quinta-feira, 3 de setembro de 2015

De memórias e homenagens: primeira parte.

Para Claridiane, Francieli, Adriane, 
Carine, Julia, Adriana, Denise, Geanine, Mairon e Fabi.

Lembro ainda hoje da homenagem que fizemos para a professora Magda Porto no final da primeira série do ensino fundamental, lá no Colégio Padre Nóbrega. Toda a turma se reuniu para comprar uma caixinha de música e um buquê de rosas para a "profe". Ela, emocionada, não sabia o que falar aos pais e alunos presentes naquela turma 11. E nem precisava. A presença dela em nossas vidas já era um agradecimento. 

Acho que foi com a professora Magda que decidi ser professora. Ela me apresentou o mundo, abriu os meus olhos para letrinhas e números de toda ordem. Com ela escrevi o meu nome, o meu sobrenome e me achei a pessoa mais importante do mundo. Mas não foi simples assim, coisa de técnica. Ela entrava na sala de aula como quem entrava para um encontro único e inesquecível. Ela tinha brilho nos olhos e muito amor no coração. Para ela, existíamos. Para ela, todos eram importantes. Para ela, eramos irrepetíveis. 

Quando eu me formei professora, a prof. Magda estava entre os primeiros nomes de minha lista. Ela não poderia faltar. Era preciso que tivesse reconhecido, ao menos de minha parte, todo o emprenho dedicado as minhas primeiras letras. Com ela, para além das palavras, aprendi que há dispositivos em nossa formação que vem do coração. E este vibra em outra sintonia quando encontramos território preparado para as semeaduras. 

Hoje, convidada para ser a Patrona da 2ª turma de Letras da UFFS Cerro Largo, passou um filme pela minha cabeça. Eu me vi sem palavras, imersa em uma emoção indescritível. É como se eu voltasse a meninice, naquela turma 11, e, ao mesmo tempo, me percebesse definitivamente professora. Foi nos olhos dos meus alunos que eu me encontrei... estes formandos maravilhosos que formam esta turma da 10ª fase.  

Em cada um dos meus alunos, uma história, muitos sonhos, muitas expectativas.... No meu coração, o desejo de que encontrem pelo caminho alunos tão especiais como eles, capazes de proporcionar a um professor a possibilidade do crescimento, da aprendizagem, da troca, da amizade, da amorosidade. Vejo em cada deles um pouco da minha Prof. Magda - com o coração gigantesco, cheio de amor e de respeito pelos projetos de vida que chegavam em sua sala de aula. Com eles sou definitivamente feliz! 

Valeu a pena... Valeu!



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 27: sobre o "Sul", de Marenco e Sérgio Carvalho Pereira

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião sobre o projeto poético-musical "Sul", idealizado por Luiz Marenco e Sérgio Carvalho Pereira. Inolvidable, eu diria - para empezar minha incursão por território desconhecido. Eu que sou de poesia (no nível da palavra, apenas) nunca tinha presenciado tamanha riqueza pelos palcos do Rio Grande. É claro que ainda encontramos qualidade em verso e voz pelo cenário da música regional, mas o "Sul" vai além. É um passo más allá. Ao contemplar o espetáculo, pude ver o "Sul" como um projeto que apresenta a nossa cultura através da campanha. Diferente de "Estética do Frio", do Vitor Ramil, por exemplo, que vai caminhando pela cidade em direção aos abraços interculturais que damos. Com Ramil, nós nos apresentamos nosotros, meio irmão, medio hermano. O "Sul" de Marenco e Sérgio Carvalho inunda a campanha, revela-se nela - campo, coxilha, vento, banhado e silêncio. Com eles, somos o gaúcho representado na calmaria da milonga, em cada acorde, em cada galpão de estância. O "Sul" faz as pazes com o gaúcho que já não vemos, que já não somos para além das porteiras do Rio Grande.

No palco do show, instrumentistas de tirar o chapéu. Gaita, violão e baixo acústico fizeram o elo entre a voz do artista e a palavra do poeta. No palco, o poeta Sérgio Carvalho apresentou-se ao público, coisa rara na música do Brasil, onde o artista da pena nunca ganha a notoriedade que merece a sua autoria. Impressionou-me o "Sul" nisto também. Foi a primeira vez no cenário gaúcho que vi o poeta ter reconhecimento pela sua verve. Fiquei emocionada.... 

Eu não sou crítica musical, mas vou arriscar aqui a dar minha humilde opinião,  minha humilde impressão a partir dos acordes e poesia de Marenco e Sérgio Carvalho: a dificuldade do nosso sul ser reconhecido pelos outros pagos deste Brasil não é apenas uma questão linguística! É preciso ser campo e ruminanças para inclinar-se para este processo intercultural. O corpo do resto do Brasil não está preparado para o "Sul" e suas invernias... o seu silêncio... a sua melodia. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 26: sobre os últimos acontecimentos e a educação

Da janela dos prédios e das casas de minha cidade natal o povo grita por melhorias. Que melhore as possibilidades de crédito para adquirir bens e produtos, gritam por juros mais baixos, gritam pela queda da presidente que a maioria elegeu, gritam pela extinção do Partido dos Trabalhadores, gritam pela Ditadura...gritam, gritam e desfilam faixas de toda ordem em um protesto legitimado pela democracia que vivemos.

Da janela e das ruas de minha cidade natal o povo estende-se Brasil afora em um coro de pedidos. Já se pediu para que não lêssemos mais Paulo Freire, já se pediu pela volta dos militares (há ainda quem peça), agora declararam que todos deveriam ter sido mortos em 1964. Definitivamente, é o fim!

Da janela da minha casa eu peço que a educação retorne a escola urgentemente! Que o povo volte a acreditar na educação e que os professores saiam de seu movimento de protesto diário e abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que esquerda e direita em política é mais que uma relação espacial, geográfica; que abram os olhos destes meninos que estão por aí sem saber que a palavra inglesa impeachment se escreve "impeachment" mesmo, que "foje" é com "g"... e por aí vai! Da janela da minha casa eu peço que o povo grite por educação de qualidade, porque com uma educação de qualidade não veremos tantas barbaridades escritas protestos afora, num verdadeiro assassinato em série da nossa língua portuguesa, da história do nosso país. 

