segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"E se vão os anos..."

Há vinte e dois anos meus últimos dias de cada ano me levam à infância.
(...)


Como todos os anos, nós colocávamos a vida no chevette branco do meu pai e íamos passar as férias escolares na nossa casa de veraneio, no Passo do Angico. No bagageiro, ia nossa televisão caixa de abelha - e todas as suas histórias e imagens. Atrás, pendurada ao carro - minha supermáquina era companhia garantida. Malas, potes, panelas e muita música animavam nosso caminho até São Pedro do Sul, terra natal do meu velho.

Como eu não largava meu pai, era sempre companhia das viagens, enquanto que minha mãe e minha irmã se aventuravam no Linha Canoa. Era incrível! Era um tempo em que o asfalto ainda não tinha chegado completamente na faixa de São Pedro e nós, muitas vezes, nos embretávamos pela estrada de Canabarro, pela Igrejinha do Divino. 

Consigo ainda escutar a risada do meu pai. Consigo ver o seu rosto e os seus olhos. Jamais olvidei os conselhos dados as voltas do Toropi, entre joaninhas e lambaris: "estuda, minha filha, estudo é a única herança que poderemos te deixar". Eu segui o conselho a risca!

Lembro com carinho de muitas histórias, como a do céu ser a lona preta de Deus. Esta é linda, sensível e poética - como meu pai! Lembro de minha coleção de minicopinhos de massa de tomate - todos comprados na cooperativa; lembro das lavouras de milho e da torcida do panelinha; lembro das festas no bar da tia Ivani e do tio Erton; dos bailes de carnaval. Seu "Nesto" e seu "Rosa" também fazem parte desta bagagem...

Muita vida vivida em apenas oito anos de convivência que marcaram significativamente minha existência. Com o meu pai eu pude ser outra; sem o meu pai eu precisei ser outra. E aqui estou eu, certa de que segui um caminho bom, certa de que ele, mesmo de longe, soube ser meu guia, minha luz.

Há vinte e dois anos meus últimos dias de cada ano me levam à infância. Que bom ter tantos motivos para sorrir!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

"Voa, o tempo voa, voa meu amor*"



Adoro final de ano, pois é sempre tempo de limpar as poeiras do armário da alma. Nesta época, temos a tendência a olharmos um pouquinho para nós mesmos, para nosso caminho trilhado ao longo do ano. Na televisão vendem isso como retrospectiva. Eu vejo como vida, como conquista diária. 

"Voa, voa - o tempo voa, voa meu amor"*.

Este 2013 foi um ano especial. Na minha memória do vivido, só lembro de coisas boas que aconteceram. Este ano fui à Bahia e viajei pela primeira vez de avião. iFue inolvidable! Este ano foi ano de feira do livro, de rodas de conversa na praça e encontros de apagar saudades. Este ano foi um ano de mudar de trabalho, de mudar de casa. Alguns dizem que agora sou uma mulher casada - eu simplesmente acho que agora firmei um laço mais profundo de amor, de união, de companheirismo, de amizade. 

"Voa, voa - o tempo voa, voa meu amor"*.

Este ano foi um ano de notícias boas. Como professora, recebi o melhor que a profissão pode me dar - o reconhecimento dos meus alunos. A turma de Itaqui me convidou para patronesse e isto marca a minha história profissional significativamente. Meus alunos são muito amados! Este ano foi de crescimentos profissionais, de muita aprendizagem. 

"Voa, voa - o tempo voa, voa meu amor"*.


Não bastasse tantas conquistas, tantas maravilhas - 2013 trouxe a Antonia e a Brenda. Aí, o coração ficou radiante. Com elas, a família terá dois bons motivos para viver melhor. Este foi um ano de ver meus sobrinhos crescendo, meus irmãos prosperando, minha família bem. 



Que venha tempo ainda melhor, tempo de realizar sonhos e construir futuros. Tempo de ser quem se é, de coração aberto!

"O relógio move o tempo e faz bater meu coração (...). 
 Voa, voa - o tempo voa, meu amor (...) 
É que muita coisa boa vai ficando para trás".


Feliz 2014!

* O Tempo Voa - Kleiton e Kledir

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mais um Natal bate à porta

Mais um Natal bate à porta. É dezembro outra vez. Outra vez me pego pensando no capitalismo que virou as nossas festas de final de ano. No exagero das mesas cheias e das mesas vazias e no vazio das relações. Não há meio termo. 

Em outras épocas, nesta época, eu já teria preparado meu banquete de sonhos diários para o próximo ano. Já teria comprado os regalos dos amigos, o mimo dos sobrinhos. Desta vez, não fiz nada disto. Meu tempo foi capitalizado também. E assim, estou presa as minhas tarefas de tal forma que produzo o tempo todo e pouco me resta para viver. O trabalho virou nossa escravidão moderna. É o exagero do não viver. 

E, em meio a este turbilhão diário, nos prendemos pouco ao essencial, as minucias da vida. O exagero é uma perda enorme que não damos conta. É preciso ater-se aos encontros, aos sorrisos, aos abraços, as rodas de conversa. Rechear a mesa e endividar-se para o ano que inicia não resolve nossos problemas. Viver resolve nossas faltas. Conviver resolve nossas carências. É preciso encontrar o caminho do meio e buscar/criar as oportunidade de ser feliz hoje.

Mais um Natal bate à porta. É dezembro outra vez. Outra vez me pego pensando no capitalismo que virou as nossas festas de final de ano. Mas este ano farei diferente. Este ano eu serei ainda mais feliz, sem exageros à mesa, sem exageros nas compras. Importante será estar com as pessoas, olhar nos olhos dos meus, encontrar o encantamento de nossas charlas, o burburinho das crianças e a alegria imensa de estar junto da família. Para o próximo ano, vale a receita de Drummond...


(...) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações (...)
Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo (...)


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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

De liberdades e andorinhas



A vida sempre encontra um jeito de nos surpreender. Cada dia sempre estamos predestinados as surpresas das inesperadas volteadas de coxilha. Os ventos sopram e as coisas acontecem.

Na última semana, fui acometida de uma doença que jamais esperada ter aos trinta anos - caxumba. A danada foi chegando de mansinho, tomando conta do meu corpo e me colou de resguardo sete dias ininterruptos. Foram sete dias trancafiada em casa...

Eu nunca fico doente. Nunca sou de me queixar! Quando criança, cresci na liberdade das ruas (outrora) calmas da minha vila, corria invernadas imaginárias nas minhas fazendinhas de faz de conta. Eu sempre fui de voar. E a liberdade sempre foi a conquista mais almejada.

