quinta-feira, 25 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 21: quando parte um paisano

Nico Fagundes foi destes raros homens que deixam história, que marcam a história, que as (re)contam através de escrituras e ruminanças. Com ele, com a sua escrita historiográfica, muito de nossa cultura rio-grandense ficou registrada para além dos costumes, da vivência. Virou material de estudo, de consumo por muitos guris e gurias nos Centros de Tradição Gaúcha mundo afora.
O Nico (e toda a sua família Fagundes) fez da nossa cultura um gosto a ser cultivado. Na contramão das grandes redes - fez da televisão aliada na divulgação das nossas façanhas, da nossa arte regional – ainda que esta divulgação se mantenha fortemente localizada no Sul do país. De bombacha, pala no lombo, lenço e chapéu tapeado levou de mão em mão o mate doce dos enamorados pela arte produzida aqui na nossa casa, o Rio Grande. 
Longe de ser um niilistas dos pampas, Nico Fagundes sempre foi um estudioso de sua prática tradicionalista. Sabia da formação do nosso estado, da história de cada batalha, das danças tradicionais, da comida campeirada, sabia da constituição do gaúcho como poucos sabem hoje neste Rio Grande de Deus. Defendia (diferente de mim) uma matriz lusitana para nossa fundação. Nos fez brasileiros. Fez o gaúcho - de todas as querências - reconhecer-se parte do Brasil.

O Nico Fagundes fará falta para os gaúchos! O ativista Nico Fagundes fará falta para o Estado do Rio Grande do Sul! Fará falta para os gaúchos e gaúchas de todas as querências...


Se foi o paisano. Fechou a porteira de sua trajetória pelos campos do Rio Grande do Sul. Foi viver em outra morada. Quitou sua caderneta na venda da Província de São Pedro e partiu! 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 20: de educação e futebol!

O Celso Antunes já fez suas colocações sobre educação e futebol. No Brasil, o país do futebol, quem já não se arriscou em fazer estas relações, não é verdade?! Eu mesma explicava classes de palavras para meus pequenos do ensino fundamental relacionando-as aos jogadores e posições destes em campo. A gurizadinha compreendia e achava um barato! Nós somos os grandes atores deste campeonato chamado educação...

Como técnica, volta e meia eu me vejo escalando mal o meu time. Eu desarticulo, erro posições, me equivoco com as jogadas, desorganizo a minha planilha. Às vezes, dou uma bola dentro, ganho campeonato! Todo professor tem seus altos e baixos na profissão. Quem não tem? Mas a gente faz uma paradinha técnica, revisa nossas bases, organiza nosso melhor fardamento e entra em campo sempre com a garra de um a camisa 10. A gente acredita em todos os nossos jogadores, no seu potencial coletivo e nas suas individualidades. Nossa equipe é sempre esperança de taça na mão, medalha no peito!

Em campo, os nossos jogadores fazem gol de bicicleta, fazem gol olímpico, fazem falta, erram pênalti, se atrapalham nas jogadas. Às vezes entram em campo, às vezes ficam no banco, às vezes esquecem da bola, nem sempre vestem a camiseta. A gente tenta te todas as formas. Propõe jogadas - da uma pedalada aqui, um drible ali, uma carretilha acolá e a partida se efetiva. A gente dá chapéu na desesperança, faz carrinho na falta de vontade. 

A gente pode ficar pensando em quem sai vencedor deste campo, de quem é o mérito da vitória. Alguns vão dizer que tudo se deve a visão e a atuação do técnico; outros, ao brilho das individualidades; há quem lembrará da importância do trabalho do grupo. Eu diria que, neste campeonato, o mérito da vitória é de todo aquele que se move em direção ao gol, é de todo aquele que acredita que cada passo faz a diferença, que cada cartão, que cada jogada é fundamental. No final das contas - seja de um lado, seja de outro - quem sempre ganha é a Educação!



