorno da escola, os prefeitos, os secretários de educação,  os professores universitários, etc. Afinal, se é impossível existir sem sonhos, que comecemos a viver agora, começando por decodificar o nosso possível.

Imagem retirada do site http://liliacamposmartins.blogspot.com.br/2012/03/mais-um-pensamento-de-paulo-freire.html

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

De leituras e processos antropofágicos

A leitura de Rubem Alves é sempre leve e prazerosa. Cada palavra tem um sabor, um som que envolve os sentidos do leitor, fazendo com que queiramos ir mais uma página e outra e outra mais. Consumimos o livro, inexplicavelmente... em pouco tempo!

Esta semana, após a morte do educador brasileiro, marquei novo encontro com seus temas educacionais. Em "Ostra feliz não faz pérola" (Editora Planeta, 2008), deparei-me com um texto que preencheu os sentidos de outros textos: "Antropofagia" (p. 124). Uma multiplicidades de vozes dentro de mim significaram cada linha, à moda Roland Barthes, à moda Oswald de Andrade, à moda Valdo Barcelos. 

Rubem Alves menciona: "escrevo antropofagicamente: quero que me devorem. Eu leio antropofagicamente: quero devorar aquele que escreveu". Para o autor, leitura, literatura é antropofagia

Na educação, o processo caminha por esta estrada também. É o que o professor Valdo Barcelos denomina de "antropofagia pedagógica". Nesta, buscamos os elementos, os ingredientes, os temperos necessários ao nosso fazer docente. Assim como Oswald de Andrade, que defendia um "tupy or not tupy that is the question", Valdo Barcelos orienta que não precisamos ir além das nossas fronteiras, de nossos trópicos, para buscarmos um rumo para a nossa Educação. Ele defende a ideia de que já é tempo de termos "coragem intelectual de começar a pensar por nossa própria conta e risco". É preciso que nos apropriemos de nossos intelectuais, destes que vivem e pensam esta terra Pindorama

Afinal, se "antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade"*, é preciso que a encontremos novamente, a fim de construirmos outro panorama educacional para este país. Que a leitura de Rubem Alves e Valdo Barcelos nos consuma...


*trecho do Movimento Antropofágico, de Oswald de Andrade, disponível em http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf


sexta-feira, 25 de julho de 2014

De perdas literárias

As palavras silenciaram neste mês de julho.... silenciaram as memórias, os passos pela casa. As bibliotecas esvaziaram-se na ausência dos poemas vívidos que habitavam as estantes. Agora, só seres de papel e arte preenchendo os espaços entre os livros e os leitores. 

Já não há mais a possibilidade do abraço, só o ficcional, para sempre o ficcional. Já não há como esperar o próximo lançamento - só o póstumo, com fragmentos do não dito mas sempre em tempo de encontrar os olhos, os ouvidos e o coração de um leitor à espreita, na expectativa de mais um instante de felicidade. 

Eu me entristeço com a morte. Nunca fui sua amiga. Ela roubou muito cedo uma de minhas maiores alegrias e eu nunca a perdoei por isso. Neste julho, ela levou três alegrias das artes brasileiras. Fecharam-se três grandes bibliotecas na nossa terra. Foram-se os autores de prosa e verso - já não há mais estrada para Suassuna, Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. O caminho apagou-se um a um nestas últimas semanas. 

É certo, no entanto, que outros passos - seguidores destes mestres das letras -  continuarão recriando suas estradas. É certo, também, que nenhum deles saberá recriar tão bem e com tanta propriedade os universos de papel que estes escritores proporcionaram a todos nós. 

Que a leitura continue nos unindo!

"Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher e se chama Caetana. E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda."
 (Ariano Suassuna) 

"Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado: fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo."
(Ariano Suassuna - No poema "Lápide"). 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O ato de educar é uma semeadura*


Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores
(Alberto Caeiro)


Nas minhas leiturinhas, aprendi que "o ato de educar é uma semeadura*". No entanto, para que isto aconteça de forma produtiva, precisamos aprender a cultivar, primeiramente, a nossa terra interior. Precisamos aprender a ver. Precisamos educar os nossos sentidos.

Aprendi muito nestas minhas leiturinhas, textos (ainda) pouco lidos nos espaços acadêmicos em geral, mas de grande ensinamento sobre a prática escolar, sobre a vida, sobre a educação como um todo. Rubem Alves me mostrou que "o ato de ver não é coisa natural, precisa ser aprendido"* e que ensinar a ver é uma das primeiras tarefas da educação, seja na etapa de ensino que for. 