Ser livre é poder decidir o próprio destino, sendo protagonista e devedor das próprias decisões. É crescer do acaso inesperado; do trabalho objetivo; da vontade de ser gente grande. Ser livre é saber escolher recolher-se na calmaria das horas, na companhia de quem se ama... liberdade é não ter pressa pelo amanha!

A vida sempre encontra um jeito de nos surpreender, sempre encontra uma forma de nos colocar a par da história, da nossa história, dos caminhos que construímos, dos que escolhemos. Eis que ao chegar em casa meu companheiro apresenta o mais novo membro da família - um filhote de andorinha que se perdeu do ninho. Desconfio que haverá verão... 





sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

É preciso acreditar, pelos nossos meninos...é preciso acreditar!

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Há tempos, na universidade, discutindo acerca dos novos tempos e da educação, olhei um vídeo* de um menino, com cerca de dez anos, que perguntava, com veemência, se a pessoa que o assistia tinha certeza de que poderia ser sua professora.  Ele estava em uma sala cheia de aparatos tecnológicos e conseguia, com sua pouca idade, manipulá-los com tranquilidade, com precisão.  Ele tinha certeza que poucos poderiam orientá-lo neste sentido. Ele questionou, pegou pesado, impressionou.

Não por acaso lembrei-me deste vídeo esta semana – semana esta marcada por novas questões envolvendo os políticos do mensalão. Pensei que algum menino deste país poderia ter a coragem de fazer um vídeo assim para os políticos que estão aí, com um currículo pouco desejável para merecerem nosso voto, nossa confiança e nossas últimas gotas de esperança. Queria ver um menino deste país, fruto da educação pública brasileira, revoltando-se (positivamente). Queria vê-lo mostrando sua escola, suas condições de estudo, as formas como é incentivado a aprender e perguntando ao ilustre, que é tratado nos congressos por aí afora como vossa excelência, se este merece o seu voto, se este merece representá-lo, se este tem condições de estar no cargo em que está.

Um país que precisa discutir tanto e problematizar tanto para investir em saúde e educação (lembremos o pré-sal); um país que tem (diariamente) como manchete principal em todos os seus telejornais escândalos de corrupção – precisava de um menino corajoso que fale, que pergunte:  - você acha que pode me representar? Você acha que pode ter o meu voto?

Nosso país, menino que é, precisa aprender enquanto é tempo os valores importantes da honestidade, do respeito, etc.. Precisa ter a coragem de crescer com passos firmes para ser, de fato, gigante. Afinal, um país que segue ano após ano nas últimas posições no ranking do ensino de matemática, de ciências, um país que está nas últimas posições em se tratando de compreensão leitora – algo de errado tem.

É preciso ter a coragem dos pequenos, destes meninos do nosso país que seguem batalhando por uma vida melhor. É preciso não sucumbir diante da realidade que temos. É preciso batalhar por outros caminhos, construir outro panorama. É preciso acreditar, pelos nossos meninos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Chega de politicagem - eu quero política feita com verdade!

Há tempos que perdi a vontade de falar de política brasileira. Há tempos não tenho vontade de discutir sobre isso nas rodas de conversa, em sala de aula, com os alunos. A nossa política ensaboou, ficou escorregadia, virou politicagem. Hoje, não há (ou há raríssimos) político que tenha uma imagem (e seja de fato) confiável a ponto de nos posicionarmos favoráveis a ele, de corpo e alma. 

Eu já sou de um tempo apartidário. Na casa que cresci nunca existiu bandeiras. Sempre se falou em buscar o eleito pelo currículo público deste, levando em conta, realmente, o que este tinha feito de bom e o quanto não havia comprometido-se com as barbaridades que existem no meio. Este sempre foi o meu caminho: votei em pessoas.

E, olha - está difícil demais! Há muito interesse e só lembram da gente quando este interesse é realmente um benefício. É a lei do manda quem pode e obedece quem não tem consciência do que realmente trata a política. Uma hora, é tempo de dizer basta! 

O meu basta foi esta semana! Há dias vejo pelas redes sociais, pela televisão as figuras do mensalão tentando fugir descaradamente da cadeia. Chegamos ao ponto do mensalão pai, José Dirceu, conseguir um emprego com carteira assinada em um hotel no qual receberá cerca de 20 mil reais, salário este maior que o da gerente do estabelecimento. Chega, não! Chagamos ao ponto de um cidadão com a história de José Genuíno tentar burlar o seu estado real de saúde - e a saúde mental e emocional do povo brasileiro - para não cumprir seus 6 anos e 11 meses de prisão. Com todo respeito que tenho aos doentes, chega!

No Brasil que temos, vai preso quem rouba um frango para matar a fome da família. No Brasil que temos, raras pessoas conseguem ganhar 20 mil ao ano. No Brasil que temos as pessoas morrem na fila do SUS. No Brasil que temos, corrupto está solto, trabalhador não tem onde trabalhar. Basta!

A partir de hoje fica declarado que todo político de plantão terá que merecer o meu voto. E merecer não é tentar ludibriar-me com palavras bonitas e discurso vão. Isto é feio e já não serve mais! Eu quero ações, meus senhores! Eu quero honra! Eu quero retidão! Eu quero respeito com o povo que eu faço parte! E depois disto - eu quero que faça valer a pena nos representar publicamente. 
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sonhar não custa nada

Em 1992, o carnaval da Mocidade Independente de Padre Miguel invadia a Sapucaí com o refrão "sonhar não custa nada e o meu sonho é tão real". Com letra de Dudu Nobre, a escola não foi a campeã daquele ano, mas deixou registrado o samba-enredo em nossa memória musical. Seguimos sonhando com sua melodia, com seu convite à vida.


O sonho sempre fez parte de minha existência. Sou declaradamente sonhadora. Sonhei escrever poesias,  publicá-las em livros, sonhei fazer faculdade, especializar-me, estudar no exterior. Sonhei encontrar um companheiro, ter paz de espírito, ter minhas coisas. Sonho em crescer profissionalmente, sonho aprender mais, sonho viajar, conhecer pessoas, fazer amizades, sonho manter as pessoas por perto, sonho ter meu lar, minha família... sonho ter minha casa, minha biblioteca, meu refúgio particular. Todos os dias me permito sonhar! O Sonho me alimenta!