Da janela da minha casa, eu rezo para que meus colegas professores não abandonem a causa e não deixem de lado estes inúmeros projetos de vida que diariamente chegam as nossas escolas. Nós ainda podemos mudar muita coisa neste país, a começar pelas nossas salas de aula! Da janela da minha casa, eu rezo por um governo que olhe a educação como investimento real no povo (e que o povo perceba isto!) e que olhe para seu funcionalismo como quem olha para a sua equipe de trabalho. Eu rezo para que a folha de pagamento de meus colegas venha em dia em todos os sentidos... e que venha recheada de reconhecimento e de esperança...
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Fonte imagens: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/imagens-marcantes-protestos-de-domingo.html 



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O poeta


                   Ao poeta Joaquim Moncks, que me inspirou a                                                                     versejar nesta semana de verão, em pleno agosto.

O poeta é 
aquele que se permite
sonhar entre 
a palavra 
e o branco oscuro do papel

O poeta, ah o poeta...

caminha no fio do verso
despindo 
                no
                     correr 
                               da lâmina 
                                                as suas faces mais secretas

O poeta é o que sou 
poesia sou eu 
transformada em palavra.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

De vento e poesia

O vento norte é mestre-sala
pelas ruelas da cidade
carente de bailarina
faz desfile, cria alegoria
apresenta-se comissão de frente
despe-se de saias, revela-se em assovios

O vento vai a frente
varre a rua e suas pegadas
sacode a poeira dos transeuntes

Enredado de memórias,
o vento rodopia o cabelo
da menina que passa

Já sem tempo
carente das demoras
o vento desaba em choro
a espera da amada. 



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 25: de mim e da fronteira

Sempre gostei da fronteira, da ideia de fronteira imposta pelo Estado, ideia esta (quase sempre) impraticável nos espaços fimbrios do extremo sul do Brasil. Eu sempre movi meu olhares para a fronteira, para esta linha que nos aparta do que somos para nos encontrarmos no que não somos. Sempre estive entre o lá e o cá - costurando o espaço desta terra que para os meus olhos é "uma terra só*". 

Na infância, eu buscava no rádio de pilha sintonizar o meu tempo com o tempo dos meus antepassados. Sorvi canções e programações em espanhol, rocei meu léxico na língua do outro. Me "interculturei"! 

No Mestrado, sedenta por borrar linhas divisórias, encontrei a obra de Aldyr Garcia Schlee. Fronteiriço de Jaguarão (RS), vi na literatura criada pelo autor palavras para minhas percepções. O narrador de Schlee  (e o próprio autor em seus depoimentos) observa a fronteira como quem faz parte, como aquele que construiu a sua identidade não no "eu", não no "outro", mas em um "nosotros". Para Schlee o outro lado da linha é parte do que somos. Para o autor a fronteira - ainda que marcada por um rio, por uma ponte, pelos trilhos do trem - é "Uma Terra Só". 

Eu não nasci na fronteira, mas cresci com olhos fronteiriços, olhos que não atentam para marcos, para barreiras. Meus olhos são fluidos, híbridos, são nosotrosSempre gostei da fronteira. Sempre estive entre o lá e o cá...

* obra de Aldyr Garcia Schlee

sábado, 18 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 24: de mala pronta

Estou de mala pronta. Com os sonhos todos na bagagem, me vou ao Uruguay. Meu destino - Tacuarembó! Turista de mim, vou percorrer o interior deste espaço fimbrio que um dia já foi Brasil mas que apartado do pai redescobriu-se gigante. 

Reza a lenda que Carlos Gardel, o grande nome do Tango, é de Tacuarembó. Os Argentinos alegam que foi na sua Tacuarembó que o "milonguero*" nasceu.  O Uruguaios, por sua vez, atestam o nascimento de Gardel com uma certidão exposta no museu de mesmo nome, na Tacuarembó Uruguaia. Argentino ou Uruguaio, Gardel levou o extremo sul da América para os ouvidos do mundo - marcando este território para além chuteiras, mates e alfajores.

E por falar em alfajores e seus diversos recheios - eis outra disputa entre Argentinos e Uruguaios: o doce de leite. Os amigos hermanos que me perdoem, mas um Conaprole é fundamental. Por melhor que seja o doce de leite na Argentina, o doce de leite que se come no Uruguai é "inolvidable". Assim como  - de um lado ou do outro do Río de la Plata  - são inolvidables as medialunas, o frio que nos identifica como crias do Sul, a hospitalidade, as lutas.

Estou de mala pronta. O destino  - um pouco de mim. 


http://www.descubriendouruguay.com/auc.aspx?154142,1172

* Milonga - baile de tango

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do que somos

nos demoramos em nossas descobertas
pacientes de nós
tecemos fiapos
viramos retalhos
fragmentos
descompassos

nos demoramos em nossas descobertas
impacientes por nós
bordamos 
criamos 
sonhamos


a vida passa nas nossas demoras
e nos encontramos 
costureiros de memórias

Google Imagens


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 23: do tempo e sua covardia

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. Consome minhas últimas pilhas, me leva adiante com sua pressa sem me deixar piscar os olhos, olhar em volta, respirar fundo, sorver os minutos, ter calma, estar viva e saber disto. Meu relógio não aguentou a pressão, despediu-se de mim para férias sem prazo pré-estabelecido. Disse adeus e me deixou um recado: o tempo se esvai. E se esvai mesmo... 

Eu ando carente de mim, carente de me perceber vida e vivente entre os meus. Eu ando cheia de formulários, protocolos e datas marcadas. Eu ando cheia de leituras obrigatórias e pouco me sobra para o prazer de ler os livros silenciados ao lado da minha cama, de me consumir e viajar por entre estradas imaginadas. Eu ando carente da escuta. Imersa em coisas para fazer - não escuto os passos pela casa, sua poesia e as notícias que batem à porta. A correria tampou os meus ouvidos como uma forma de sobrevivência. É uma necessidade de estar concentrada em mim para não sucumbir a onda que vem atrás - forte e avassaladora como um tsunami.... 

Eu ando carente de mim, de me descobrir com tempo de sobra para as escolhas (as minhas!), para os jantares em família, para as conversas demoradas - olhos nos olhos, boca no ouvido, mãos nas mãos. Ando carente de caminhar sem pressa. De viver cada minuto. O meu tempo é um presente que ando jogando fora...

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. No rádio, Alejandro Sanz canta... "Miras el reloj, faltan 10 y piensas: ¿me da tiempo? (...)Mira cómo corre, qué cobarde es el tiempo".