O educador Rubem Alves me mostrou também que "há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem"*; me mostrou que "há professores, pais, mães, instrutores que têm extraordinária capacidade de criar impotência de inteligência"*; que "há alguns que exibem seu conhecimento, seus saberes para humilhar os que ainda não sabem"*. Triste realidade esta que ainda vivemos em educação... Esta educação que deveria estimular o voo, o sonho, a alegria  - acaba por aprisionar toda a capacidade do homem. 

Lembrei-me destas leiturinhas que me ensinaram tanto por dois motivos esta semana. Rubem Alves, nosso grande educador brasileiro, está hospitalizado, talvez despedindo-se de todas as suas lembranças; certamente abrindo as janelas da alma para que todas as suas palavras ganhem vida em outros corpos. No meu, certamente estas palavras andam metamorfoseando as minhas linguagens - transformando palavras, sonhos em carne. O outro motivo - por demais especial - foi escutar de uma aluna que eu olho com carinho para os meus alunos e que este olhar permite abrir as portas da compreensão, deixa-os seguros. 

Acho que Rubem Alves me educou o olhar a ponto de me permitir ver em cada aluno um projeto de vida, sonhos, memórias, vivências, conhecimentos... me permitiu sonhar com a possibilidade de auxiliar o voo seguro... e esta é minha maior realização - a de ser gente, demasiadamente humana, nas minhas relações, na educação. Afinal, se "o ato de educar é uma semeadura"... eu quero semear o amor.


*ALVES, Rubem. Educação dos sentidos e mais...9ª ed. Campinas, São Paulo: Verus Editora, 2012.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

"Perder, ganhar, viver"

Quando o Brasil perdeu a tão sonhada copa de 1982, para a Itália, eu ainda não era nascida. Mas muito escutei falar da seleção maravilhosa que tinha tudo para ganhar o campeonato daquele ano. Era uma seleção admirável pelo que contam.

Carlos Drummond de Andrade, que acompanhou esta copa, após a perda do Campeonato de oitenta e dois, escreveu o texto "Perder, ganhar, viver". Neste texto, verseja o poeta sobre a arte da superação. Texto este muito apropriado para o que o povo brasileiro viveu esta semana, em casa, com a saída da Seleção Canarinho da disputa pelo primeiro lugar. Foram sete gols tomados. Uma goleada de lavar a alma alemã. Uma torcida tão sofrida e tão merecedora de alegrias como a nossa. 

Acontece que nós fomos programados para a vitória, para a disputa, não para aceitarmos a derrota. A derrota, no nosso imaginário, é sempre negativa, porque nós fomos "educados" para a competição. 

Na escola aprendemos a competir e competimos, em geral, vida a fora. Não aprendemos a trabalhar colaborativamente, a ganhar e a perder em equipe. Na escola, há notas altas, notas baixas, há aprovação e reprovação. Aquele que não acompanha, cai fora do campeonato. É burro!

Prova desta nossa educação para a disputa está nas vaias à Seleção. Nós, torcedores, perdemos junto com a nossa seleção. A Seleção que nos fez alegres tantas copas... que nos fará alegres tantas outras que virão. É preciso compreender que do outro lado do campo há méritos também.  É preciso compreender, ainda, que "não estamos de mãos vazias porque não ficamos com a taça do primeiro lugar. Ficamos com alguma coisa boa e palpável, conquista de espírito", como escreveu Drummond.  Afinal, para o poeta de Itabira  "a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida". Que nas Copas e na vida - dentro e fora de campo - possamos renovar as nossas esperanças e a nossa forma de estar e fazer o mundo.


O texto de Drummond referido na crônica pode ser encontrado no sitio:  http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=338

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Das contrapartidas no campo da Educação

Lembro-me do primeiro dia que fui para a escola. Tão grande aquele Colégio Padre Nóbrega que eu (já) imagina a dificuldade que seria subir aquelas escadarias até a sala de aula onde eu aprenderia a ver o mundo. Lembro-me da conversa franca dos meus pais, mostrando-me que  aquelas escadas eram o caminho mais fácil para "ser alguém na vida" quando se é desprovida de bens materiais. 