Esta semana, selecionando material para minhas aulas na universidade, encontrei um curta-metragem argentino muito interessante. "El vendedor de Sueños"* nos mostra, em poucos minutos, o quanto as pessoas, acostumadas com as tarefas do dia-a-dia, acostumadas a seguirem a corrente, deixam de sonhar, tornam-se frias diante das possibilidades de realização, desacreditam. Dá o que pensar esta produção!  Pedrito, que segue o caminho de sua avó, acredita que vende sonhos. Ele convida os passageiros do transporte urbano de Buenos Aires a pararem apenas dez segundos para pensarem em seus sonhos. 

Esta semana, convidei minhas alunas a sonharem. Sonhamos juntas. Hoje, convido os leitores. Vamos, que custa? Apenas um sonho para este final de ano que se aproxima...para o próximo ano que virá. É preciso se permitir!

Afinal, em 1992, a mocidade não ganhou o carnaval, mas alimentou seu sonho durante quatro anos. Ela foi a grande campeã de 1996 com o tema "Criador e Criatura". Criemos hoje, então, para isso "deixe a sua mente vagar, não custa nada sonhar".


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*Curta-metragem: http://www.youtube.com/watch?v=0udJVDyC0M4

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

De tempos e descobertas

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Demoramos muito para nos descobrirmos. O tempo é um amigo impagável neste aspecto. Ele molda o vento, arruma as árvores e nossas curvas. O tempo nos leva e nos traz muitas vezes para nossos encontros com a vida.  A calma de olhar o trajeto das folhas pela janela e escutar os ruídos e os clamorosos compassos de Éolo também é presente deste ir e vir das horas.

Muitas vezes, este ir e vir nos acompanha de uma chacoalhada. Um susto, uma rasteira, uma tirada de chão. É Chronos que bate a porta para exigir destrezas, para exigir atitudes, para pedir sonhos e movimentos. A vida requer comprometimento. É preciso crescer. É preciso transformar-se. É preciso ser luz.

Uma de minhas maiores dificuldades é compreender o porquê de muitas pessoas, nestas volteadas de cochilha que o tempo espera a espreita, buscarem o caminho dos fundos. São pessoas prontas para o amor, desejosas por amar, mas que simplesmente não se permitem. Este é meu verdadeiro aprendizado: aprender a compreender as fraquezas alheias, tão minhas. Aceitar do outro o que o outro consegue oferecer. Aceitar o tempo do outro, a necessidade do outro. Reconhecer e aceitar as minhas necessidades. 

Em tempos de crescimento, de fazer as malas e ser gente grande, é preciso iluminar. Simplesmente (e com simplicidade) encontrar o caminho e partir em buscas de realizações, de semeaduras e de novos ares. 

Demoramos muito para nos descobrirmos, reconhecermos nossa identidade. E descobrindo (bem de poucos), é fundamental ter coragem de nos olharmos e nos percebermos gente, demasiadamente humanos. O tempo é um amigo impagável neste aspecto.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Best-sellers e casamentos




Acho fabuloso ir ao mercado comprar comidinhas e leitura.  Na última ida ao super comprei um livro que me ganhou pela capa: um enorme coração com o título intrigante de "Comprometida". São destes best-sellers que muitos de meus antigos professores da academia chamariam "porcaria". Eu estou me divertindo horrores!

O livro conta a saga de uma mulher frustrada com a instituição "casamento". Após um longo e sofrido divórcio, decide nunca mais unir-se legalmente a outro homem. Porém, como na, vida não há mal que dure para sempre, a personagem norte-americana se apaixona por um estrangeiro, um brasileiro chamado Felipe. Por ele, para que não seja deportado, passa a repensar seus conceitos, superar seus desmandos, duas desilusões, seus monstros interiores. Para emergir para esta nova relação que se apresenta, ela decide conhecer como mulheres de diferentes culturas concebem a união.

Em meio as minhas leituras, fiquei pensando que coisas eu penso sobre o casamento. Eu que sou mulher, gaúcha, brasileira, latino-americana, ocidental. 

Na minha família, acho que todas as mulheres casaram. Teve prima que fugiu para casar e viver o amor. Eu, no entanto, sempre tive certo medo deste tipo de contrato. Estas questões judiciais sempre me pareceram meio nebulosas, sujeitas a burlas e enganos. Deve ser o mal de ser filha e irmã de advogado a gente se cria desconfiado. 

Quando eu penso em casamento, penso apenas em união. Mas não aquela de escovas de dentes e gavetas do guarda-roupa. Casar é aceitar caminhar do lado, planejar a vida e sonhar juntos. É aceitar que não há perfeição e que no dia-a-dia é preciso ser amor e sombra para amansar e refrescar as dores da alma, sempre com o respeito de quem olha nos olhos e oferece o ombro amigo. Casar é ser cúmplice em vida, pela vida, com vida. 

Acho fabuloso ir ao mercado comprar comidinhas, leitura e reflexões sobre a vida.  Esta última ida ao super me fez pensar que casamento não precisa de contrato, mas que sendo amor, precisa de união. E é a união (e não os papéis e direitos civis) que faz o casamento.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

De abraços e adeus



Na rodoviária, o abraço estende-se no espaço
ancora, no corpo, a presença do outro
É cedo. É tarde.

Os peitos se afagam envoltos em braços, carinhos, em mãos e aconchegos.
É o corpo dizendo adeus.
É cedo. É tarde.

Da plataforma,
o relógio marca, em despedida,
os segundos da partida.

Partido segue o homem
Partida segue a paixão.

Na plataforma,
o abraço estende-se no espaço outra vez.
Já não é tarde. É cedo.
É tempo de ser dois.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

As memórias



Cada um vivencia a morte a sua maneira. No México, por exemplo, de 31 de outubro a 2 de novembro, há celebração para "el día de los muertos". Sim, celebração! As pessoas preparam um altar com flores, velas, adereços (muitas caveirinhas) e preparam os alimentos preferidos de seus antepassados. Acreditam os mexicanos que, no "día de los muertos", os espíritos de seus familiares vem visitar os que ainda padecem na esfera terrena. É dia de festa, de alegria!

No Brasil, por sua vez, o dia de finados é dia (meio) fúnebre, de visitar cemitérios e colocar flores em seus jazigos. Há cemitérios, como o que está enterrado o cantor gaúcho Teixeirinha, que há música, muita música para alegrar a visita dos vivos. Há outros que levam pequenas orquestras para desanuviar a atmosfera com música clássica.

