sexta-feira, 30 de maio de 2014

Conversas sobre Educação

           Semana passada escrevi nesta coluna uma frase do prof. Valdo Barcelos, professor da Universidade Federal de Santa Maria. Ele afirma que “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano” (2013, p. 24).
Pensando nesta afirmação, acredito que esta incorporação em se tratando de ensino deve começar pelo olhar (e pela linguagem) amoroso(a) do professor, “pelo amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador” (Morin: 2007, p. 71). Deve começar com o professor sendo (ou retornando como o) “o centro da pedagogia, não )o seu) apêndice”, como coloca Arroyo (2011, p. 10), pois é preciso deixar de ver o professor “como recurso”– seja ele da etapa de ensino que for. 
É preciso, como coloca Arroyo (2011, p. 10), que se “recupere a sua condição de sujeito da ação educativa junto com os educandos”. Afinal, é nas nossas relações, no nosso conversar, como propõe Maturana (2004, p. 31) que nos humanizamos, que nos mostramos como humanos e que temos condições de modificar a nossa cultura.  
É preciso então que a universidade volte-se para estas questões que vêem a educação como um processo de construção humana. Que os cursos de licenciatura, em especial, agreguem a sua formação elementos significativos à prática docente, no sentido de preparar os futuros professores para o exercício compromissado de sua profissão, no sentido de preparar estes futuros professores para, através de suas linguagens e ações – com o seu linguajear[1] - contribuir de forma mais efetiva (e humana) para as modificações necessárias à cultura educacional que vivenciamos. 
Que a formação docente para estes professores seja impregnada de conhecimento sobre o emocionar, sobre o amor – emoção esta que, na visão de Maturana, funda o social. Que na formação docente destes professores seja possibilitada a reflexão sobre as relações humanas para que, aos poucos, possamos ir vendo as transformações também nas escolas. Para que estas, como afirma Barcelos (2013, p. 28), surjam como “espaços de criação, de invenção e de incentivo à espontaneidade em detrimento da cópia, da imitação e da violência simbólica e física que, infelizmente, ainda se fazem presentes no cotidiano de nossos espaços educacionais”.




[1] Termo cunhado por Maturana (2004).

REFERÊNCIAS:

ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: Imagens e Auto-imagens. Petrópolis. VOZES, 2011.

BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos: contribuições da Antropofagia Cultural Brasileira.  Rio de Janeiro. VOZES, 2013.

MATURANA, R.M.; VERDEN-ZÖLLER,G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo. Palas Athena, 2004.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

De autópsias, poesias e práticas pedagógicas

                                          Uma parte de mim é permanente:                                                                                                      outra parte se sabe de repente
                                                         (Ferreira Gullar )

Descobri tarde as coisas que não gostava na escola e na universidade. Aprendi tarde a ter voz de dizer verdades. Descobri, por exemplo, que não nasci para autopsiar poemas. Eu os quero inteiros, imprimindo mil nuances as minhas interpretações. Não os quero repartidos. Não os quero pela metade. Não os quero pela boca de outros, mastigados.
Na escola, me perguntavam o que o poema dizia. Eu nunca tive coragem de dizer  o que o poema dizia. Para mim, o poema flutuava em minhas mãos, era portal. Não dizia. Me olhava, me espreitava. Mas o que pensava sobre o poema, não estava escrito no livro do professor. Então... 
Na universidade, para alguns professores, nenhum aluno era capaz de autopsiar um poema. Para eles, não éramos capazes, não conseguiríamos nunca. Poesia era um bem próprio para doutores examinarem (risos). Descobri tarde que eu não queria autopsiar poemas, pois não nasci para ser professora legista.
Em muitos momentos vivenciei práticas de tortura emocional em plena universidade pública – alunos de graduação sendo açoitados verbalmente porque não davam conta de modificar toda uma cultura educacional brasileira, afinal, não vinham para a universidade e seu academicismo recheados de leitura clássica. Para estes encontros, além da falta de envolvimento docente com a aprendizagem dos alunos, no sentido de prepará-los para a escola, faltava amor. Não só o amor pela própria arte que se trazia para o universo da sala de aula, mas fundamentalmente o amor ao humano, bem no sentido cunhado por Humberto Maturana.  
O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social. Por isso, digo que o amor é a emoção que funda o social. E sem a aceitação do outro na convivência, não há fenômeno social. (MATURANA, 2009, P. 23 E 24)

Este amor que é uma tarefa do sujeito para Freire era a própria educação. Para ele, “quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar” (Freire: 2008, p. 36).  É uma pena que, como afirma Barcelos (2013, p. 24), “em educação ainda tenhamos muitas obviedades que precisam, realmente, ser incorporadas em nosso fazer educativo cotidiano”.

