quinta-feira, 25 de setembro de 2014

POEMA ANTROPOFÁGICO

O poema me engole
mastiga minhas entranhas
de mim, leva
o vento para 
o contraponto do verso.

Mais forte
o poema move a tinta
no branco do papel.

Se inscreve, me escreve, me revela
come minhas mazelas
e vai para o rodapé ruminar incertezas.



Antropofagias, parangolés e educação

Contam por aí que Oswald de Andrade não tinha pensando em uma teoria dos trópicos quando escreveu o Manifesto Pau-Brasil. Foi com Tarsila do Amaral que a Antropofagia veio à tona como proposta de Oswald, a fim de repensar a nossa escrita, o nosso fazer literário, buscando uma língua e uma literatura não-catequizada, definitivamente nossa. 

À sua época, com os mesmos ideais de Oswald - na busca por pensar e repensar algo a partir de nossas proposições, para nosso contexto, sem modelos pré-estabelecidos, Hélio Oiticica - pintor, escultor, artista plástico e performático  - criou o Parangolé. Uma arte feita no corpo, com o corpo - onde há uma incorporação da obra com o autor, onde todos podem colaborar, saindo da cadeira de espectador, agitando-se como partícipe da criação. O Parangolé é a arte da liberdade de criação - no não estabelecido - da múltiplas possibilidades, do exercício da participação.

Na educação, precisamos nos apropriar deste "Parangolé Pedagógico". É preciso proporcionar espaços onde os alunos sejam artistas de suas práticas, onde possam tomar decisões a partir de reflexões claras e coerentes realizadas no espaço da convivência. É preciso proporcionar espaços de buscas, de desapego aos modelos, de pensar o local, o nosso universo na prática pedagógica. É preciso que nós, professores, também nos tornemos artistas, autores de nossas ações. É tempo de nos apropriarmos de nossa arte, de propormos reflexões antropofágicas a partir de todas nossas leituras, de todas nossas práticas, retirando o melhor de nossas reflexões, de nossas relações, nos tornando mais fortes frente aos desafios de caminhar em mapas ainda não definidos. Para a nossa Educação, nossos sonhos.
http://modovestir.blogspot.com.br/2008/08/parangols-de-oiticica-clique-aqui.html#.VCS4IWddV8E 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Em tempo de Semana Farroupilha

A relação que cultivo com a poesia é de berço. Alguns dirão, genética, porque sempre algum "Fernandes da Silva" carrega um verso e uma prosa dentro de si - isso é assim desde o Vô Pedro e da Vó Noemia. E assim foi. Em mim, o verso veio cedo. 

Comecei a declamar poesia antes mesmo de ser alfabetizada. Para decorar um poema, minha mãe tinha que decorá-lo também. Lia verso por verso para que eu aprendesse, para que eu compreendesse bem e desse veracidade para a interpretação. Aos quatro anos eu já participava de concursos de declamação pelos CTGs de Santa Maria.

Meu pai, sempre preocupado com minha formação humana, a cada apresentação que eu realizava, me explicava veementemente antes de entrar no palco: "o importante, minha filha, não é ganhar, mas participar". E eu participava com o melhor de mim.  

Em meio aos festejos da Semana Farroupilha, lembro-me disso, lembro-me da minha família, das minhas memórias mais sagradas. Participando dos Centros de Tradição à época aprendíamos coisas significativas para nossa trajetória de vida. Aprendíamos a respeitar a nós mesmos e a respeitar aos outros como verdadeiros outros na relação. Que os festejos de nosso tempo presente sejam de reflexão e de respeito mútuo, para jamais perdermos a poesia que nos aproxima, a musicalidade que nos embala.

 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Já é tempo de evoluir para além do apego histórico

Como muitas famílias do Rio Grande do Sul, a minha participou por muito tempo de invernadas e patronagens dos Centros de Tradições Gaúchas. Meu pai foi patrão de CTG, minha irmã prenda juvenil, adulta, regional. No CTG, aprendi a declamar e a participar de eventos culturais. Li muito sobre a história e a cultura do estado, sobre os feitos que nos formaram enquanto tipo social sulino, porque para o pai, importante mesmo era saber o porquê se estava ali, o porquê se usava aquela indumentária e por aí vai. Na nossa casa, niilismo dos pampas nunca ganhou espaço. Ou sabia o que era ser gaúcho ou não participava da entidade. 

Para além da entidade, na minha casa, assim como em muitas casas do Rio Grande do Sul, o respeito sempre esteve em primeiro lugar. Respeito ao próximo, às preferências (a todas!), ao indivíduo. Não nasci em um lar que não me orientasse para o bem e para o respeito ao direito primeiro - o direito humano. 

O evento ocorrido recentemente em Santana do Livramento é triste. Incendiar um CTG por conta do espaço realizar um casamento coletivo em que abarca todas as realidades da nossa sociedade é lamentável. E logo em 11 de setembro, dia que marca historicamente a luta de nosso estado por "liberdade, igualdade e fraternidade". Em 11 de setembro, com estes ideais, Souza Neto proclamou a República Rio-grandense. Ideais estes que deveriam ser prática na casa de muitos  não só no nosso estado, mas para além das nossas fronteiras. 

Escutei, esta semana, que o Rio Grande do Sul, por conta dos últimos acontecimentos - o incêndio no CTG e o insulto da torcida do Grêmio ao goleiro Aranha, do Santos - está sendo conhecido como um estado racista e homofóbico. Propaganda negativa que só se reverte com educação. Mas não uma educação formal, de responsabilidade da escola. Uma educação na e para a família. Uma educação para o respeito, sobretudo uma educação humana. 

Eu respeito muito a cultura do estado. Mas já é tempo de evoluir para além do apego histórico. É tempo de ser grande na forma de se relacionar com o mundo. Só assim "nossas façanhas servirão de modelo a toda terra".

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

(Continente)

(Continente)

Angelise Fagundes

me tornei refém dos teus beijos
onda inquieta no teu corpo continente

 - poeta insone - 

em noites de não ser me encontro em ti
eu, aos pedaços,
recomponho-me em nossa cama
aconchego de abraçar carências

na noite-estrela - sou guia
guiada por ti
no teu peito-leme
horizonte inflamado
acariciado pelo castanho dos olhos meus
esverdeados pelos teus

me tornei refém dos teus beijos-conscientes
concentrados em nós
na volúpia de abraços quentes
aconchego cálido das minhas descobertas

me tornei refém dos teus mistérios...

com os pés no chão me tornei refém dos meus desejos
sucumbidos aos teus beijos
recanto de minh'alma atroz.

Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...