quarta-feira, 29 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 14: o saber da amorosidade em educação.

A Educação foi tema central de minhas "ruminações" novamente esta semana. Estive elencando saberes necessários ao formador, ao professor de modo geral. Afora os já elencados pelos teóricos mais conhecidos no meio educacional (Tardif, Gauthier, etc) tentei chegar a um que, na minha leitura, possibilitaria a construção de outros caminhos para os espaços educacionais Brasil afora, em muitas (ou quase todas) etapas de ensino: o saber da amorosidade.

O amor a que me refiro aqui não remete ao amor romântico - criação da literatura e sonho (quase) sempre frustrado de muitos que idealizam na vida o que sequer nas novelas acontece. O amor a que me refiro aqui não é permissivo (nunca será!). Eu me refiro ao amor segundo Humberto Maturana. Para ele, o amor não é um sentimento, é um domínio de ações nas quais o outro é constituído como legítimo outro na convivência. O amor visto através da obra de Maturana é central na convivência humana. Se um professor desvaloriza a história de vida de um aluno, seu contexto, se desvaloriza o aluno como sujeito ativo no espaço relacional da escola - o professor não ama este aluno, não o considera legítimo na relação. A recíproca também é verdadeira. Se um aluno não respeita o professor, sua história, sua caminhada - não há amor, não há legitimação da relação, do outro neste processo. Uma escola que vê a todos e não percebe nenhum em suas particularidades não é uma escola amorosa. Sem amor, não há fenômeno social. Isto porque, para Maturana, o amor é fundamento do social e, em não havendo a aceitação do outro, na convivência, simplesmente o social não existe. 

Na educação, nos preocupamos demasiado com o ensino e com a(s) aprendizagem(ns). Ora focamos nossos estudos no professor, ora no aluno, ora no material didático. Poucas vezes centramos nossas investigações (e nossas práticas) no meio do caminho entre o ensino e a aprendizagem: a relação professor e aluno, aluno e professor. Educar-nos  - professor e aluno - para a aceitação e o respeito de si mesmo, que leva à aceitação e ao respeito pelo outro não é difícil, segundo Maturana. O que é preciso ser feito é fazer do espaço relacional - o conversar, o linguagear - um espaço em que não se negue o outro, onde não exista competição, um espaço para a (e de) reflexão. Para isso, porém, é preciso mudar completamente o que temos feito em educação desde sempre, pois se a Educação não leva o aluno ao conhecimento de seu mundo, do seu cotidiano, de seu fazer considerando o respeito e a reflexão como elementos primordiais, a educação não serve nem para o aluno, nem para o país - alerta Maturana. 


Precisamos experienciar o saber da amorosidade. Precisamos trazê-lo para nossa ação pedagógica, vê-lo como componente, como dispositivo para uma educação libertadora, menos punitiva e que proporcione ver no conhecimento de si e do outro e das coisa e do mundo um bem, uma riqueza, inúmeras possibilidades. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 13: das demoras

Na correria dos dias, deixamos de nos perceber senhores de nossa existência. Já não temos tempo para as rodas de chimarrão, para as conversas a beira dos muros, com os vizinhos, já não conhecemos os vizinhos. Já não visitamos os parentes nem somos visitados por eles. O tempo tomou a frente e se empoderou diante de nossas fragilidades. 

Eu ando cansada de não ter tempo. Ando carente do olhar nos olhos, carente das demoras. Saudosa de minha presença (e da dos amigos), já não me percebo em meio as tarefas diárias. Sumi atrás do tempo. Virei fumaça. Risco. Rascunho. Ausência. Em meio as atividades, já não degusto as minhas leituras. Elas são, muitas vezes, um passar de olhos pelo texto, uma efemeridade de informações. Já não assimilo, não rumino. Em meio as atividades, num ir e vir ininterrupto, vejo as minhas crianças (os meus sobrinhos amados) crescerem sem rodas de brincadeiras, sem pega-pega na frente da casa, sem carrinhos de rolimã, sem bolitas, sem esconde-esconde. O tempo nos roubou as suas infâncias... estão moços num piscar de olhos e já frequentam os bancos universitários! Correm... correm os nossos sobrinhos!

Eu ando cansada de não ter tempo. Estou carente, sim, de minhas demoras. De me cozinhar em banho-maria. Estou com cheiro de guardada. Louca para viver meu tempo, estou aprendendo a demorar-me. 
Demorando-me na livraria "El Ateneo", em Buenos Aires.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 12: Como se faz um professor de língua estrangeira? (Continuação)

Na última semana fiquei me perguntando e tentando elencar outros elementos importantes para nos transformarmos em professores de língua estrangeira, para além dos espaços proporcionados para o aprendizado de nossa docência. Por um momento, olhei para a minha história, para a minha caminhada dentro da profissão. 