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 19: de culturas e de intolerância

Estou triste com o que os haitianos têm passado ao chegar aqui no nosso Estado. Estou triste e sou veemente contra qualquer tipo de agressão, de rechaço a cultura deles. Sou contra a qualquer ação que ameace os direitos humanos frente a qualquer nacionalidade, frente a qualquer pessoa, seja da nacionalidade que for. Para estes que andam por aí negando a existência legítima dos outros, em especial dos haitianos, meu pedido de paz.

Ver nos haitianos uma ameça aos empregos no Brasil é de uma ignorância tremenda. Ver isto em um estado fundado na mescla de matrizes  originárias, espanholas e portuguesas, reconfigurado com a vinda de imigrantes alemães, italianos no princípio do século XX (considerando apenas parte dos tantos imigrantes que para cá vieram), é, no mínimo, negar a própria história e origem de quase totalidade do Rio Grande do Sul - um povo fundado da e na mistura de diferentes etnias. Xenofobia não representa o povo gaúcho. O povo gaúcho não é um povo intolerante. O Brasil não é assim.

Estes homens e mulheres que estão vindo para o Brasil são pessoas cheias de história, de vida, de sonhos. Tiveram suas casas, suas vidas destruídas por terremotos, tiveram seus empregos usurpados pelo abalo total de suas placas tectônicas - para além das casas, dos prédios, a economia foi ao chão. Para não perder a esperança, estes haitianos têm saído de sua pátria, viajado dias e dias em condições precárias, têm sido roubados - tudo para buscar uma história diferente para suas vidas. No Haiti, de cada 10 pessoas, 7 passa fome. É de vida que estamos falando...  de uma luz no final do túnel, urgentemente, desesperadamente. 

Para estes que andam por aí negando a existência legítima dos outros, em especial dos haitianos, meu pedido de paz.






quinta-feira, 4 de junho de 2015

Reflexões sobre o viver - parte 18: das culturas

Estes dias deparei-me com um vídeo das conferências TED* que trazia a fala do educador paquistanês Ziauddin Yousafzai, o pai da tão conhecida Malala. A narrativa do pai de Malala faz pensar muito sobre a cultura, sobre as diferentes e as diferenças culturais que existem no mundo. Faz pensar que vivemos um mundo multicultural onde, na maioria das vezes, sobrepõem-se as ditas culturas hegemônicas as demais culturas. Faz pensar o quanto (às vezes) carregamos este discurso em nossas práticas como profissionais da educação!

O vídeo referido, em especial, abarca a realidade da mulher na sociedade paquistanesa. Para ser uma boa menina, nesta cultura, é preciso ser calada, humilde, submissa, aceitando sem questionar qualquer decisão tomada em seu nome. Questionar é romper com o imposto - é tornar-se desobediente. Malala é uma desobediente na sua cultura. Ela estudou, pode lutar por direitos  - os seus e o de muitas mulheres do Paquistão e para além de suas fronteiras. Malala rompeu com o ciclo imposto em seu meio - onde mulheres ano após ano reproduzem os valores,a obediência criada e imposta pelos homens de sua sociedade. O pai de Malala também é um desertor neste sentido. Ele colaborou para que a filha tivesse uma identidade, um nome e acesso à escola. Matricular uma menina paquistanesa na escola é, sim, reconhecer seu nome, sua identidade, é dar luz ao sonho, a vida. 

Ao pensar a multiplicidade de culturas - o multiculturalismo existente no mundo  -  é que me deparo com a seguinte reflexão: precisamos de mais relações interculturais. O mundo intercultural não sobrepõe culturas - ele convive com as culturas. As culturas em um mundo intercultural não se aniquilam - se respeitam, dialogam. Precisamos de um mundo onde o amor exista como uma prática de respeito ao outro como verdadeiro outro na convivência (Maturana). Na cultura de Malala, ela não existe como um outro legítimo. Ela, simplesmente por ser mulher, é rejeitada, não tem voz. Precisamos, definitivamente, de sociedades que valorizem o humano, que se humanizem. Precisamos de uma educação assim também!



*https://www.ted.com/talks/ziauddin_yousafzai_my_daughter_malala?language=pt-br#