Para mim, desde os 8 anos, o dia de finados sempre foi um dia triste em que eu tentava (mais uma vez) superar a ausência do meu pai. Passados tantos anos de sua morte, ainda não compreendo como é possível  - dia a dia - viver sem a presença maravilhosa de sua alegria. Era faceiro o meu velho! Era meu parceiro de histórias e de pescarias, de descobertas e planos para o futuro. Ele entendia a minha alma como ninguém. Eu ainda escuto os seus ruídos pela casa, sua risada estampando a boca de meu irmão - tão parecido com ele. Mas é, sobretudo, na minha estante, que marco nossos encontros diários. Os livros sempre foram nossa paixão compartilhada! 

Meu pai foi um homem admirável! Destes que passados anos não se consegue esquecer. Sentado na sua mesa de trabalho, onde advogava, escrevia poemas, textos críticos sobre literatura e cultura gaúcha e canções que abriam as janelas da alma. Escrevia comigo no colo e me iniciava nas artes das letras. Acho que ele sabia que na (e com a) escrita e na (e com a) leitura, sempre estaríamos juntos. "E assim nos permanecemos"!

Deve ser por isso que quando penso, hoje, o feriado de finados penso em vida. Penso nas memórias que me fazem ser neste exato momento aquela que escreve esta crônica semanal. Penso nas minhas superações, nas minhas conquistas, nos meus projetos futuros, nas minhas falhas e nas marcas que quero deixar pelo caminho. Estas marcas podem ser uma eternidade e uma presença importante para alguém...afinal, cada um vivencia a morte a sua maneira.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Para além das fronteiras

Eu sou de músicas pela casa. Sou dos sarandeios e das coreografias imaginárias dançadas de pé descalço.  Sou de balançar o corpo e sacudir a alma ao som de qualquer cantiga, seja com mp3, seja com rádio a pilha. Se o coração me levar, sou dançarina e bailo braços e sorrisos de iluminar quimeras.

Quando criança, esperava ansiosamente as tardes de domingo. Nestas tardes, na rádio da universidade, um radialista levava histórias para a casa de muitos ouvintes. Eu ficava quietinha, escutando e tentando adivinhar os porquês, os finais, o depois dos personagens. Eu sempre gostei de olhar para as pessoas e saber de suas riquezas incalculáveis, suas bagagens perdidas na memória das estações da vida.

Os LPs e as fita K7 faziam a minha festa nos demais dias da semana. Escutava o que escutavam os meus pais. Adorava Francisco Petrônio e o Grande Baile da Saudade e talvez agora o verso "ah que saudade tenho dos bailes de outrora" faça, ainda, mais sentido. Era um tempo em que sertanejo cantava música de raiz, falava das coisas da terra, da vida e das dificuldades do campo e música gaúcha obrigatoriamente tinha que ter passado pela Califórnia. Aliás, bons tempos os dos festivais, pois davam espaço e voz para artistas maravilhosos como Antônio Augusto Ferreira, César Passarinho e tantos mais. 

Na fronteira, o rádio é ainda mais interessante. Primeiro, porque as músicas não muraram muito. Aqui, ainda se escuta estas músicas inesquecíveis de outros tempos. Depois, porque aqui esta fronteira (quase) não existe. 

Em Santa Maria, esperava passar a meia-noite para sintonizar as rádios da Argentina e tinha grande dificuldade de escutá-las sem ruído. Era pela internet que isso funcionava melhor, mas se perdia o encantamento da sintonia, do rádio do lado, do som característico das estações AM. Aqui na região de fronteira, isto não acontece. Após às 18 horas, quase todas as rádios são do outro lado. É como se nos acercássemos mais e apagássemos as linhas divisórias que delimitam espaços, línguas e culturas (y otras cositas más). 


Na região da fronteira, o rádio inunda a casa, inunda a minha casa. Com seus comentários, suas memórias e suas músicas, eu sarandeio memórias e crio coreografias para o futuro. Se o coração me levar...se o coração me levar... sou dançarina e bailo braços e sorrisos de iluminar quimeras.

domingo, 13 de outubro de 2013

Poema dos teus olhos

Podia ser canção estes teus olhos
cama cálida de abraçar invernos

primavera, teus olhos-esperança
verões podiam ser, renascidos nos meus...

verão teus olhos-estrelas
verão renascer em mim
vento norte de tuas estações.

(ainda) sobre livros e (re)leituras

Eu sou uma leitora que se apega fácil e que sente saudade das leituras. Eu me apaixono fácil e morro de amores por elas. Estes dias, fui a uma livraria reencontrar Clarice Lispector. Fui invadida por uma necessidade absurda. Inexplicável. Eu precisava reler "A Hora da Estrela", precisava me encontrar nas frases inteligentes, sensíveis da autora. 

Clarice começa o livro com uma frase louvável, um verdadeiro convite para a leitura e para a vida: "Tudo no mundo começou com um sim". O sim nos leva a próxima página e a próxima e ao final do livro.

Há frases que são um livro todo. Há frases que nos permitem seguir lendo nossos interiores depois de fechada a portada do livro. Há, em meio a estes livros, autores e personagens que fazem parte da vida da gente, como um parente próximo.

Em "A Hora da Estrela", há períodos de tirar o fôlego. Há poesia entre os parágrafos. Há descobertas sobre nós...Em meio a leitura, descobri por que leio e escrevo tanto: puro desconhecimento de mim. "Vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino", assim declara o narrador. Assim somos nós, leitores de nós mesmos - livros em construção. 

Mas não é só com a Clarice que me acontece isso. Eu sempre preciso respirar fundo as palavras escritas, lidas. A primeira vez que me lembro de parar a leitura para ruminar meus pensamentos eu ainda era criança. Na adolescência, quando as leituras filosóficas invadiram minha cama, parei muitas vezes para me encontrar. Lembro que em Ecce Homo (Nietzsche) fiquei dias sem conseguir sair da frase "a consciência é uma superfície". Ainda me lembro dela e mergulho nos meus pensamentos. Se a consciência é uma superfície, como é possível encontrar as entrelinhas de nossas páginas mais profundas?

É preciso ter olhos de poesia para não se perder em meio a estes labirintos de linguagem(ns). É preciso ser Teseu e carregar novelos e novelos de lã por estas empreitadas interiores que a literatura nos proporciona. E, mortal que se é, é preciso ver além da prosa, é preciso sentir as palavras e ruminar os sentidos que há em frases como "a tristeza é uma alegria falhada" (Clarice Lispector, em "A Hora da Estrela").

É preciso se permitir! Boa leitura!

Google imagens (Teseu e o Minotauro)






sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Meus livros e suas histórias

Entre as histórias que me emocionam traço uma história paralela. É uma narrativa feita por mim, para mim. Coisa de quem tem um carinho especial pela obra, pelas obras, um apego material, uma dependência emocional, um amor inexplicável, inesgotável.