Tenho a impressão que comecei a me preparar para a profissão ainda na infância quando buscava sintonizar rádios argentinas e uruguaias em um rádio a pilha. As ondas que traziam estas vozes em língua espanhola só começavam a aparecer próximo a meia noite. Eu esperava ansiosa por cada possibilidade. Era um mundo diferente e ao mesmo tempo tão próximo do meu que eu desejava fazer parte. A literatura foi outro caminho que me levou ao encontro com a língua espanhola. Li, reli, devorei literatura de fronteira, literatura do outro lado da linha divisória. Nestes encontros - penso eu - já acontecia a minha formação. 

É tema complexo definir e/ou delimitar a quantidade de saberes necessários para a nossa formação. Sem "esgotar" o "inesgotável" - penso que há dois dispositivos fundamentais para que esta aconteça: o desejo e o comprometimento consigo.

O desejo é o dispositivo primeiro para uma relação de saber com a e na profissão docente. "El deseo conduce al placer, al goce, y no a un objeto determinado, el deseo no puede llevar al goce sino a través de un objeto y, en este sentido, todo deseo es deseo de", explica Bernard Charlot (2008, p. 36). No caso da formação docente, todo desejo deve ser desejo de aprender, de saber os saberes necessários à profissão. Estes saberes são inúmeros - já sabemos - mas um deles é fundamental chamar à baila: o saber da ação pedagógica. Hoje, vivenciamos uma busca intensa pelos saberes específicos e, em muitos casos, nos esquecemos que este é um dos saberes mais necessários à profissionalização do ensino (Gauthier, 1998, p. 34). 

Outro dispositivo fundamental à formação é o que Ferry (1991) define como "trabajo sobre si mismo". Para o autor, formar-se não pode ser mais que um trabalho sobre si mesmo, livremente imaginado, desejado e perseguido, realizado através de meios que se oferecem ou que se procura. Trata-se de um comprometimento do sujeito consigo ao longo do (interminável) processo que é a formação. Parece coisa da psicanálise  - e é! Mas é, também, considerar a docência não mais como vocação e, sim, como profissão. E, dessa forma, buscar conhecimento para o seu desenvolvimento.

Tornar-se professor de língua estrangeira (tornar-se professor de forma geral) não é meramente de um treinamento para a profissão. É algo mais profundo e está para além de possíveis receitas, técnicas e de bancos universitários. Tornar-se professor de língua estrangeira é comprometer-se amorosamente com o processo que é nosso e que é do outro, o nosso aluno. Este amor, para Freire, é a própria Educação.

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Fonte da imagem: http://super.abril.com.br/blogs/planeta/leia-mais-de-graca-e-de-ao-mundo-o-seu-livro-favorito/



FERRY, G. El trayecto de la formación. Paidos: Madrid, 1991.
CHARLOT, Bernard. La relación con el saber, formación de maestros y profesores, educación y globalización. Ediciones Trilce: Montevideo, 2008.
GAUTHIER, Clermont. Por uma teoria da pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o saber docente.Editora Unijuí: Ijuí, 1998.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 11: Como se faz um professor de língua estrangeira?

O caminho que o professor de língua estrangeira precisa trilhar para constituir-se como tal é bastante complexo, pois um professor não se forma da noite para o dia, sequer em cinco anos de graduação. A profissão docente exige um processo de eterna atualização para que o professor esteja apto a acompanhar este mundo em constante mudança, para que consiga ter e dar autonomia aos alunos, para que rompa com o ensino tradicional, ainda focado no preenchimento de lacunas com verbos em infinitas conjugações. O professor de línguas estrangeiras reflexivo, crítico, responsável e amoroso (FREIRE, 2011) não se constitui apenas no espaço sistemático da sala de aula da universidade. Para constituir-se como tal precisa vivenciar o exercício da prática docente. Unir teoria e prática em processos significativos e ininterruptos de reflexão.  
É importante mencionar o que esclarece LEFFA (2006, p. 354) a respeito da docência: “formar o professor e não apenas treiná-lo”, eis o desafio de nossos espaços de formação. É preciso ir além da sistematização de conteúdos, é fundamental colaborar com a formação de nossos alunos na medida em que eles consigam compreender de forma clara “o motivo porque uma ação pedagógica é feita da maneira como é feita, ou seja, há uma preocupação com o embasamento teórico que subjaz a atividade do professor” (LEFFA: 2006, p. 355), afinal, é preciso reconhecer a docência como profissão e não como vocação, aspecto este também presente no exercício de constituir-se professor. Afora isso, segundo LEFFA (2006, p. 355), “quando formamos um professor não o estamos preparando para o mundo em que vivemos hoje, mas para o mundo em que os alunos desse professor vão viver daqui a cinco, dez ou vinte anos. (...) É alertar o futuro professor que o conteúdo que ele esta recebendo agora através dos livros é um conteúdo de valor temporário”.