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 22: das indignações cotidianas

A semana finda com saldo negativo para o nosso país. Se já não íamos para o céu, agora jamais sairemos do inferno. Eis que, na Câmara dos Deputados, os ilustres filhos de Deus aprovaram a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos. Ao invés de escolas, teremos prisões! Senhores, preciso confessar, estes deputados não me representam! Eu louvaria (e até votaria) no sujeito que propõe a anunciar caminhos significativos para a mudança deste país, pessoas sérias o bastante para propor e realizar mudanças na Educação, pela Educação, pelo humano, pela humanização do que viramos. Mas estes que andam por aí colocando celas onde deveriam colocar escolas e salas de aula, colocando grades onde deveriam colocar quadros, cadernos e janelas... estes, meus senhores, estes deputados não me representam. Assim como não me representam as pessoas que tiveram a infeliz ideia de desmoralizar a imagem da presidente criando adesivos ofensivos a sua imagem. Para estes também seria fundamental um investimento significativo nas escolas, pois na escola reconhecemos o papel da mulher na nossa sociedade, suas conquistas ao longo da história, suas lutas e suas dificuldades. Estes inábeis, curtos de ideia, não ofenderam apenas a presidente e sua autoridade, ofenderam a todas as mulheres brasileiras. Para estes, escola de qualidade já! Para os Deputados de nosso país, escolas de qualidade já e, claro, muita oração. Afinal, nem Deus é capaz de perdoar tantos pecados.

A semana finda com saldo negativo para o nosso país.... sem previsão de melhorar! 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 21: quando parte um paisano

Nico Fagundes foi destes raros homens que deixam história, que marcam a história, que as (re)contam através de escrituras e ruminanças. Com ele, com a sua escrita historiográfica, muito de nossa cultura rio-grandense ficou registrada para além dos costumes, da vivência. Virou material de estudo, de consumo por muitos guris e gurias nos Centros de Tradição Gaúcha mundo afora.
O Nico (e toda a sua família Fagundes) fez da nossa cultura um gosto a ser cultivado. Na contramão das grandes redes - fez da televisão aliada na divulgação das nossas façanhas, da nossa arte regional – ainda que esta divulgação se mantenha fortemente localizada no Sul do país. De bombacha, pala no lombo, lenço e chapéu tapeado levou de mão em mão o mate doce dos enamorados pela arte produzida aqui na nossa casa, o Rio Grande. 
Longe de ser um niilistas dos pampas, Nico Fagundes sempre foi um estudioso de sua prática tradicionalista. Sabia da formação do nosso estado, da história de cada batalha, das danças tradicionais, da comida campeirada, sabia da constituição do gaúcho como poucos sabem hoje neste Rio Grande de Deus. Defendia (diferente de mim) uma matriz lusitana para nossa fundação. Nos fez brasileiros. Fez o gaúcho - de todas as querências - reconhecer-se parte do Brasil.

O Nico Fagundes fará falta para os gaúchos! O ativista Nico Fagundes fará falta para o Estado do Rio Grande do Sul! Fará falta para os gaúchos e gaúchas de todas as querências...


Se foi o paisano. Fechou a porteira de sua trajetória pelos campos do Rio Grande do Sul. Foi viver em outra morada. Quitou sua caderneta na venda da Província de São Pedro e partiu! 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 20: de educação e futebol!

O Celso Antunes já fez suas colocações sobre educação e futebol. No Brasil, o país do futebol, quem já não se arriscou em fazer estas relações, não é verdade?! Eu mesma explicava classes de palavras para meus pequenos do ensino fundamental relacionando-as aos jogadores e posições destes em campo. A gurizadinha compreendia e achava um barato! Nós somos os grandes atores deste campeonato chamado educação...

Como técnica, volta e meia eu me vejo escalando mal o meu time. Eu desarticulo, erro posições, me equivoco com as jogadas, desorganizo a minha planilha. Às vezes, dou uma bola dentro, ganho campeonato! Todo professor tem seus altos e baixos na profissão. Quem não tem? Mas a gente faz uma paradinha técnica, revisa nossas bases, organiza nosso melhor fardamento e entra em campo sempre com a garra de um a camisa 10. A gente acredita em todos os nossos jogadores, no seu potencial coletivo e nas suas individualidades. Nossa equipe é sempre esperança de taça na mão, medalha no peito!

Em campo, os nossos jogadores fazem gol de bicicleta, fazem gol olímpico, fazem falta, erram pênalti, se atrapalham nas jogadas. Às vezes entram em campo, às vezes ficam no banco, às vezes esquecem da bola, nem sempre vestem a camiseta. A gente tenta te todas as formas. Propõe jogadas - da uma pedalada aqui, um drible ali, uma carretilha acolá e a partida se efetiva. A gente dá chapéu na desesperança, faz carrinho na falta de vontade. 

A gente pode ficar pensando em quem sai vencedor deste campo, de quem é o mérito da vitória. Alguns vão dizer que tudo se deve a visão e a atuação do técnico; outros, ao brilho das individualidades; há quem lembrará da importância do trabalho do grupo. Eu diria que, neste campeonato, o mérito da vitória é de todo aquele que se move em direção ao gol, é de todo aquele que acredita que cada passo faz a diferença, que cada cartão, que cada jogada é fundamental. No final das contas - seja de um lado, seja de outro - quem sempre ganha é a Educação!



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 19: de culturas e de intolerância

Estou triste com o que os haitianos têm passado ao chegar aqui no nosso Estado. Estou triste e sou veemente contra qualquer tipo de agressão, de rechaço a cultura deles. Sou contra a qualquer ação que ameace os direitos humanos frente a qualquer nacionalidade, frente a qualquer pessoa, seja da nacionalidade que for. Para estes que andam por aí negando a existência legítima dos outros, em especial dos haitianos, meu pedido de paz.

Ver nos haitianos uma ameça aos empregos no Brasil é de uma ignorância tremenda. Ver isto em um estado fundado na mescla de matrizes  originárias, espanholas e portuguesas, reconfigurado com a vinda de imigrantes alemães, italianos no princípio do século XX (considerando apenas parte dos tantos imigrantes que para cá vieram), é, no mínimo, negar a própria história e origem de quase totalidade do Rio Grande do Sul - um povo fundado da e na mistura de diferentes etnias. Xenofobia não representa o povo gaúcho. O povo gaúcho não é um povo intolerante. O Brasil não é assim.

Estes homens e mulheres que estão vindo para o Brasil são pessoas cheias de história, de vida, de sonhos. Tiveram suas casas, suas vidas destruídas por terremotos, tiveram seus empregos usurpados pelo abalo total de suas placas tectônicas - para além das casas, dos prédios, a economia foi ao chão. Para não perder a esperança, estes haitianos têm saído de sua pátria, viajado dias e dias em condições precárias, têm sido roubados - tudo para buscar uma história diferente para suas vidas. No Haiti, de cada 10 pessoas, 7 passa fome. É de vida que estamos falando...  de uma luz no final do túnel, urgentemente, desesperadamente. 