Meus livros são meus bens mais caros. São minha fortuna. São minha herança e o meu ciúme. São companheiros em meio as minhas crises existenciais, são minha companhia em noites de inverno, em noites de presença e em noites de solidão. Viajam comigo e viajo com eles. Nosso conúbio é entre nossas narrativas, nossas teias formada de palavras, espaços, tempo e personagens. 

Meus livros carregam uma história paralela escrita por mim.

Eu era adolescente quando comecei a escrevê-la.  Lembro que juntei um dinheiro para comprar meu primeiro livro de poemas. Fui ao centro da cidade e comprei uma versão barata dos poemas do Olavo Bilac. Me senti a pessoa mais rica e importante do mundo.

Eu já havia lido todos os livros da estante do meu pai. Conhecia a literatura do Rio Grande do Sul  e fazia incursões pela história. Mas livro meu, só tinha "História do Mundo para as Crianças", do Monteiro Lobato, livro que me acompanhou por muitas noites infantis, ao lado da cama e entre as mãos leitoras de meu pai. Eu já havia devorado os livros da biblioteca da escola, mas livro meu, livro comprado por mim, com meu dinheiro, eu ainda não tinha. Ainda hoje o livro de poemas do poeta das estrelas está em destaque na minha estante...

Foi nele que escrevi as primeiras frases desta narrativa não linear de meus livros. Esta história que pode ser iniciada por qualquer um deles e que levará a qualquer um dos mais de 500 que já habitam minha casa literária. Esta representação de minhas paixões, de meus sonhos, de meus desejos...cada livro traz um dado importante nas primeiras páginas, são indicações, vestígios de mim, de minhas facetas e minhas caminhadas. 

Escrita com todas as tintas, com todas as cores, estas narrativas permanecerão quando eu for apenas saudade, lembrança do que já não sou. Narrativas de mim, a história dos meus livros seguirão sendo linha e agulha para tecer o amanhã dos meus.. 
Google imagens.

domingo, 29 de setembro de 2013

Para Antônia, que amo tanto!



Antônia,


É tão bom saber que vens que faltam-me palavras para dizer da minha alegria. É algo inexplicável, como um encontro que esperamos há tempos. Não sabemos o que vestir, como arrumar o cabelo, como movimentar o corpo, os gestos - porque a alma está em festa. Há uma agitação em meu espírito. Te espero desde outras primaveras.



Já consigo te ver luz, iluminando toda uma existência. Teus pais serão outros. Já são, saiba! Desde que souberam que virias, passou a circular uma energia ainda mais bonita entre eles. Tua chegada anuncia tempo bom. Há uma alegria que logo verás nos olhos deles, teus maiores companheiros, teus amigos de (e para) uma vida toda. 



Teu pai já respira tua vinda. Agora, tem jeito e sonhos de homem que semeia laços e colhe abraços que só se faz em família. Vejo o espírito dele sossegado, preparado para te receber. Em anos, é como se visse meu pai novamente, acredite. Ele será inesquecível para ti como foi comigo e como nosso pai foi para a gente. Confie em mim!



Tua mãe te deseja visivelmente. Tua estás nela, refletida. E cada centímetro teu, cada centímetro que cresces - ela se descobre em meio a um amor inesgotável, imensurável. Tua mãe será teu porto seguro. Firme e amável saberá sempre te conduzir pelo bem. É lindo ver o caminho que te recebe... e ela, a tua mãe, te espera de braços abertos.



Eu, tua dinda... te espero em poesia, te espero corpo e espírito...te espero para estar, nesta vida, sendo o apoio, a palavra, o leme, a luz que  precisares, em cada momento que precisares, que desejares. Te espero para caminharmos juntas...



Tu Antônia, que te traduz "amiga inestimável" será para mim mais um presente (como são os teus primos), mais uma oportunidade para me tornar melhor, para aprender a viver melhor...cresceremos todos juntos!



A ti, Antônia...a ti que já me fazes tão bem, que já me trazes tantas alegrias... obrigada!

domingo, 22 de setembro de 2013

O Tempo e o Vento: leituras e emoções.

Em pleno 20 de setembro, dia do Gaúcho, uma semana antes da estréia no restante do Brasil, estreou em todos os cinemas do Rio Grande do Sul o filme "O Tempo e o Vento", filme baseado no romance histórico de Érico Veríssimo. A qualidade da produção é inquestionável. Foi feito um investimento para gaúcho nenhum botar defeito... 

Nas salas de cinema lotadas, misturaram-se pessoas de todas as idades. Idosos, adultos, jovens e crianças formaram filas e filas para ver uma das mais importantes representações literárias do nosso país. Eu, que sou de fiar o tempo em meio as páginas dos livros, fui conferir a produção. 

Não sei como seria ver o filme sem ter lido todos os sete tomos escritos por Érico Veríssimo. Eu devorei, avidamente, "O Tempo e o Vento"  Com Ana Terra, senti os ventos que traziam os mortos de todos os tempos para dentro do sobrado e para as ruas de Santa Fé. Com Bibiana, me apaixonei pelo Rodrigo quando este entrou no vilarejo e chorei com ela e Bolívar junto a sepultura do Capitão. O Continente I é, sem dúvida, uma narrativa marcante para mim. 

Eu que sempre fui de histórias, vi no capítulo "A Fonte" a formação do Rio Grande do Sul. As matrizes platina e lusitana entrelaçadas no nosso sangue de gaúcho, representados por Pedro Terra - fruto do amor de Ana e Pedro Missioneiro, descendentes de bandeirantes portugueses, índios e castelhanos respectivamente. Li na obra de Érico a peleia que marcava a década de 30 no nosso estado: de uma lado, o Instituto Histórico do RS, afirmando nosso laço lusitano, brasileiro, excluindo todos os demais tentos. De outro, Manoelito de Ornellas olhando nosso formação para além dos nossos contornos geográficos à época da revolução guaranítica. 

Há narrativas que contam a vida da gente, a vida que, de alguma forma, configura-se como a vida da gente. "O Tempo e o Vento" é uma destas narrativas que são nossa representação como povo. Nela percebemos toda a configuração de nossa história, de nossa cultura, do tipo social sulino.

Eu, leitora de Érico... eu que não consegui ver o filme de Jayme Monjardin sem relacionar as duas formas de representação: a literária e a cinematográfica...eu, leitora de Érico, que me emocionei na primeira cena do filme... que me emocionei com o olhar de Fernanda Montenegro como Bibiana.... que me apaixonei pelo Capitão Rodrigo de Thiago Lacerda - Eu recomendo o filme! Não há como não sair, depois de tanto tempo sendo cara e corpo de Tarcisio Meira, com um Rodrigo renovado... ainda mais bem interpretado. 