Para formarmos um professor precisamos ampliar ao máximo a sua possibilidade de experienciar a docência. Com a resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002, os estágios supervisionados passaram a ter destinadas para à prática 400 horas na grade curricular, a partir do início da segunda metade do curso. Embora seja já um ganho significativo à formação, a realidade não compreende este cenário. As atividades de ensino de língua espanhola na rede pública municipal e estadual, por exemplo, são de apenas uma hora semanal. Com apenas uma hora de atividade junto aos alunos o professor em formação não consegue desenvolver-se da forma como poderia, como deveria junto à universidade, frente a sua formação. No exercício efetivo de sua profissão também não consegue desenvolver práticas tão significativas, considerando este contexto.

Donald Schön (apud ANIJOVICH, 2014, P. 15) a respeito disto aponta um caminho oportuno. O autor propõe o “practicum reflexivo”. Este trata-se de um dispositivo que permite ao aluno em formação “aprender fazendo”, aprender a ser professor ante o ensino, aprende sobre o diálogo do professor com os alunos e com a própria prática, aprende sobre a reflexão a partir da ação. Para o autor, a prática docente pode ser ensinada e, consequentemente, aprendida, pois para Schön (apud ANIJOVICH, 2014, P. 15), um practicum “es una situación pensada y dispuesta para la tarea de aprender una práctica. En un contexto que se aproxima al mundo de la práctica, los estudiantes aprenden haciendo, aunque su hacer a menudo se quede corto en relación al trabajo propio del mundo real”.

Dessa forma, um possível caminho para o questionamento inicial deste texto – “como se faz um professor de língua estrangeira?” - seja o de que a formação do professor é um processo dinâmico de desenvolvimento pessoal e profissional e que, portanto, esta formação deva se dar no exercício mesmo de sua experimentação, sempre em um processo de ação e reflexão teórico-prático.  A formação do professor de língua estrangeira (do professor como um todo) se dá no comprometimento consigo mesmo, com seus alunos (sempre projetos de vida!) e com a Educação.


Referencial Teórico:

ANIJOVICH, Rebeca (org). Las prácticas como eje de la formación docente.
FREIRE, P. Educação e Mudança. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 2011.
LEFFA, Vilson (org). O professor de Línguas Estrangeiras – construindo a profissão. 2ª Ed. Pelotas: Educat, 2006.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 10

Taninha,

À Tania Miorando, colega de 
Doutorado em Educação na UFSM.

Fiquei muito feliz ao saber que serias a destinatária de meu relato sobre o filme "O Jogo da Imitação". Quero, desde já, te dizer que gostei muito da produção e que vi conexões entre o relato cinematográfico sobre Alan Turing (para mim, mais que sobre a 2ª guerra, que sobre o Enigma, o filme narrou a vida de Alan Turing!) e as nossas pesquisas, nossa caminhada investigativa pelos caminhos do doutoramento. Assim como o Turing – somos focadas no trabalho, não é?! Algo à moda Mills* – entrelaçamos nossa vida particular e nossa vida profissional. Dia a dia construímos – artesanalmente – nossas leituras e nossas produções em meio a livros, cadernos, quadro, giz, canetas e computadores. Escrevemos nossos medos, incertezas e descobertas em diários virtuais, “postites” coloridos, cadernetas, guardanapos. Viajamos literalmente – nos livros e nos caminhos que nos trazem e nos levam da e para a UFSM.  Como Alan Turing, batalhamos por desvendar os códigos de nossas próprias narrativas. Acredito que neste momento estamos por descobrir a decodificação de sinais que nos levarão a uma produção vindoura. E isto nos salvará não só de Hitler (risos), mas de nós mesmas - e da banca, claro!

Ao ruminar sobre o filme e as relações com as nossas pesquisas, lembrei da obra Odisséia, em especial, da personagem Penélope. Eu me sinto uma Penélope a tecer, dia a dia, os significados das minhas descobertas. Pesponteio e costuro retalhos teóricos a minha colcha diária. À noite, desfio incertezas na espera que Ulisses (a minha tese e a tua também) me salve de outras possibilidades. Acredito que neste tecer e refazer nossas colchas teóricas, nossos ações como sujeitos investigadores do e no campo da educação, estamos nos formando ou, melhor dito, estamos desenvolvendo um trabalho sobre nós (Ferry?**). Para muitos, isto também é uma escrita acadêmica – a que se dá no nosso corpo, cunhado de experiência.

Por fim, queria te deixar um poeminha do Manoel de Barros para lembrares sempre que é preciso abrir janelas, ampliar horizontes, mas nunca deixar a vida passar.



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. 

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio, 
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis, 
que vê a uva etc. etc. 

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.


Abraços, Angelise.



* MILLS, C. W. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009.
*FERRY, Guilles. Pedagogía de la Formación. Buenos Aires: Centro de Publicaciones Educativas y Material Didáctico, 2004.