Para estes que andam por aí negando a existência legítima dos outros, em especial dos haitianos, meu pedido de paz.






quinta-feira, 4 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 18: das culturas

Estes dias deparei-me com um vídeo das conferências TED* que trazia a fala do educador paquistanês Ziauddin Yousafzai, o pai da tão conhecida Malala. A narrativa do pai de Malala faz pensar muito sobre a cultura, sobre as diferentes e as diferenças culturais que existem no mundo. Faz pensar que vivemos um mundo multicultural onde, na maioria das vezes, sobrepõem-se as ditas culturas hegemônicas as demais culturas. Faz pensar o quanto (às vezes) carregamos este discurso em nossas práticas como profissionais da educação!

O vídeo referido, em especial, abarca a realidade da mulher na sociedade paquistanesa. Para ser uma boa menina, nesta cultura, é preciso ser calada, humilde, submissa, aceitando sem questionar qualquer decisão tomada em seu nome. Questionar é romper com o imposto - é tornar-se desobediente. Malala é uma desobediente na sua cultura. Ela estudou, pode lutar por direitos  - os seus e o de muitas mulheres do Paquistão e para além de suas fronteiras. Malala rompeu com o ciclo imposto em seu meio - onde mulheres ano após ano reproduzem os valores,a obediência criada e imposta pelos homens de sua sociedade. O pai de Malala também é um desertor neste sentido. Ele colaborou para que a filha tivesse uma identidade, um nome e acesso à escola. Matricular uma menina paquistanesa na escola é, sim, reconhecer seu nome, sua identidade, é dar luz ao sonho, a vida. 

Ao pensar a multiplicidade de culturas - o multiculturalismo existente no mundo  -  é que me deparo com a seguinte reflexão: precisamos de mais relações interculturais. O mundo intercultural não sobrepõe culturas - ele convive com as culturas. As culturas em um mundo intercultural não se aniquilam - se respeitam, dialogam. Precisamos de um mundo onde o amor exista como uma prática de respeito ao outro como verdadeiro outro na convivência (Maturana). Na cultura de Malala, ela não existe como um outro legítimo. Ela, simplesmente por ser mulher, é rejeitada, não tem voz. Precisamos, definitivamente, de sociedades que valorizem o humano, que se humanizem. Precisamos de uma educação assim também!



*https://www.ted.com/talks/ziauddin_yousafzai_my_daughter_malala?language=pt-br#  

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 17: das expectativas

A expectativa é um mal. No trabalho, na família, entre os amigos, em meio as leituras - a expectativa é um mal. Quando nos colocamos a espera de que nossos desejos sejam atendidos (geralmente) nos frustramos e nos entristecemos. Ao esperar do outro o que o outro não deseja realizar, lutamos a favor de nossa própria desesperança. Nos despedaçamos a partir de nossa própria iniciativa. Nós somos protagonistas e responsáveis por nossa decepção. Em tempo (sempre em tempo), é preciso aprender a não criar expectativa, a ser realista diante da vida, dos fatos. Humberto Maturana nos apresenta isto como um caminho possível para o viver. "El vivir humano en el presente sin dolor ni sufrimiento requiere vivir todas las dimensiones de los mundos humanos que surgen en el lenguajear (incluyendo el explicar, el comprender, los deseos, las expectativas, y la consciencia de sí, de ser y estar), como meros aspectos del flujo del vivir en el desapego al valor o sentido que uno podría dar al supuesto ser trascendente de lo distinguido, cualquiera que esto sea". Viver sem expectativa é amar no fluir do viver em pleno presente, legitimando o outro como verdadeiro outro na relação. "El amar no quiere ni busca las consecuencias del amar". A expectativa é um mal. Tomar consciência dela, um bem. Apropriar-se do que é de nossa competência, aceitar que somos donos apenas de nossas escolhas, uma libertação.
http://delcampovillares.com/tag/expectativa/




quinta-feira, 21 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 16: Carta à Beatriz



Carta à Beatriz,

Contigo, amiga, aprendi a ver o mundo de outra forma, com outra lente, por outros ângulos. Dei sentido a muitas coisas. Aprendi a escutar mais, a me posicionar quando necessário (ainda estou aprendendo...), a verbalizar minhas dores, meu sonhos, minhas alegrias, minhas preocupações. Aprendi contigo a ver as pessoas e sua humanidade, a ver a todos como projetos de vida. Contigo, cresci. Cresci como pessoa, cresci como profissional. Aprendi que para ser uma profissional da educação deveria colocar na minha bagagem, um pouquinho de conhecimento, um pouquinho de profissionalismo, um pouquinho de respeito, outro pouquinho de responsabilidade, outro de criticidade e amor em quantidades extras. Contigo, aprendi a ver a educação para além da sala de aula - ampliei meus horizontes e sonhei. Contigo realizei projetos, cursos, caminhadas, reformas, murais, formações, cartilhas, blogs, textos, feiras do livro. Contigo, li muitos livros - os meus e os teus. Juntas descobrimos Maturanas, Freires, Pessoas - prosas e versos. Juntas caminhamos em tempos difíceis e juntas permanecemos em tempo de colher poesia e riso largo. Juntas seguimos para além de contratos e de possibilidades. Porque, amiga, há encontros que são para sempre e há pessoas que são para sempre. Tu és uma pessoa inolvidável - para sempre em minha vida. Tu és aquela que faz falta no trabalho, na roda de mate, nos assuntos sérios e nos não tão sérios assim. Tu és destas raras pessoas que são encontro, nunca despedida. Que sorte a minha ter chegado à porta da tua secretaria numa manhã fria de julho de 2010... 

Feliz Aniversário!

Angelise. 


 "A amizade é um amor que nunca morre". 
Mário Quintana
Foto Foto

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 15: das coisas que aprendemos com a minha mãe

Eu cresci capenga. Aos 8 anos, meu pai despediu-se de nossas vidas em um final de ano caloroso no interior de São Pedro. Era final de tarde, tarde para violas, poesias, causos e pescarias. Meu pai estava morto. A mãe não teve forças para me contar. Pediu a um amigo. Ela tentava arrumar uma luz que a deixasse de pé em meio a terremoto que abalou a sua vida aos quarenta anos. Ficou imersa em si uns quinze dias, lembro bem. 

