sexta-feira, 28 de março de 2014

De ditaduras e silenciamentos

Na maioria das vezes, percebemos que ainda não vimos em vida tudo que é possível ver. E algumas visões são inexplicáveis. Uma destas é o que anda acontecendo pela Coreia do Norte.

Na última semana, a ditadura de Kim Jong-un determinou um corte de cabelo à moda socialista para sua população. Primeiramente, foram liberados dez modelos de cortes diferentes para os homens e dezoito para as mulher. Agora, no entanto, a coisa mudou. Em mais uma demostração de autoritarismo e excentricidade, o ditador decidiu impor o seu próprio corte de cabelo a toda a população masculina do país. 

Com este acontecido, fiquei remexendo os meus botões da memória e selecionando as ditaduras que ainda vivenciamos em pleno Brasil do século XXI. 

Na escola, vi muitas coisas interessantes. No início da cada ano letivo, a ditadora, digo, a diretora lia para toda a comunidade escolar as normas que o ano obrigava a seguir. Nenhuma regra havia sido construída com os alunos, nem mesmo os professores da casa participavam da seleção. Era norma e norma cuidadosamente verificada no dia-a-dia dos pequenos aprendizes. 

A mais tirana de todas estas normas escolares, para mim, sempre foi a do silenciamento (e não vi isso apenas na escola, vi na universidade também). Todos têm que escutar o mestre, todos têm que ficar de boca fechada, todos têm que prestar atenção porque o conteúdo cai na prova. É uma violência sem tamanho silenciar uma criança! 

Na escola, com os meus alunos, eu sempre fui partidária de outras construções. Na minha sala de aula, regra sempre foi o respeito, a alegria, o olho no olho, a amorosidade. Criança que não confia no professor não aprende (quase) nada de bom com ele. 

Em todos os tempos, é preciso aprender a compartilhar carinho, respeito, humanidade. Em tempos de imposição, é preciso aprender a ser grande  - nos pensares e sonhares. E que este sonho não seja moldado por nenhuma mão à moda Kim Jong-un.
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terça-feira, 18 de março de 2014

Obituários em tempos de internet



" Foi poeta, sonhou e amou na vida."
(Álvares de Azevedo, escritor brasileiro)

Que eu sou leitora, muitos sabem. Poucos sabem, no entanto, que sou uma leitora de obituários. Todos os dias, ao abrir o jornal, eu procuro as histórias perdidas, aquelas que jamais voltarão a ser notícia nas páginas do diário. 

Obituário, palavra derivada do latim obitus (falecimento), é o informe da morte de uma indivíduo. Quando se trata da morte de uma pessoa conhecida do público em geral, quando se trata da morte de alguém que realizou algo bem significativo - o obituário traz um longo resumo das realizações feitas em vida. A Zero Hora ainda apresenta estes tipos de texto.

Mas eu gosto dos simples comunicados. Na simplicidade é que a vida acontece. Neles a gente descobre a brevidade da vida. Neles a gente descobre o porquê da existência. Neles a gente descobre que nenhuma existência é em vão. Nos obituários, todo morto é herói. 

Em tempos tecnológicos, as páginas dos jornais noticiam velhas informações. O Facebook e o Twitter são informativos em tempo real. Todo mundo fica sabendo, com detalhes, sobre o ocorrido. 

Nas Redes Sociais, o obituário vira compartilhamento e a página do falecido um mural de homenagens. Nas Redes sociais, por segundos, a vida se eterniza. 

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sexta-feira, 14 de março de 2014

De narrativas, infância e amores

“A narrativa é igual a vida; a ausência de narrativa, a morte. [...] 
O homem é apenas uma narrativa; 
desde que a narrativa não seja mais necessária, 
ele pode morrer.” 
(Todorov)

Meus primeiros contatos com os textos literários foram na infância. Não sei precisar o dia, a hora, o momento exato em que fui levada para este universo mágico que tanto me fascina. Sei, somente, que não sabia ler nem escrever, que abusava da paciência leitora de minha mãe e que tinha ganas, muitas ganas de desvendar o enigmático universo das palavras. Com as palavras, eu seria outra.