Depois do filme (depois da obra de Érico Veríssimo), permanece na memória a roca, o fiar e o tempo... para tecermos nossa caminhada diante das infinitas leituras que o mundo e as palavras nos proporcionam...sempre ao embalo do vento!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Das mudanças


Navegar é preciso, versejou Fernando Pessoa em uma de suas mais conhecidas poesias. Em meio ao turbilhão de eventos de nossa vida moderna eu diria: mudar é preciso, mudar sempre é preciso. Mudar é uma condição para que haja vida... 

A própria natureza foi programada para este tipo de configuração temporal, se repararmos. A cada dia nos tornamos um pouco mais maduros para a vida. As experiências vividas nos mostram os caminhos, nos auxiliam nas escolhas, moldam nossas realidades. Experenciar é viver e viver é um conúbio com o tempo, no tempo, para o tempo. 

Estas questões de temporalidade me fizeram recordar "O Curioso caso de Benjamin Button", filme protagonizado por Brad Pitty. Neste filme, Button enfrenta o tempo e a finitude que marcam o ser humano numa inversão interessante. O personagem nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos, morrendo bebê. O ápice de sua maturidade está na juventude bem vivida entre os braços de Daysi. Sem levar em conta as questões que implicariam esta inversão na vida dos demais, no destino dos demais, é significativo pensarmos a experiência. É o inverso de morrer, sem abandonar a morte diária de nossas perspectivas. Caminhamos para nos tornarmos mais velhos, Button caminhada para se tornar um recém nascido. Metáfora interessante se buscarmos o sentido da vida, de nossa vida: para onde caminhamos afinal?

O fato é que a mudança está abraçada com a morte. A morte como algo natural. Quando mudamos de casa, abandonamos nossa morada antiga e (re)significamos novos espaços. Quando fazemos aniversário, mudamos nossos números e deixamos o tempo fazer seu trabalho, marcando nossa face com suas estrias. Mudar é natural. Mudamos sempre.

A grande questão em mudar - seja a mudança que for - é estarmos abertos e de coração limpo para o que precisarmos dar sentido novamente. Mudar é se permitir ser outro, renovado, outra vez e sempre e sempre que preciso for, mudar e mudar de novo. 

E quando as mudanças deixam marcas queridas no caminho, guardar a memória e a presença em espaço muito especial para rememorar, reviver, reencontrar. Afinal, em mudanças, há sempre uma camisa que deixamos na casa antiga, sempre uma fotografia da rua de nossa infância, sempre um amor que não se apagou, sempre uma possibilidade de retorno.


google imagens

terça-feira, 3 de setembro de 2013

De sabores e leituras para um primeiro encontro

Ler, já escreveu Paulo Freire, vai além de decodificar as palavras. A leitura nos permite ampliar saberes, visões acerca do mundo, das coisas, das pessoas, das circunstâncias. Ler nos permite entrar no mundo mágico da imaginação e dar voz, cara, cor e cheiro aos nossos personagens. A leitura é um pomar de sabores diversos que buscamos conforme nossa fome. 


Para além deste “abrir a janela” e ver o que há na rua, nas casas a volta, atrás dos montes e no caminho do horizonte – a leitura é carregada de temperos e de descobertas sobre quem somos. Ler é estar frente a frente com o reflexo de nós mesmos.

Importante saber que na leitura não é o autor o grande personagem da trama. Ele é coadjuvante, prato secundário na mesa de nossas preferências. Roland Barthes, em “A morte do autor”, revela que é com o leitor que o texto ganha forma e manifesta seus sentidos. Para Barthes, “o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita". Aqui, cada sentido pertence a aquele que me lê neste espaço. E juntos somos uma biblioteca inteira.

Nossa leitura é encontro. É no texto que nos (re)conhecemos. Eu, escriba e você, leitor, que preenche os espaços e reconhece o sabor de minhas intenções. Sim, meu texto é carregado de sabores – você os verá e os reconhecerá palavra a palavra. São palavras recheadas de poesia, cuidadas com mãos de romance. Há temperos de outras paragens, de outros tempos, sobrevividos aos temporais e secas de minha memória. São leituras de outras leituras – uma rede de sentidos que só acontece quando o jornal ganha as ruas e as mãos dos transeuntes... quando o leitor decide me encontrar no espaço da página.

Leitura é prazer. Prazer em conhecer-nos.  



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Em férias, todo dia é de poesia - toda escrita parte de mim.

Estou nas últimas páginas de "A eternidade e o desejo", de Inês Pedrosa. Descoberta de 2013, me envolvo entre seus narradores intercalados, múltiplos. São mulheres, são homens - humanamente revelados nas não ditas palavras e nas ditas de corpo inteiro.

Nesta obra, revisitei Antonio Vieira. Que lindo vê-lo assim, no intertexto - conectando sua poesia no fio de minha narrativa interior. Vê-lo através da narração de uma cega - Clara - tão carente de vivências, de amores, tão apaixonada pelo passado que não foi, que já passou. Ver a iminência dos atos, do não realizado, do (a) realizar-se. Com Clara e Sebastião, no calor da Bahia, fui a Portugal e me deleitei em imagens conhecidas do Brasil. Caminhos percorridos pelo leitor inquieto... lembrei-me dos tempos de Literatura portuguesa e os sonhos com as ruelas de Queirós, de Pessoa... os sonhos me movem.

Sim, é verdade! Quando leio, me leio. Construo meu universo literário de imagens, de palavreados, de palavrimagensonoras. Eu (realmente) desafino. Não sou de canonizar meus pensamentos. Eu os reviro. E virando-os, dou vida ao simples caminhar das horas. Caminho com a mão ao lado, carente de demoras...de entregas...A vida  - foi escrito - foi feita para encontrar. Eu encontro. As cegas. E tenho medo do que não vejo nos livros.

No livro aberto, deleito-me nos poemas que ainda não fiz...na poesia que me inunda... nos caminhos que virão...enquanto o próximo livro de Inês me espreita da estante, no instante.







terça-feira, 9 de julho de 2013

Cyndi Lauper foi o tema de minha infância. É, eu sou dos 80. Eu corri de bici na rua do Fontoura Ilha, tomei pepsi e masquei bolin bola. Dormi ao som de cururus e histórias fantásticas. Fiz turismo no cemitério municipal. Eu fui, eu sou feliz... e morro de saudade das conversas na sacada da rua Padre Pedro Luis... intermináveis madrugadas construindo amizades. Saudades do teu abraço Adriana Fernandes, do teu abraço Alexandre Fernandes e do teu abraço Elizandra Fernandes.