Não foi fácil aprender a viver só. O pai era seus (a)braços.  Ela, então, buscou em nós todos os motivos para seguir em frente. E foi. Passo a passo foi construindo o caminho. Hoje, diferente da mulher de quarenta que insegura não sabia que caminho tomar diante das dificuldades da vida, a mãe decide a própria história. Reconstrói as suas andanças, (re)significa a vida, diariamente. 

Com ela aprendemos que a vida provoca abalos sísmicos inolvidáveis, mas que  precisamos sempre lembrar que dentro de nós há um "kit sobrevivência", pronto para nos auxiliar nas intempéries. Aprendemos que há amigos leais que nunca nos abandonam e que há pessoas que simplesmente desaparecem de nosso círculo. Aprendemos que a vida não espera que os nossos sonhos batam à porta, que é preciso buscá-los, construí-los. E nós sempre fomos incentivamos a correr atrás deles - com amor e responsabilidade. Com a mãe aprendemos a organizar a vida - econômica, administrativa e afetivamente. 

Eu cresci capenga, sim, mas com a mãe aprendi a me equilibrar em uma perna só. Sobrevivi a muitas intempéries também - e vou sobreviver a todas as que provocarão em mim pororocas e quedas d'água. Com a mãe, aprendi a ser forte, criei resistência no corpo e uma coragem na alma. E tenho aprendido - na roda da vida - a me manter em paz, feliz com as minhas descobertas.








quarta-feira, 29 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 14: o saber da amorosidade em educação.

A Educação foi tema central de minhas "ruminações" novamente esta semana. Estive elencando saberes necessários ao formador, ao professor de modo geral. Afora os já elencados pelos teóricos mais conhecidos no meio educacional (Tardif, Gauthier, etc) tentei chegar a um que, na minha leitura, possibilitaria a construção de outros caminhos para os espaços educacionais Brasil afora, em muitas (ou quase todas) etapas de ensino: o saber da amorosidade.

O amor a que me refiro aqui não remete ao amor romântico - criação da literatura e sonho (quase) sempre frustrado de muitos que idealizam na vida o que sequer nas novelas acontece. O amor a que me refiro aqui não é permissivo (nunca será!). Eu me refiro ao amor segundo Humberto Maturana. Para ele, o amor não é um sentimento, é um domínio de ações nas quais o outro é constituído como legítimo outro na convivência. O amor visto através da obra de Maturana é central na convivência humana. Se um professor desvaloriza a história de vida de um aluno, seu contexto, se desvaloriza o aluno como sujeito ativo no espaço relacional da escola - o professor não ama este aluno, não o considera legítimo na relação. A recíproca também é verdadeira. Se um aluno não respeita o professor, sua história, sua caminhada - não há amor, não há legitimação da relação, do outro neste processo. Uma escola que vê a todos e não percebe nenhum em suas particularidades não é uma escola amorosa. Sem amor, não há fenômeno social. Isto porque, para Maturana, o amor é fundamento do social e, em não havendo a aceitação do outro, na convivência, simplesmente o social não existe. 

Na educação, nos preocupamos demasiado com o ensino e com a(s) aprendizagem(ns). Ora focamos nossos estudos no professor, ora no aluno, ora no material didático. Poucas vezes centramos nossas investigações (e nossas práticas) no meio do caminho entre o ensino e a aprendizagem: a relação professor e aluno, aluno e professor. Educar-nos  - professor e aluno - para a aceitação e o respeito de si mesmo, que leva à aceitação e ao respeito pelo outro não é difícil, segundo Maturana. O que é preciso ser feito é fazer do espaço relacional - o conversar, o linguagear - um espaço em que não se negue o outro, onde não exista competição, um espaço para a (e de) reflexão. Para isso, porém, é preciso mudar completamente o que temos feito em educação desde sempre, pois se a Educação não leva o aluno ao conhecimento de seu mundo, do seu cotidiano, de seu fazer considerando o respeito e a reflexão como elementos primordiais, a educação não serve nem para o aluno, nem para o país - alerta Maturana. 


Precisamos experienciar o saber da amorosidade. Precisamos trazê-lo para nossa ação pedagógica, vê-lo como componente, como dispositivo para uma educação libertadora, menos punitiva e que proporcione ver no conhecimento de si e do outro e das coisa e do mundo um bem, uma riqueza, inúmeras possibilidades. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 13: das demoras

Na correria dos dias, deixamos de nos perceber senhores de nossa existência. Já não temos tempo para as rodas de chimarrão, para as conversas a beira dos muros, com os vizinhos, já não conhecemos os vizinhos. Já não visitamos os parentes nem somos visitados por eles. O tempo tomou a frente e se empoderou diante de nossas fragilidades. 

Eu ando cansada de não ter tempo. Ando carente do olhar nos olhos, carente das demoras. Saudosa de minha presença (e da dos amigos), já não me percebo em meio as tarefas diárias. Sumi atrás do tempo. Virei fumaça. Risco. Rascunho. Ausência. Em meio as atividades, já não degusto as minhas leituras. Elas são, muitas vezes, um passar de olhos pelo texto, uma efemeridade de informações. Já não assimilo, não rumino. Em meio as atividades, num ir e vir ininterrupto, vejo as minhas crianças (os meus sobrinhos amados) crescerem sem rodas de brincadeiras, sem pega-pega na frente da casa, sem carrinhos de rolimã, sem bolitas, sem esconde-esconde. O tempo nos roubou as suas infâncias... estão moços num piscar de olhos e já frequentam os bancos universitários! Correm... correm os nossos sobrinhos!

Eu ando cansada de não ter tempo. Estou carente, sim, de minhas demoras. De me cozinhar em banho-maria. Estou com cheiro de guardada. Louca para viver meu tempo, estou aprendendo a demorar-me. 
Demorando-me na livraria "El Ateneo", em Buenos Aires.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 12: Como se faz um professor de língua estrangeira? (Continuação)

Na última semana fiquei me perguntando e tentando elencar outros elementos importantes para nos transformarmos em professores de língua estrangeira, para além dos espaços proporcionados para o aprendizado de nossa docência. Por um momento, olhei para a minha história, para a minha caminhada dentro da profissão. 

Tenho a impressão que comecei a me preparar para a profissão ainda na infância quando buscava sintonizar rádios argentinas e uruguaias em um rádio a pilha. As ondas que traziam estas vozes em língua espanhola só começavam a aparecer próximo a meia noite. Eu esperava ansiosa por cada possibilidade. Era um mundo diferente e ao mesmo tempo tão próximo do meu que eu desejava fazer parte. A literatura foi outro caminho que me levou ao encontro com a língua espanhola. Li, reli, devorei literatura de fronteira, literatura do outro lado da linha divisória. Nestes encontros - penso eu - já acontecia a minha formação. 