Primeiro, veio a poesia e a arte de recitá-las. Depois, embriaguei-me pelas narrativas e nunca mais fui a mesma. À época, livro de cabeceira de criança era Monteiro Lobato. Muitas vezes, fui mais uma criança aos pés ficcionais de Dona Benta. Ainda hoje tenho entre os meus "História do mundo para as crianças", sovado de tanto dormir e acordar entre meus dedos curiosos. 

Hoje, há uma infinidade de títulos que fazem qualquer leitor infanto-juvenil ficar enlouquecido frente a uma estante. Eu fico! Afinal, não perdi o hábito de vasculhar minhas lembranças pequenas, de me perder entre um doce e um verso simples, de ser leitora voraz destes livros feitos com tanto amor. Nesta magia literária, não estou sozinha. Minha sobrinha Maria Eduarda, presente iluminado de minha vida, me acompanha sempre. Com ela, sou leitora, sou narradora, sou feliz. 

Com Maria Eduarda descobri "O passarinho vermelho", de Milton Camargo. Com Maria Eduarda perdi a conta da quantidade de vezes que me debrucei em "111 poemas para criança", de Sérgio Capparelli. Com ela, li "Felpo Filva", da Eva Furnari, li "O Carteiro chegou" e o "Carteiro chegou no Natal", de Janet & Allan Ahlberg. Com ela, todo livro é uma descoberta incrível. Hoje, uma pré-adolescente, ela me mostra que há outros livros além da "Série Vaga-lume".

Não sei precisar o dia, a hora, o momento exato em que fui levada para este universo mágico que tanto me fascina. Sei, somente, que com as palavras eu me tornei outra. Com elas, o caminho ganhou forma e direção. Que as palavras também iluminem o caminho da minha pequena Maria Eduarda. 

Maria Eduarda, Vivi (gata) e eu, Angelise - lendo 
"O Carteiro Chegou", de Janet & Allan Ahlberg.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Contra o Racismo, meu único desejo é a Educação!

"Meu único desejo, meu tema musical, meu diamante, é a educação". Rubem Alves não cansa de escrever isto. Eu não me canso de ler e certificar-me de sua verdade. Minha estrela também é a educação, mas não uma educação firmada somente nas ciências. Educar é outra coisa. "O educar se constitui no processo em que a criança ou o adulto convive com o outro" (Maturana). Educar é ensinar a ver e aprender a ver com o outro, respeitando as individualidades. Educar é um ato de amor*.

Quando vejo notícias como as do jogo do Esportivo contra o Veranópolis, pelo campeonato gaúcho, onde, mais uma vez, um trabalhador brasileiro foi vítima de racismo - penso que a educação falhou. Não a educação do senhor Márcio Chagas da Silva, árbitro de futebol. Mas a de quem o discriminou. Não a educação escolar, mas a familiar, a humana. 

Maturana em "Emoção e Linguagem na educação e na política" (p. 30) aponta que se o indivíduo não pode aceitar-se e respeitar-se, não pode aceitar e respeitar o outro. É bem provável que quem agrediu o melhor árbitro do Gauchão passado não consiga reconhecer-se, respeitar-se, visto que não consegue reconhecer e respeitar outro ser humano  - tão digno de respeito quanto qualquer homem deste universo. A educação falhou com ele. Com ele, o exercício de aprender a ver o mundo foi rasurado, "os olhos ficaram zeros"**. 

E para esta cegueira não há campo de futebol, não há copa do mundo, não há incentivo financeiro que torne visível outro cenário. O governo não tem culpa, a cidade de Bento Gonçalves, palco do último episódio racista do futebol, não tem culpa. Dinheiro, política e estrutura não educam. Pessoas (se) educam. É nas relações que os homens se humanizam. 

Contra o Racismo, meu único desejo é a Educação!
Porque, afinal, o poetinha já versejou...

"Se as coisas são inatingíveis, ora!
Não é motivo para não querê-las
que triste os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas". 
(Mário Quintana)

Imagem retirada do sitio:
http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/11/minhas-reflexoes-no-dia-de-consciencia.html

* Amor para Maturana não é um sentimento, é um domínio de ações nas quais o outro é constituído como legítimo outro na convivência.
** Prado Veppo, poeta Santa-mariense.

Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...