Na escola, o professor era sagrado. A professora Magda Elisabete Porto até hoje é uma deusa das descobertas alfabéticas para mim. Ela e sua amorosidade abriram as janelas dos meus olhos para o universo das letras. Com ela, escrevi e reconheci o meu nome. Com ela, aprendi que ensinar e aprender são verbos que caminham juntos, entrelaçados pelo amor que se dá no respeito ao outro, a si e a profissão. Com ela, eu quis ser boa aluna... com ela eu quis ser professora!

Neste universo entre a minha casa, a minha escola e o mundo, aprendi que estudar em uma escola pública requeria um pagamento, sim. Eu paguei cada centavo investido em minha educação. E não me refiro aos impostos, não! A minha contrapartida, o meu pagamento ao governo, foi aproveitar cada palavra, cada experiência, cada expectativa depositava nos meus estudos. Eu estudei para valer! Orgulho-me de nunca ter tido uma reprovação... orgulho-me de ser cria da escola pública, que com tantas dificuldades, me mostrou os melhores caminhos da vida. 

Advinda dessa escola (do Padre Nóbrega e do Cel. Pillar), aprovei duas vezes no vestibular da universidade federal. Na universidade pública, me formei em dois cursos de graduação, fiz mestrado e agora ingresso no doutorado em Educação. A minha contrapartida tem sido paga a cada novo investimento... 

Eu me orgulho de ser a primeira pessoa da minha família a fazer um doutorado, porque sei o quanto foi duro para meus pais, para meus irmãos, sobretudo para meus professores fazer com que eu chegasse até aqui. Eu sabia das dificuldades... o que eu não sabia e que fui descobrindo com o tempo é que para "ser alguém na vida" eu precisava adquirir bens imateriais, bens que o dinheiro não pode comprar, bens que mesmo não herdados são a maior herança que uma família pode deixar. Afinal, como sempre disseram meus pais, "o conhecimento é a única coisa que ninguém nunca nos tirará".

sexta-feira, 27 de junho de 2014

De poesia e hereditariedade

A poesia sempre fez parte da minha vida.  No meu gene a poesia é a estrutura fundamental. E eu tenho como explicar esta hereditariedade: meu avô, minha avó, meus tios e meu pai eram poetas. 

Os Fernandes da Silva sempre se apresentaram ao mundo através de sua verve poética. O vô Pedro - que eu não conheci - trovava na Rádio Municipal São Pedrense, em São Pedro do Sul. Era conhecido na região - da cidade ao interior. Passou a trova adiante, pelo conviver das rimas. Meu tio Renato embalado pela sua gaita, trovava para toda a vila Gaúcha. O Tio Antonio segue rimando o seu sorriso, fazedor de alegrias. 

A vó Noemia iniciou os meus irmãos na arte da contação. Eu não lembro dela, morreu quando eu tinha apenas três anos. Porém, através de meus irmãos, reconstruí sua história de narradora. Era ela que despertava a imaginação deles nas noites em que posava na casa da gente... levando-os a viagens inesquecíveis pelo mundo do faz de conta.

O velho Aroldo, meu pai, versejava todos os dias na sua forma de viver a vida. Era iluminado. Iluminava. Antes mesmo de ler e escrever eu já recitava poesia pelas peças da minha casa, nas rodas de família, inspirada por ele, que escrevia comigo no colo e me mostrada o caminho do descobrir-se, do revelar-se em versos. 

Quando o pai morreu, foi a herança que me deixou: um pacote de lembranças, um violão e uma pasta com suas poesias. O violão silenciou-se. Eu nunca consegui aprender a conversar com ele. As lembranças me embalam todos os dias - estão presentes neste exato momento em que escrevo este texto - é o recheio dele. A pasta de poesias é um relicário guardado a sete chaves. 

Nesta pasta parda rabiscada com letra de pai estão as correspondências trocadas entre poetas, cartas que meu pai trocada com os seus pais enquanto morou em Cruz Alta e Porto Alegre, por conta de seu trabalho junto a Brigada Militar. É lindo ver, tantos anos depois, como a poesia unia a família. Era a língua compartilhada, o idioma familiar. 

Com a partida dos poetas, a poesia fragmentou-se. Hoje já não há um poema rimado que una as estrofes. Não há um verso no último terceto de nosso soneto familiar, todo chave-de-ouro. Mas há amor perpetuado em memórias... 


Velho Aroldo, com seu violão