É tema complexo definir e/ou delimitar a quantidade de saberes necessários para a nossa formação. Sem "esgotar" o "inesgotável" - penso que há dois dispositivos fundamentais para que esta aconteça: o desejo e o comprometimento consigo.

O desejo é o dispositivo primeiro para uma relação de saber com a e na profissão docente. "El deseo conduce al placer, al goce, y no a un objeto determinado, el deseo no puede llevar al goce sino a través de un objeto y, en este sentido, todo deseo es deseo de", explica Bernard Charlot (2008, p. 36). No caso da formação docente, todo desejo deve ser desejo de aprender, de saber os saberes necessários à profissão. Estes saberes são inúmeros - já sabemos - mas um deles é fundamental chamar à baila: o saber da ação pedagógica. Hoje, vivenciamos uma busca intensa pelos saberes específicos e, em muitos casos, nos esquecemos que este é um dos saberes mais necessários à profissionalização do ensino (Gauthier, 1998, p. 34). 

Outro dispositivo fundamental à formação é o que Ferry (1991) define como "trabajo sobre si mismo". Para o autor, formar-se não pode ser mais que um trabalho sobre si mesmo, livremente imaginado, desejado e perseguido, realizado através de meios que se oferecem ou que se procura. Trata-se de um comprometimento do sujeito consigo ao longo do (interminável) processo que é a formação. Parece coisa da psicanálise  - e é! Mas é, também, considerar a docência não mais como vocação e, sim, como profissão. E, dessa forma, buscar conhecimento para o seu desenvolvimento.

Tornar-se professor de língua estrangeira (tornar-se professor de forma geral) não é meramente de um treinamento para a profissão. É algo mais profundo e está para além de possíveis receitas, técnicas e de bancos universitários. Tornar-se professor de língua estrangeira é comprometer-se amorosamente com o processo que é nosso e que é do outro, o nosso aluno. Este amor, para Freire, é a própria Educação.

unglue-livros
Fonte da imagem: http://super.abril.com.br/blogs/planeta/leia-mais-de-graca-e-de-ao-mundo-o-seu-livro-favorito/



FERRY, G. El trayecto de la formación. Paidos: Madrid, 1991.
CHARLOT, Bernard. La relación con el saber, formación de maestros y profesores, educación y globalización. Ediciones Trilce: Montevideo, 2008.
GAUTHIER, Clermont. Por uma teoria da pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o saber docente.Editora Unijuí: Ijuí, 1998.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 11: Como se faz um professor de língua estrangeira?

O caminho que o professor de língua estrangeira precisa trilhar para constituir-se como tal é bastante complexo, pois um professor não se forma da noite para o dia, sequer em cinco anos de graduação. A profissão docente exige um processo de eterna atualização para que o professor esteja apto a acompanhar este mundo em constante mudança, para que consiga ter e dar autonomia aos alunos, para que rompa com o ensino tradicional, ainda focado no preenchimento de lacunas com verbos em infinitas conjugações. O professor de línguas estrangeiras reflexivo, crítico, responsável e amoroso (FREIRE, 2011) não se constitui apenas no espaço sistemático da sala de aula da universidade. Para constituir-se como tal precisa vivenciar o exercício da prática docente. Unir teoria e prática em processos significativos e ininterruptos de reflexão.  
É importante mencionar o que esclarece LEFFA (2006, p. 354) a respeito da docência: “formar o professor e não apenas treiná-lo”, eis o desafio de nossos espaços de formação. É preciso ir além da sistematização de conteúdos, é fundamental colaborar com a formação de nossos alunos na medida em que eles consigam compreender de forma clara “o motivo porque uma ação pedagógica é feita da maneira como é feita, ou seja, há uma preocupação com o embasamento teórico que subjaz a atividade do professor” (LEFFA: 2006, p. 355), afinal, é preciso reconhecer a docência como profissão e não como vocação, aspecto este também presente no exercício de constituir-se professor. Afora isso, segundo LEFFA (2006, p. 355), “quando formamos um professor não o estamos preparando para o mundo em que vivemos hoje, mas para o mundo em que os alunos desse professor vão viver daqui a cinco, dez ou vinte anos. (...) É alertar o futuro professor que o conteúdo que ele esta recebendo agora através dos livros é um conteúdo de valor temporário”.

Para formarmos um professor precisamos ampliar ao máximo a sua possibilidade de experienciar a docência. Com a resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002, os estágios supervisionados passaram a ter destinadas para à prática 400 horas na grade curricular, a partir do início da segunda metade do curso. Embora seja já um ganho significativo à formação, a realidade não compreende este cenário. As atividades de ensino de língua espanhola na rede pública municipal e estadual, por exemplo, são de apenas uma hora semanal. Com apenas uma hora de atividade junto aos alunos o professor em formação não consegue desenvolver-se da forma como poderia, como deveria junto à universidade, frente a sua formação. No exercício efetivo de sua profissão também não consegue desenvolver práticas tão significativas, considerando este contexto.

Donald Schön (apud ANIJOVICH, 2014, P. 15) a respeito disto aponta um caminho oportuno. O autor propõe o “practicum reflexivo”. Este trata-se de um dispositivo que permite ao aluno em formação “aprender fazendo”, aprender a ser professor ante o ensino, aprende sobre o diálogo do professor com os alunos e com a própria prática, aprende sobre a reflexão a partir da ação. Para o autor, a prática docente pode ser ensinada e, consequentemente, aprendida, pois para Schön (apud ANIJOVICH, 2014, P. 15), um practicum “es una situación pensada y dispuesta para la tarea de aprender una práctica. En un contexto que se aproxima al mundo de la práctica, los estudiantes aprenden haciendo, aunque su hacer a menudo se quede corto en relación al trabajo propio del mundo real”.

Dessa forma, um possível caminho para o questionamento inicial deste texto – “como se faz um professor de língua estrangeira?” - seja o de que a formação do professor é um processo dinâmico de desenvolvimento pessoal e profissional e que, portanto, esta formação deva se dar no exercício mesmo de sua experimentação, sempre em um processo de ação e reflexão teórico-prático.  A formação do professor de língua estrangeira (do professor como um todo) se dá no comprometimento consigo mesmo, com seus alunos (sempre projetos de vida!) e com a Educação.


