sexta-feira, 27 de junho de 2014

De poesia e hereditariedade

A poesia sempre fez parte da minha vida.  No meu gene a poesia é a estrutura fundamental. E eu tenho como explicar esta hereditariedade: meu avô, minha avó, meus tios e meu pai eram poetas. 

Os Fernandes da Silva sempre se apresentaram ao mundo através de sua verve poética. O vô Pedro - que eu não conheci - trovava na Rádio Municipal São Pedrense, em São Pedro do Sul. Era conhecido na região - da cidade ao interior. Passou a trova adiante, pelo conviver das rimas. Meu tio Renato embalado pela sua gaita, trovava para toda a vila Gaúcha. O Tio Antonio segue rimando o seu sorriso, fazedor de alegrias. 

A vó Noemia iniciou os meus irmãos na arte da contação. Eu não lembro dela, morreu quando eu tinha apenas três anos. Porém, através de meus irmãos, reconstruí sua história de narradora. Era ela que despertava a imaginação deles nas noites em que posava na casa da gente... levando-os a viagens inesquecíveis pelo mundo do faz de conta.

O velho Aroldo, meu pai, versejava todos os dias na sua forma de viver a vida. Era iluminado. Iluminava. Antes mesmo de ler e escrever eu já recitava poesia pelas peças da minha casa, nas rodas de família, inspirada por ele, que escrevia comigo no colo e me mostrada o caminho do descobrir-se, do revelar-se em versos. 

Quando o pai morreu, foi a herança que me deixou: um pacote de lembranças, um violão e uma pasta com suas poesias. O violão silenciou-se. Eu nunca consegui aprender a conversar com ele. As lembranças me embalam todos os dias - estão presentes neste exato momento em que escrevo este texto - é o recheio dele. A pasta de poesias é um relicário guardado a sete chaves. 

Nesta pasta parda rabiscada com letra de pai estão as correspondências trocadas entre poetas, cartas que meu pai trocada com os seus pais enquanto morou em Cruz Alta e Porto Alegre, por conta de seu trabalho junto a Brigada Militar. É lindo ver, tantos anos depois, como a poesia unia a família. Era a língua compartilhada, o idioma familiar. 

Com a partida dos poetas, a poesia fragmentou-se. Hoje já não há um poema rimado que una as estrofes. Não há um verso no último terceto de nosso soneto familiar, todo chave-de-ouro. Mas há amor perpetuado em memórias... 


Velho Aroldo, com seu violão

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Se o Mundial fosse da Educação, qual país ganharia?

Em tempos de Copa do Mundo, todos nós nos perguntamos sobre que país tem os melhores atletas. Todos temos o nosso jogador preferido, o uniforme que nos agrada mais (em geral, o da nossa seleção), escolhemos ver determinados jogos de equipes que estão melhor articuladas, que têm mais técnica, mais arte dentro do campo. Todos nós temos nosso palpite sobre quem ganhará a Copa. 

Mas se o Mundial fosse da Educação, qual país ganharia?

As últimas pesquisas que apontam os ganhadores da Copa do Mundo da Educação são preocupantes. Os times que mais levantaram taças nos campos estão na linha do rebaixamento. Perderam ao longo da história posições importantes para vencer o campeonato. Hoje, somente uma renovação total na equipe permitiria avançar um pouco mais na tabela, mas ainda sem chances de concorrer as oitavas de final. Estamos mal no campo da Educação. Muito mal! Somos lanterna neste campeonato!

O PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - revela o nosso fracasso. Este programa desenvolvido e coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avalia alunos na faixa de 15 anos, tem o objetivo de apontar indicadores, "que contribuam para a discussão da qualidade da educação nos países participantes, de modo a subsidiar políticas de melhoria do ensino básico. A avaliação procura verificar até que ponto as escolas de cada país participante estão preparando seus jovens para exercer o papel de cidadãos na sociedade contemporânea"*. Neste jogo importante para a Copa do Mundo da Educação o Brasil ostenta as seguintes posições: em leitura e matemática, o antepenúltimo lugar, perdendo apenas para Colômbia e Argentina, e, em ciências, o penúltimo lugar, ganhando apenas da Colômbia. Uma tristeza para nossos países latino-americanos!