É impossível não amar vocês!



sábado, 6 de julho de 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Carta a quem chega e é bem-vind@!

Carta a quem chega e é bem-vind@!

Querid@ sobrinh@,
É provável que daqui três  ou quatro anos tu estejas recém juntando as primeiras vogais, escrevendo teu nome. Teu nome – tão importante mesmo antes de te conhecer, de saber se  te direi “meu” ou se te direi “minha” (viste, sou possessiva – é excesso de amor!). Tu ainda não lerás minhas escrituras, meus segredos – mas já serás leitor de meus olhos – apaixonados por ti, luz de nossas vidas.

Hoje são 4 de julho de 2013. Há dois dias ensaio um poema para brindar tua vinda. E vida, inunda minha madrugada insone. Estou feliz e sonho acordada! És poesia, acredite! Mas  meus dedos prosas teimam em escrever para o teu futuro.

Teu futuro... nosso futuro...

Quero que saibas que sempre te amei. Te amo de outros tempos. Fui destinada a ser a guardiã de teus brinquedos imaginários, de brincadeiras de faz de conta, de bolos e comidinhas de verdade... prometo nos aventurarmos por bibliotecas e mundos encantados...lá, fantasia engrandece a gente...vamos ser grandes junt@s?!

Teu futuro... nosso futuro...

É provável que um dia leias esta carta – que a leiam para ti, que leias para teus amig@s, para teus avós. Cada letra foi um “bem-vind@”! Em cada letra, saiba – em cada sentimento que movimentou cada letra na página em branco do papel – era amor, puro amor.

É certo que por ti me moverei... nos moveremos todos... nos tornaremos melhores já da tua chegada, porque por ti – por ti e pelos teus primos – toda terra é campo fértil para primaveras em nossas almas.

É tão maravilhoso ser tia!
Ser tua tia!


Tia Lise.


terça-feira, 11 de junho de 2013

Para o dia dos Namorados




Eu sempre quis um amor que...

me esperasse de porta aberta e sorriso largo
sem medo de tempestades e com coragem de super-herói
me segurasse a mão e caminhasse junto em tempestades e dias de sol
sempre quis um homem metade senhor, metade menino
sem metades para o amor

sempre esperei um amor que me amasse por inteiro
quisesse cem por cento de mim
e desse cem por cento de si  mesmo
que sonhasse futuros
e desejasse presentes
sem deixar de ser hoje o passado que o formou

sempre sonhei com um amor que desse flores imaginárias
em dias de não ser
que me acordasse iluminado de desejo
e fosse dormir com vida nos olhos

sempre quis um amor que amasse a vida
que inspirasse poesia e poesia fosse
e poesia escrevesse nas minhas curvas
sem receio dos rabiscos, dos traçados
das versões finais...nem sempre bem acabadas

sempre quis um amor que não temesse o erro
mas que sobretudo não temesse reconhecer ter errado
que fosse honesto nas palavras
e mais honesto ainda nas atitudes

sempre quis um amor que fosse diálogo
entre os corpos, entre as almas, entre os olhos
sem meias palavras
frente a frente
cara a cara

sempre quis um amor que me fizesse sonhar
sonhar assim... sem medo
simplesmente sonhar.

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, AMOR!



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Inês Pedrosa Again

Novamente fui invadida pela leitura de Inês Pedrosa. Depois de "Em tuas mãos", também presente do meu companheiro de leituras e vivências - o meu amor - achei que levaria um tempo mais para me surpreender com uma nova narrativa.

Pois lindo foi deparar-me com ela, refeita.

"A eternidade e o desejo" além de abarcar metáforas lindas criadas pelos narradores Sebastião e Clara - traz, em sua teia literária - uma costura com os Sermões de Vieira.

Eis o fio que não nos deixa perder as páginas seguintes...

Descobrimos, por fim, que nossa cegueira é imensa...que Inês se recria e que Vieira é eterno.

Quer conhecer o "recheio" do livro"? Leia aqui... e não perca as próximas postagens!

De mim



Sou emoção. Sou um turbilhão de emoções.

Se as mulheres em geral proferem 5000 palavras por dia, na contrapartida das 1500 ditas pelos homens..nos dias a flor da pele, sou o dobro. Sou catártica em cada verbo!

Não rumino meus nós. Eu os aperto. Eu os esgarço entre minhas entranhas.

No emocionar, nos deparamos nuas na frente de nós mesmas... e não é possível nem preciso mentiras - todo diálogo é uma confissão. Eu me absolvo e me condeno em meios aos meus pecados... não preciso testemunha.

Me perco. Me acho. E neste ir e vir de mim, descubro meus desamores.

Já não quero mais não sonhar... de realidades, os fracassos estão cheios.

Por favor... me encontre na / com a alegria!
=D
By me for me,
Ange








domingo, 12 de maio de 2013

Para o exercício da licença poética

"De ontens e de mins" - para uma poesia do presente

Minha infância tem o movimento dos rios, de peixes e pandorgas
tem Cinco Marias pescadas no céu de muitas histórias.

Tempo de alegrias e videogames, meus passos de menina
correm pega-pega a rua de minha casa...
correm bonecas,
rolimãs e carrinhos formados de vento.

Minha infância tem cheiro de comidinha de faz de conta
tem roupas de mãe ...
futuros sonhados em passos de vir a ser.

Foi na bicicleta de minha infância
que me descobri,
primeira vez,
criança-alada.

Angelise Fagundes, poesia escrita durante a a formação do PNAIC, na UFSM, em maio de 2013.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Minhas leituras concretizadas em um abraço sob a noite de Santa Maria
 (2 de maio de 2013)!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Mais um pouco de mim na Praça Saldanha Marinho


Sexta-feira, na nossa Feira do Livro, mais um de meus poemas...


Sin palabras

Com o tempo, nosso ouvido, nossos olhos, nossas emoções vão sendo aguçados ou perdendo a sensibilidade diante do mundo. Há dias venho pensando no poder que as palavras exercem sobre nós. O quanto nos moldamos diante delas. 

Rubem Alves, uma de minhas leituras mais cálidas, coloca que as palavras moldam o nosso corpo. Como homens, são elas que nos humanizam (ou não). Nós somos diante do mundo um universo inteiro a ser descoberto. 