Referencial Teórico:

ANIJOVICH, Rebeca (org). Las prácticas como eje de la formación docente.
FREIRE, P. Educação e Mudança. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 2011.
LEFFA, Vilson (org). O professor de Línguas Estrangeiras – construindo a profissão. 2ª Ed. Pelotas: Educat, 2006.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 10

Taninha,

À Tania Miorando, colega de 
Doutorado em Educação na UFSM.

Fiquei muito feliz ao saber que serias a destinatária de meu relato sobre o filme "O Jogo da Imitação". Quero, desde já, te dizer que gostei muito da produção e que vi conexões entre o relato cinematográfico sobre Alan Turing (para mim, mais que sobre a 2ª guerra, que sobre o Enigma, o filme narrou a vida de Alan Turing!) e as nossas pesquisas, nossa caminhada investigativa pelos caminhos do doutoramento. Assim como o Turing – somos focadas no trabalho, não é?! Algo à moda Mills* – entrelaçamos nossa vida particular e nossa vida profissional. Dia a dia construímos – artesanalmente – nossas leituras e nossas produções em meio a livros, cadernos, quadro, giz, canetas e computadores. Escrevemos nossos medos, incertezas e descobertas em diários virtuais, “postites” coloridos, cadernetas, guardanapos. Viajamos literalmente – nos livros e nos caminhos que nos trazem e nos levam da e para a UFSM.  Como Alan Turing, batalhamos por desvendar os códigos de nossas próprias narrativas. Acredito que neste momento estamos por descobrir a decodificação de sinais que nos levarão a uma produção vindoura. E isto nos salvará não só de Hitler (risos), mas de nós mesmas - e da banca, claro!

Ao ruminar sobre o filme e as relações com as nossas pesquisas, lembrei da obra Odisséia, em especial, da personagem Penélope. Eu me sinto uma Penélope a tecer, dia a dia, os significados das minhas descobertas. Pesponteio e costuro retalhos teóricos a minha colcha diária. À noite, desfio incertezas na espera que Ulisses (a minha tese e a tua também) me salve de outras possibilidades. Acredito que neste tecer e refazer nossas colchas teóricas, nossos ações como sujeitos investigadores do e no campo da educação, estamos nos formando ou, melhor dito, estamos desenvolvendo um trabalho sobre nós (Ferry?**). Para muitos, isto também é uma escrita acadêmica – a que se dá no nosso corpo, cunhado de experiência.

Por fim, queria te deixar um poeminha do Manoel de Barros para lembrares sempre que é preciso abrir janelas, ampliar horizontes, mas nunca deixar a vida passar.



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. 

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio, 
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis, 
que vê a uva etc. etc. 

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.


Abraços, Angelise.



* MILLS, C. W. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009.
*FERRY, Guilles. Pedagogía de la Formación. Buenos Aires: Centro de Publicaciones Educativas y Material Didáctico, 2004.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Do viver dos poetas



Para Ruth Larré, poetisa de Santa Maria falecida no último 25 de março.

Na poesia
o poeta vira palavra
inscreve-se
recria-se
vira mundo
e o mundo vira
na poesia
o poeta vira estrela
vira artista
vira palco e fantasia
na poesia o poeta
vive o verso
arrepia
na poesia o poeta que ora morre
se eterniza.


Fonte da foto: http://www.claudemirpereira.com.br/2015/03/memoria-mundo-cultural-mas-nao-so-presta-a-sua-homenagem-a-ruth-larre-sepultamento-acontece-as-5/#axzz3VYGH2BKK

sexta-feira, 20 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 9

De tudo que vi, li e recebi sobre as manifestações contra o governo no último domingo, 15, sem dúvida a faixa que me chamou mais atenção pedia um "basta de Paulo Freire" para a/na Educação. Uma tristeza que comprova que Freire além de não ser lido no seu próprio país tinha razão: "ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. Todos sabemos algo. Todos ignoramos algo”.

Em meio a isto, voltei a me questionar sobre os cursos de licenciatura que, tão apartados de uma Educação nossa, ainda buscam em outros paises pensadores que ajudem a formar os nossos professores. Paulo Freire não é lido (ou muito pouco lido) no nosso país! No nosso! Nos paises que valorizam uma Educação Libertadora, em paises emancipados da opressão do silenciamento e da ignorancia pedagógica, educacional - Paulo Freire é base. O nosso pensador foi homenageado em Harvard, Cambridge, Oxford - Universidades estas reconhecidas no mundo todo. Aqui, pedem um basta as suas leituras. Por quê? Por puro desconhecimento.

Para Freire, não posso ser um profissional na segunda-feira e alguém diferente nos finais de semana. Para Freire, sou o que sou em qualquer espaço em que esteja. Para ele, a educação é um ato de amor. O amor, a própria educação. Pedir que se de um basta nas leituras de Freire é, sim, manifestar a própria cultura brasileira, importadora de modelos que pouco servem a nossa realidade. É achar que o que vem de fora é melhor do que o que é produzido aqui. 

Valdo Barcelos em seu Livro "Uma educação nos trópicos" menciona que não vivemos uma crise na educação, porque a crise inicia, tem seu ápice e acaba. O que nós vivemos em educação - este "niilismo educacional" - é um problema cultural. Nós não valorizamos o conhecimento como um bem. Para mudarmos este cenário precisamos mudar nossa cultura. E, sim, só conseguiremos avançar neste processo lendo Paulo Freire

Precisamos, como coloca Humberto Maturana, mudar a cultura através do amor, do conviver, do "linguajear". Aos poucos, semeando um olhar amoroso com/para a educação, vamos ajudando a construir um pais melhor, e, claro, mais leitor de Paulo Freire.

Imagem retirada de: http://www.olhardireto.com.br/ 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 8

Não há um botão que cliquemos para a felicidade acontecer. Ela não chega assim, sem rituais internos. Não chega automaticamente e dificilmente vem acompanhada. É nossa responsabilidade despertar para a vida e aceitar o despertar dos demais. 

No conviver que nos relacionamos, o da cultura do consumo, vivemos uma ideia de felicidade que vem pela via da posição social, do ter as coisas. Se não lucramos, não competimos, não ganhamos - e, nesta situação, dificilmente nos encontramos com a recompensa maior que promete esta sociedade - a felicidade. Ter negado o direito a esta felicidade só gera sofrimento.

Para Maturana e Ximena Davila, a origem deste sofrimento vem da negação (nossa, do outro) no convívio, é cultural. Para eles, quando não nos encontramos com a felicidade é porque estamos vivendo em um mundo relacional que nos nega. Importantíssimo dizer, também, que para Maturana e Ximena a sociedade patriarcal proporciona muito destes sofrimentos. Para eles, deveriamos existir no espaço de nossa convivência em uma sociedade matrística - marcada pela aceitação do outro como verdadeiro outro na relação, no linguajear, sem cobranças, sem expectativas. Para eles, todos os nossos "problemas" estão na negação de que somos originalmente seres amorosos.