Se olharmos para a América Latina, veremos uma concentração importante de prêmios futebolísticos: Brasil, Argentina e Uruguai levantaram as taças do Mundial inúmeras vezes. Somos campeões nas canchas mas (ainda) perdedores nas salas de aula. Precisamos reverter este jogo urgentemente! Precisamos fazer do esporte mais um caminho para elevar a educação nos nossos países, como fazem os países desenvolvidos neste campo, onde os jogadores precisam estar estudando para participar de uma grande equipe esportiva. Já é tempo de avançar... de abandonar este espírito de "vira-lata", de colonizado... e começar rumo a autonomia, rumo a Educação.



*PISA: http://portal.inep.gov.br/pisa-programa-internacional-de-avaliacao-de-alunos 

Fonte da imagem: http://conseducbage.blogspot.com.br/  

quinta-feira, 12 de junho de 2014

De adeus e Copa do Mundo


 

Dias antes da Copa do Mundo no Brasil, Fernandão abandonou o campo. Largou a camisa 9 no banco de reservas e deu adeus a sua torcida. Foi antes para o vestiário...

Cresci escutando barbaridades dos amigos gremistas. Meu time não era Campeão do Mundo. Meu time não ganhava a Libertadores. O único título nacional que vi da minha equipe, quando eu era criança, foi a Copa do Brasil, em 92. No mais, apenas campeonatos gaúchos.

Eu adoro o Gauchão, mas campeonato grande, fora do estado, eu nunca havia visto o Inter ganhar. Com a chegada do Fernandão, o time (realmente) vestiu a camiseta. 

A morte prematura e trágica do nosso craque nos fez ver, Rio Grande afora, uma grande comoção. Missas, memoriais, homenagens - tudo que um grande ídolo merece receber. 

Nesta última quinta-feira, Fernandão iria estrear como comentarista esportivo. Ia ver a Copa do Mundo no Brasil de outro banco, de outro ângulo dentro da cancha. Já não pode mais! Mas pode ser referência para os nossos brasileiros vestidos de verde e amarelo. Que vistam a camisa e façam uma Copa melhor que a de 1950. Que seja uma Copa de embalar a alma do brasileiro... que traga alegria... que seja de paz e de muitas vitórias.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Em tempos de mudanças, comecemos por nós!

Dizem que as coisas mudam com o tempo, mas é você que, 
na verdade, tem de mudá-las. 
Andy Warhol

Tenho escutado com certa frequência (e falado também) que a Educação de nosso país precisa mudar urgentemente. Mudar a estrutura física, mudar a forma de trabalhar o ensino, mudar e mudar. Até o momento, não li (e não elaborei) nenhuma proposta sobre como fazer esta mudança acontecer.

Como professora que atuou na Educação Básica sei das dificuldades que a escola enfrenta. Realmente a escola tem dificuldades para determinadas mudanças! Não conseguiria tantas conquistas sozinha. A começar pelo corpo docente que se divide entre sala de aula, coordenação e supervisão pedagógica, coordenação administrativo-financeira. Mas é preciso tentar fazer algo, não é? Que tal começarmos por nos conectar? Formar redes de compartilhamento com nossos colegas, com nossos alunos, com a comunidade escolar. 

A tecnologia mudou a vida da gente! Mudou a forma de nos relacionarmos com o mundo, com as pessoas. Mudou a minha vida, que sou dos anos oitenta. Eu migrei para um universo novo - um mundo com Atari, Super Nintendo, Ps1, Ps2, Ps3, Wii e Xbox. Eu que escutava "Nenhum de Nós" em um walkman com toca fita agora carrego mais de mil músicas em um mp4. O meu nundo mudou! Eu escrevo todas as semanas esta coluna em uma página virtual e ela migra para o papel. 

Se o meu mundo mudou e eu me adaptei a ele (quase) sem restrições é preciso que eu me dê conta que o meu aluno, que os milhares de alunos que chegam hoje na escola e na universidade já nasceram neste universo tecnológico. São nativos digitais! Para eles, a escola não tem conexão, é offline. É preciso que nos conectemos. 

De repente (e aí me atrevo a sugerir), podemos começar por usar os recursos tão conhecidos pelos alunos para as/em nossas aulas. De repente, podemos aproveitar todo o conhecimento que eles têm para torná-los mais ativos no processo de aprendizagem, sendo agentes de transformação, porque... se dizem por aí que as coisas mudam com o tempo - alguém tem que puxar a frente.  Que sejamos nós!


Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...