sexta-feira, 31 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 25: de mim e da fronteira

Sempre gostei da fronteira, da ideia de fronteira imposta pelo Estado, ideia esta (quase sempre) impraticável nos espaços fimbrios do extremo sul do Brasil. Eu sempre movi meu olhares para a fronteira, para esta linha que nos aparta do que somos para nos encontrarmos no que não somos. Sempre estive entre o lá e o cá - costurando o espaço desta terra que para os meus olhos é "uma terra só*". 

Na infância, eu buscava no rádio de pilha sintonizar o meu tempo com o tempo dos meus antepassados. Sorvi canções e programações em espanhol, rocei meu léxico na língua do outro. Me "interculturei"! 

No Mestrado, sedenta por borrar linhas divisórias, encontrei a obra de Aldyr Garcia Schlee. Fronteiriço de Jaguarão (RS), vi na literatura criada pelo autor palavras para minhas percepções. O narrador de Schlee  (e o próprio autor em seus depoimentos) observa a fronteira como quem faz parte, como aquele que construiu a sua identidade não no "eu", não no "outro", mas em um "nosotros". Para Schlee o outro lado da linha é parte do que somos. Para o autor a fronteira - ainda que marcada por um rio, por uma ponte, pelos trilhos do trem - é "Uma Terra Só". 

Eu não nasci na fronteira, mas cresci com olhos fronteiriços, olhos que não atentam para marcos, para barreiras. Meus olhos são fluidos, híbridos, são nosotrosSempre gostei da fronteira. Sempre estive entre o lá e o cá...

* obra de Aldyr Garcia Schlee

sábado, 18 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 24: de mala pronta

Estou de mala pronta. Com os sonhos todos na bagagem, me vou ao Uruguay. Meu destino - Tacuarembó! Turista de mim, vou percorrer o interior deste espaço fimbrio que um dia já foi Brasil mas que apartado do pai redescobriu-se gigante. 

Reza a lenda que Carlos Gardel, o grande nome do Tango, é de Tacuarembó. Os Argentinos alegam que foi na sua Tacuarembó que o "milonguero*" nasceu.  O Uruguaios, por sua vez, atestam o nascimento de Gardel com uma certidão exposta no museu de mesmo nome, na Tacuarembó Uruguaia. Argentino ou Uruguaio, Gardel levou o extremo sul da América para os ouvidos do mundo - marcando este território para além chuteiras, mates e alfajores.

E por falar em alfajores e seus diversos recheios - eis outra disputa entre Argentinos e Uruguaios: o doce de leite. Os amigos hermanos que me perdoem, mas um Conaprole é fundamental. Por melhor que seja o doce de leite na Argentina, o doce de leite que se come no Uruguai é "inolvidable". Assim como  - de um lado ou do outro do Río de la Plata  - são inolvidables as medialunas, o frio que nos identifica como crias do Sul, a hospitalidade, as lutas.

Estou de mala pronta. O destino  - um pouco de mim. 


http://www.descubriendouruguay.com/auc.aspx?154142,1172

* Milonga - baile de tango

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Do que somos

nos demoramos em nossas descobertas
pacientes de nós
tecemos fiapos
viramos retalhos
fragmentos
descompassos

nos demoramos em nossas descobertas
impacientes por nós
bordamos 
criamos 
sonhamos


a vida passa nas nossas demoras
e nos encontramos 
costureiros de memórias

Google Imagens


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 23: do tempo e sua covardia

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. Consome minhas últimas pilhas, me leva adiante com sua pressa sem me deixar piscar os olhos, olhar em volta, respirar fundo, sorver os minutos, ter calma, estar viva e saber disto. Meu relógio não aguentou a pressão, despediu-se de mim para férias sem prazo pré-estabelecido. Disse adeus e me deixou um recado: o tempo se esvai. E se esvai mesmo... 

Eu ando carente de mim, carente de me perceber vida e vivente entre os meus. Eu ando cheia de formulários, protocolos e datas marcadas. Eu ando cheia de leituras obrigatórias e pouco me sobra para o prazer de ler os livros silenciados ao lado da minha cama, de me consumir e viajar por entre estradas imaginadas. Eu ando carente da escuta. Imersa em coisas para fazer - não escuto os passos pela casa, sua poesia e as notícias que batem à porta. A correria tampou os meus ouvidos como uma forma de sobrevivência. É uma necessidade de estar concentrada em mim para não sucumbir a onda que vem atrás - forte e avassaladora como um tsunami.... 

Eu ando carente de mim, de me descobrir com tempo de sobra para as escolhas (as minhas!), para os jantares em família, para as conversas demoradas - olhos nos olhos, boca no ouvido, mãos nas mãos. Ando carente de caminhar sem pressa. De viver cada minuto. O meu tempo é um presente que ando jogando fora...

O semestre se despede com uma avalanche de trabalho. No rádio, Alejandro Sanz canta... "Miras el reloj, faltan 10 y piensas: ¿me da tiempo? (...)Mira cómo corre, qué cobarde es el tiempo".

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 22: das indignações cotidianas

A semana finda com saldo negativo para o nosso país. Se já não íamos para o céu, agora jamais sairemos do inferno. Eis que, na Câmara dos Deputados, os ilustres filhos de Deus aprovaram a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos. Ao invés de escolas, teremos prisões! Senhores, preciso confessar, estes deputados não me representam! Eu louvaria (e até votaria) no sujeito que propõe a anunciar caminhos significativos para a mudança deste país, pessoas sérias o bastante para propor e realizar mudanças na Educação, pela Educação, pelo humano, pela humanização do que viramos. Mas estes que andam por aí colocando celas onde deveriam colocar escolas e salas de aula, colocando grades onde deveriam colocar quadros, cadernos e janelas... estes, meus senhores, estes deputados não me representam. Assim como não me representam as pessoas que tiveram a infeliz ideia de desmoralizar a imagem da presidente criando adesivos ofensivos a sua imagem. Para estes também seria fundamental um investimento significativo nas escolas, pois na escola reconhecemos o papel da mulher na nossa sociedade, suas conquistas ao longo da história, suas lutas e suas dificuldades. Estes inábeis, curtos de ideia, não ofenderam apenas a presidente e sua autoridade, ofenderam a todas as mulheres brasileiras. Para estes, escola de qualidade já! Para os Deputados de nosso país, escolas de qualidade já e, claro, muita oração. Afinal, nem Deus é capaz de perdoar tantos pecados.

A semana finda com saldo negativo para o nosso país.... sem previsão de melhorar!