Mas é preciso não ter ilusão!

A correria do mundo levou do homem a capacidade de olhar à frente, ao lado. Há um "nãoseimportar" comendo a vida das pessoas. 

Preciso confessar que isso me aterroriza. Eu sou um ser de palavras. Elas me moldaram, mas não me fizeram cega, nem surda. Eu vejo e sinto as pessoas (e suas energias) nas suas palavras e nos seus silêncios. Me dói saber dos homens suas fraquezas, suas essências tão perversamente modificadas... 

A vida, às vezes, carrega azedume nas almas.

Algumas pessoas, diante do fel de suas fraquezas, descarregam na alegria da gente suas palavras forjadas a facão, seus silêncios de apagar caminhos.

Frente a isso, vários caminhos... 

Já não mais acreditando que "águas passadas não movem moinhos"... Movem o de muita gente que se prende a estes, a sua estrutura, a sua composição, ao seu movimento.

Meu moinho tem água nova, tem movimento de quem quer a alegria dos dias...sorriso na cara, verdade na alma. Diante de "palavras" e silêncios, sou nova lauda.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Reflexões de boteco

Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas  por medo da onça. De suas trilhas sabem tudo, os mesmos detalhes, especialistas, mas o resto da floresta permanece desconhecido. (Rubem Alves)


O que é ler? Como posso ler sem corromper-me com a ideia de que carrego uma verdade? Como posso proferir que alguém leu mal algo? Ler é ler em cada etapa da descoberta em que eu, leitora, me encontro. Ler tem relação com a forma como eu dialogo com as vozes do texto (Roland Barthes). Cada texto tem mil vozes e eu vou abrindo os meus ouvidos para cada uma delas.
Minha vida caminha ao encontro destes sons. Não quero receitas nem proferir discursos vazios de vivências. Eu quero simplesmente abrir as minhas asas e voar. Que importa se meu voo sair trêmulo um dia ou outro? Eu me arrisco na arte de errar. Eu erro como quem quer acertar, mas não penso no acerto para a nota que o professor expõe no mural da escola dos dias. Eu quero acertar a vida, simplesmente.
Ler não é para os orgulhosos ... é ver o outro, os outros..VER...
Ver é exercício humilde do artesão da vida.

Angelise Fagundes

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Benedetti

Poesia é meu remédio para todas as dores... hoje, para iluminar o caminho, "Previsión", de Mario Benedetti ...

"De vez en cuando es bueno
ser consciente
de que hoy
de que ahora
estamos fabricando
las nostalgias
que descongelarán
algún futuro".

domingo, 31 de março de 2013

"Ai palavras, ai palavras..."

Cecília Meireles versejou estas verdades em seu Romanceiro da Inconfidência...

"Ai palavras, ai palavras...estranha potência a vossa"

Eu fico aqui tentando compreender os meus silêncios... ai silêncio, ai silêncio, entranho significado o vosso.

sábado, 30 de março de 2013

Vuelan cometas por el cielo fronterizo

Vierne Santo. A caminho da fronteira, me deparo com uma tradição interessante pelos céus deste contorno geográfico sureño. Coloridas, de todas as formas, as pandorgas invadem o céu de meninos e meninas de todas as idades.

Trazida por españoles de Valencia, las cometas invadiram os céus de Rosário, Livramento e Rivera. São sonhos volando o universo destes meninos que, desde 1970, disputam concurso internacional de Pandorgas. Os melhores pandorgueiros da fronteira são premiados em distintas categorias julgadas por uma comissão, segundo uma pesquisa rápida que fiz pelo google.

É um show de acrobacias!!!


E nos movimentos da minha memória, no céu que meus olhos abarca... vai ficar a imagem daquele menino sem camisa, com seu  "cometa" na mão, correndo calçada afora ... sonhando ser papagaio, pipa, pandorga nos céus uruguayos.. em mim, fica o sonho do voo, a vontade de ver pássaros.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Ainda sobre a arte de ouvir...

Para pensarmos no que não pensamos...


O EU...

"Acho muito gratificante conseguir ser verdadeiro, conseguir aproximar-me do que quer que esteja se passando dentro de mim. Gosto quando consigo ouvir-me. Saber realmente o que está acontecendo dentro de mim não é uma coisa simples, mas tenho me sentido encorajado a fazê-lo, pois percebo que durante todos esses anos esta minha capacidade tem melhorado. Estou convencido, no entanto, de que esta é uma tarefa para toda a vida e que nenhum de nós jamais está totalmente apto a entrar em contato, sem dificuldades, com o que está acontecendo no cerne de nossa própria experiência." (Rogers, Carl. Um jeito de Ser. São Paulo: E.P.U, 2012, p. 9)

O OUTRO...

"Encontrar autenticidade em uma pessoa é uma experiência luminosa" (Rogers, Carl. Um jeito de Ser. São Paulo: E.P.U, 2012, p. 10)



quarta-feira, 27 de março de 2013

Um jeito de ser

Todos temos um jeito de nos colocarmos no mundo. Cada um a sua moda, com suas particularidades e medos. 

Eu sempre me coloquei. Sempre fui de abrir as asas e me jogar. Lembro da primeira vez que subi ao palco para declamar um poema. Eu tinha 4 anos. Meu pai sentou perto de mim e conversou como quem me segura a mão e me joga para a vida. Disse que o importante era participar.

Participo desde então. Não sou de sair sem dar adeus, nem chegar sem um sorriso. Calor humano movimenta a vida dentro de mim! E eu me envolvo... 

Meu jeito de participar da vida!

Tenho aprendido, nesta arte de viver, que há algo de extremamente poético na escuta. Muito mais do que um encontro da boca com os ouvidos, é um conúbio de almas. Escutar é abraçar o outro na visibilidade do respeito não declarado

Quando eu escuto alguém, meu ouvido vai além. Ele olha através de suas pupilas ... sim, é preciso cultivar nossas pupilas auditivas, porque nós a temos! É um jeito de chegar a alma daquele que está de passagem.

Escutar, simplesmente ouvir. Com a mesma emoção que sentimos aos sermos ouvidos...

Diante disso, cada um a sua moda, com suas particularidades e medos - nos colocamos no mundo. Um mundo onde se pode Ser, simplesmente.



Post-scriptum: Carl Rogers motivou a escrita deste texto. Sua leitura, sua esclarecedora leitura de mim. 


Do guarda-roupa e da vida

Sempre tive uma relação interessante com o meu guarda-roupa. Sempre. E de alguma forma muito misteriosa ele revela como anda minha vida ...