Se vivêssemos como seres amorosos realmente nossa cultura seria outra. Não precisariamos viver em busca de um botão para clicarmos em busca da felicidade, rituais internos (e com o externo) de aceitação (minha e dos demais) fariam parte naturalmente de nossa caminhada, seriam culturais. A felicidade não chegaria (como não chega) naturalmente, mas seria parte de nosso conviver, porque não só nos responsabilizariamos com ela, mas também com a do outro. 

Para hoje, mais amor e esperança na vida e nas pessoas!

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz,  Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz" (Gonzaguinha)


quinta-feira, 5 de março de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 7

Para todos meus tios, primos,
irmão, pais, que sempre me fizeram ver 
na simplicidade das coisas a alegria de permancer.

Sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória. Coloco margarina e açúcar cristal na minha fatia imaginária. Saboreio lembranças!

Minha infância tem cheiro adocicado. Cheira a doce de leite feito em casa, pela tia Nida e pela minha mãe. A mãe ficava horas e horas as voltas com o fogão a lenha, no fundo do pátio, remexendo o tempo que só é passado. A tia reservava surpresas no armário de madeira amarelo.  E sempre (sempre!) fazia o tempo render carinhos, presença e narrativas. Ainda escuto, no corredor de luzes acesas da minha memória, o sapo em seu coaxar, entre concursos e risadas. 

Ir a São Pedro e não comer as roscas da tia Diones, feitas com vinagre,  é o mesmo que não ir.  Ela amassa com ternura o espaço e o tempo  - nos faz crianças em volta da bacia de nossa infância. 

Minha infância tem cheiro de churrasco de pai. Tem o tio Diogo na cozinha e tem chá de boldo de prontidão. E tem roda, família reunida, felicidade. 

Ainda sinto o cheiro do pão batido da tia Jaci invadindo a minha memória enquanto viro a página de mais um livro de Laura Esquivel. Em "Como água para chocolate", o narrador me teletransporta para o universo único de minha memória. Definitivamente sou feliz!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Querido irmão,


Para Aline, Aroldo e Antonia


Há um ano viviamos a alegria de dois nascimentos: a Antonia, que chegava carregada de luz, de boas vibrações para o nosso pequeno universo familiar, e o teu, como pai, definitivamente. 

Neste meses que se passaram a pequena se fez gigante. Ela te ensina todos os dias que a vida é um universo de sonhos indecifráveis. Toda manhã, um sorriso; cada minuto, uma descoberta. E a felicidade revelou-se simples e enorme como o teu coração. O mundo é outro com ela e ela, generosamente, te segura pela mão e te ensina a caminhar a delicadeza dos passos de menina. Já és outro, percebeste? 

Ao te ver, vejo o velho Aroldo - cuidadoso nos gestos e no modo de falar. Amoroso. Com Risada larga que é como um abraço. Contigo, ela estará sempre segura. Com ela, tu serás sempre feliz. Com vocês dois - pai e filha - vejo a vida renovando esperanças e minha alegria está completa.


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos
Como sabê-los? (...)

Que coisa louca
Que coisa linda

Que os filhos são!

(Vinicius de Moraes)



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 6

Para Marcus Fontana, meu companheiro 
de viagens, de vida.


Viajar é mudar a roupa da alma, declarou Mário Quintana. Declarou, também, que viajar é mudar o cenário da solidão. Talvez, a solidão do outro, da cultura do outro, do que o outro representa em nós e para nós no nosso processo de existir.

Quando viajo me permito ver com calma nos olhos. Gosto de ir ao encontro do outro, sentir suas vivências, sua linguagem, suas dores, seus amores, seu ritmo, suas canções. Eu viajo me permitindo abrazar o desconhecido do meu cotidiano. Me encharco de memórias, de cheiros, de sabores, de imagens, de olhares, de contatos.

E se para viajar basta existir, como versejou Fernando Pessoa, existo porque viajo. Viajo nas páginas dos romances, viajo pelas esquinas dos versos de minhas poesias, viajo para meu passado e para o meu futuro. Viajo pelos mapas que traço, sonhadora. E isto é, para mim, o exercício da minha felicidade. 






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 5

Nós somos feitos de memórias. É impossível me ver hoje sem reviver meu tempo desfiado neste labirinto do minotauro que é a nossa história. Sou o que me propus viver, o que escolhi não vivenciar, o que me mostraram; sou as lembranças de outros e as marcas de outros; sou o que li e reli e o que ainda vou ler.

As últimas páginas do livro de Laura Esquivel ("Tan veloz como el deseo") me fizeram mergulhar no meu passado. Ler é isso - viver o que nunca viveríamos no espaço tênue ou profundo da uma narrativa. É mais - ler é reviver o vivido, é olhar para fora, para outros mundos, mas, também, para dentro de um universo nem sempre conhecido que somos nós.  

Com o livro, pude recordar o quanto as palavras, a presença e o exemplo são fundamentais para a constituição do que somos, para a nossa educação. Meu pai, passados 23 anos de sua morte, ainda é meu maior exemplo, meu herói. Ele, assim como Júbilo, personagem central da obra de Esquivel, era radiotelegrafista e tinha uma doçura no comunicar. Meu pai era um homem de anunciar, nunca de reclamar. Comunicava para fundar a paz, jamais a desesperança. E se nós somos feitos de memórias e se estas fundam o que somos, marcam o nosso corpo - quero as palavras do meu pai marcadas em mim para a eternidade, porque  - sim! - quero sempre ser uma voz que anuncia a alegria do caminhar. 

"No sólo eso, mi padre habitaba a mi cuerpo, en el de mi hermano, en el de mis hijos, en el de mis sobrinos. Su herencia biológica y emotiva estaba presente en todos nosotros. En nuestra mente, en nuestros recuerdos, en nuestra manera de ver la vida, de reír, de hablar, de caminar."
"Eso es finalmente lo que vale, que alguien perdure en la memoria gracias al poder transformador de sus palabras. Por cierto, las que contenían mi mensaje eran éstas:
 - Querida Chipi-Chipi, la muerte no existe, pero la vida, como tú la conoces, es maravillosa ¡aprovéchela! Te quiero por siempre. Tu papá". (Esquivel, pg. 194)

A literatura e nossos encontros... profundamente emocionada com a obra de Laura Esquivel.

Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...