Que, em educação, não autopsiemos nossos sonhos... nem o de nossos alunos!
"que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio (...)
porque metade de mim é amor
e a outra metade também" (Oswaldo Montenegro)

Imagem retirada do sitio:
http://encruzilhadasliterarias.blogspot.com.br/2013/01/atencao-escritores-alencriativos.html

REFERÊNCIAS:

FREIRE, P. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. UFMG, 2009.
BARCELOS, V. Uma educação nos trópicos - contribuições da antropofagia cultural brasileira. Rio de Janeiro. VOZES, 2013.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

De reconstruções



Quando eu viajo para outro lugar, gosto de ver a história marcada nos espaços públicos. Gosto de ver o passado reconhecido e respeitado no presente. Gosto de ver o passado como parte do presente na vida das pessoas.

Na Argentina, sempre me chamou atenção as manifestações das mães de maio, na Plaza de Mayo, em frente a casa do governo. As (agora) abuelas de mayo nunca deixaram o passado esquecido no tempo. O passado marcou profundamente a vida de cada uma destas mulheres, destas mães, destas avós. Está lá estampado em cada manifestação e marca a identidade do povo argentino.

O passado enquanto patrimônio arquitetônico é bem maior em muitos recantos de nosso Brasil também. Muitas cidades têm sua história nas ruas, preservada. No sul do Rio Grande do Sul vemos a promissora época de outrora nos prédios e praças de Pelotas, de Piratini, de Jaguarão. Em Porto Alegre, no centro da capital em especial, o passado corre paralelo a modernidade que se apresenta. O passado marca as identidades.

Se pensarmos a escola, o passado segue marcado de forma profundamente enraizada. A estrutura escolar em forma de carteiras, quadros e gizes segue intacta. Ainda não temos um presente que olhe efetivamente para este passado e se transforme em nova história. Não temos ainda um presente mudando (efetivamente) nossa forma de viver a educação. Meus olhos de educadora andam tristes neste sentido....

Esta semana os professores municipais, em São Paulo, saíram as ruas para reivindicar melhores salários. Cerca de 5 mil docentes colocaram a cara na rua para dizer que não estão satisfeitos com o que ganham, para dizer que precisam ser ouvidos. E precisam ser ouvidos urgentemente há anos.

Em um país onde todos querem dar pitaco na educação, é preciso ouvir os educadores. E ouvi-los para além de seus gritos por dignidade salarial. Em um país de tantas desigualdades, é preciso ouvir os professores falarem sobre o que realizam nas escolas que têm, com o pouco que têm em termos estruturais, em termos pedagógicos. Em um país que teima em fazer de suas manifestações atos de vandalismo - é preciso dar voz aos mestres. 

Google Imagens
É na educação que o Brasil acontece... É pela educação que precisamos nos mobilizar para criar um novo presente, para viver um novo futuro - sem jamais deixar de olhar criticamente para trás, observando nossa história, nossa caminhada, nossos equívocos. Afinal, somos hoje o passado que construímos. É preciso caminhar em educação sem  precisar bloquear a avenida Paulista e/ou a rua da Consolação.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Maio, mês feminino



Para Maria, Elisangela, Maria Eduarda, 
Aline, Antonia, Djalma, Marcia e Brenda

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a". Quinto mês do calendário gregoriano, seu nome deriva de uma deusa romana, Deusa da Fertilidade. Outras versões, apontam a origem à deusa Maya, mãe de hermes, o mensageiro.

Independente de sua filiação etimológica, maio é o mês que me faz lembrar o quanto nós, mulheres, desenvolvemos um papel de fundação, de pilares fundamentais em nossas família, na história, na educação de forma geral.

Na literatura, Malinche foi figura fundamental para a concepção do primeiro mexicano. No Brasil, Iracema e seu filho Moacir - cruza de índio com português -  abriram espaço para nosso mito fundador da brasilidade: uma mistura em tons de terra, céu, sol, mar e idiomas. No sul, Imembui cumpre este papel literário de conceber a vida e o amor em tons de poesia. Ao lado de Morotin deu a luz ao primeiro santamariense. 

Na vida da gente encontramos também estes mitos fundamentais. A mãe da gente é este mito fundador dos nossos lações familiares. Da nossa vida! Minha família existiu primeiro no ventre de minha mãe, casa compartilhada entre mim e meus irmãos. Foi ela, a dona Maria, que preparou o espírito e abriu as portas do corpo para que existíssemos. Sem ela, nem Aroldo, nem Elisangela, nem Angelise. Dela, novas famílias dão vida a vida da gente. Com ela, novas mães agregam-se ao nosso universo feminino de gerar vida, o homem, o humano.

Maio é um mês feminino. É um mês que se espraia poeticamente em "a".

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao Pacheco com amor...

Esta semana eu realizei um sonho de leitora, conheci o escritor José Francisco de Almeida Pacheco. Esta semana eu realizei um sonho de educadora, conheci o professor José Francisco de Almeida Pacheco. Pessoa simples, o Zé da Ponte abriu sua fala no 3º SENID (Seminário Nacional de Inclusão Digital), em Passo Fundo, com um convite ao diálogo. Diretamente nos indagou sobre as perguntas que teríamos para fazer a ele, porque ele não estava lá para dizer nada, mas para conversar conosco.

Eu sempre fui do diálogo. Inquieta, sempre quis me posicionar. Na escola, quando cheguei como professora, o que eu mais queria era poder dialogar, aprender em um sistema de compartilhamento. Conversar em um nível pedagógico - sonhar, planejar, realizar. Inúmeras vezes, durante a fala de Pacheco, eu desejei perguntar o porquê de tamanha falta de diálogo nos espaços de ensino Brasil afora: falta de diálogo entre os professores, com a comunidade, com os pais, com os alunos. Há um silenciamento que me angustia profundamente. 

Livre das verbas e das políticas governamentais, o Pacheco realiza o Projeto Âncora aqui no Brasil. Disse ele que cansou de ouvir dos colegas que o escutavam nas inúmeras falas que realizava pelo país que os sonhos que ele colocava em prática só eram possíveis em Portugal, no primeiro mundo. "Ora pois", então ele veio fazer educação aqui. Faz educação com a comunidade, com as pessoas. Na sua escola todos são bem-vindos a construir um espaço de interação e de aprendizagem mútua. É lindo de ver!

Contou ele que há quase quarenta anos, na Escola da Ponte, em Portugal, um aluno apareceu na escola todo desgrenhado, sujo. Ao chegar, o professor Pacheco indagou sobre o que havia acontecido com ele. O rapaz contou que no barraco que ele morava não havia luz e que durante a noite a irmã dele havia gritado muito, por horas. Pela manhã, quando o sol despontou, descobriram o motivos dos gritos da menina: os ratos haviam comido uma de suas orelhas. Diante da história de Nelson, o professor Pacheco disse ao rapaz que talvez tivesse sido melhor ele ter ficado por casa, já que a família precisava dele. O garoto, então, respondeu ao Zé da Ponte que estava ali porque precisava estar, porque quando saía de casa para ir a escola, sentia algo dentro do peito que mais parecia ser alegria.

Alegria... e disse tudo!

Durante mais de uma hora eu me emocionei inúmeras vezes com histórias como a do Nelson. Sonhei uma escola como a do Pacheco para os inúmeros alunos que já tive. Sonhei uma escola assim feita pelos meus alunos; que eles façam uma escola assim amanhã - uma escola de alegria, firmada nas relações humanas, no amor. Porque, já me contou o professor José Pacheco que o "professor não ensina o que diz, ensina aquilo que é". Que sejamos feitos de amor, porque "para a educação vamos por dois caminhos: ou por amor, ou por vingança. Ficamos por amor, o amor de Varela, de Maturana, de Freire - estes maravilhosos latino-americanos" (Pacheco).




Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...